Perfil: As imagens e o mundo de Erika Ikezili
Estilista paranaense utiliza elementos da arte e da cultura japonesa para criar seu próprio caminho no universo da moda
19.03.2010

Erika Ikezili nos bastidores do São Paulo Fashion Week outono-inverno 2010
A estilista sansei Erika Ikezili, 32 anos, não se preocupa em seguir tendências ou acompanhar de perto o que acontece nas semanas de moda pelo mundo. Um histórico de onze desfiles no São Paulo Fashion Week (SPFW), o maior evento fashion da América Latina, credencia seu trabalho como referência para alunos de moda. Erika, porém, não vê a moda em si como principal fonte de inspiração.
Made in Japan produziu um ensaio fotográfico exclusivo com peças da nova coleção de Erika Ikezili; clique aqui para conferirSuas ideias surgem a partir de obras de literatura, música, artes plásticas, fotografia, da cultura tradicional japonesa ou qualquer outro material que caia em suas mãos e crie faíscas à imaginação.
A inspiração para sua última coleção, “Ilegível, Inteligível”, apresentada em janeiro no SPFW outono-inverno 2010, nasceu depois de a estilista ler o livro A Cabana, de William P. Young, e perceber o poder das letras como geradoras de imagens. A ideia original foi estudada, elaborada e traduzida para peças com aplicações de letras em metal dourado.
O trabalho de Erika tem forte relação com a cultura japonesa. Em 1999, quando era estudante de moda da Faculdade Santa Marcelina e assistente de Alexandre Herchcovitch, a estilista já apontava para direções orientais. Foi nesse ano que apresentou seu trabalho de conclusão de curso, a coleção “Samurai”, inspirada nos guerreiros e nas artes marciais japonesas.
Erica Suzuki
Papel de parede 800 | 1024 | 1280Desde então, os elementos nipônicos têm sido uma constante em suas criações. Erika estreou nas passarelas em 2000, ao fazer parte do Projeto Lab - Casa de Criadores. Seu primeiro desfile no SPFW aconteceu em 2005. Entre os temas que apareceram em suas coleções, ao longo da década, estão as embalagens de furoshiki, o teatro butoh, as gueixas e o universo dos robôs de desenhos animados japoneses.
Erika falou à Made in Japan sobre sua história e seu processo criativo. Confira.
Entrevista - Erika Ikezili
Quando você passou a se interessar pela cultura japonesa?
Não tive muito contato com ela quando era criança, porque fui criada em um bairro onde não havia muitos japoneses. Quando conheci meu marido, ele já tinha uma relação maior com a comunidade nikkei. Por conta da convivência, acabei me interessando por pesquisar a cultura e, para o meu projeto de conclusão de curso de moda, estudei as artes marciais. Me identifiquei muito com a filosofia e, a partir daí, conheci a história dos samurais. Depois, comecei a desenvolver trabalhos, e as pessoas começaram a identificar elementos japoneses neles.
Hoje, os elementos nipônicos estão presentes de forma mais sutil em suas criações?
Os ocidentais costumam identificar o Japão pelos elementos figurativos, como estampas de gueixas e samurais. A faculdade foi a minha fase mais literal (de interpretação da cultura japonesa). Hoje, nas minhas coleções, o japonismo está cada vez mais dentro da construção da roupa e não tanto no figurativo. Virou algo mais conceitual.
Você já bebeu da cultura pop japonesa como fonte criativa. Como é sua relação, hoje, com ela?
Gosto muito do comportamento ligado ao pop, da mistura de looks, dessa coisa inovadora, mas isso já não me chama tanto a atenção quanto a cultura tradicional, mesmo por conta do perfil da minha cliente, que está na faixa dos 35 anos. Gosto mais da harmonia de cores do antigo. No entanto, ainda pesquiso o pop, para saber o que está acontecendo. Ele é o que traz frescor quando se olha para o antigo.
Por que você diz que sua inspiração nasce principalmente da arte e não da moda em si?
Eu não gosto tanto de olhar para o que está pronto; gosto de ter meu próprio caminho. Posso ver livros de moda dos anos 20 e 60, mas isso não vai me trazer ideias para uma coleção. Eu tenho que buscar em coisas mais profundas, como a arte. Gosto muito de ler livros bem descritivos, pois acabam gerando muitas imagens na minha cabeça.
Quais são suas referências japonesas no universo da moda?
O que eu mais gosto, como construção, é a grife Issey Miyake. É uma referência que eu tinha mesmo antes de entrar na faculdade.
Você chegou a ver as coleções dos japoneses presentes na Semana de Moda de Paris (que aconteceu entre 4 e 10 de março)?
Nem olhei para falar a verdade (risos). Não deu tempo. Não é olhar para moda que me inspira, e eu acabo nem indo muito atrás. Gosto de pegar o que não é moda e transformar em referência.
Como você decide o que vai vestir no dia-a-dia?
Eu fico meia hora na frente do armário todo dia. Minhas peças estão todas penduradas e divididas em partes de cima e partes de baixo. Às vezes, vou fazer a maquiagem ou ler um livro enquanto penso. Se estou mais alegre, saio de casa mais colorida e florida. Também tenho fases. Nas fases mais românticas, uso vestidos molengas, menos estruturados. Agora, estou em uma fase de blocos de cor: um bloco na parte de cima e outro na parte de baixo. Ando muito bicolor.
Como você escolhe as peças de roupa para comprar?
No geral, quase tudo o que eu tenho são criações minhas. Há peças que nascem de desejos individuais. Às vezes, quero algo que não tenho em meu armário, então crio. Não costumo comprar em shopping. Tenho algumas roupas de estilistas amigos.
Quando você começou a produzir suas primeiras peças?
Com 10 anos, eu ficava desenhando vestidos o dia inteiro. Fiz meus primeiros testes durante a adolescência, aos 15 ou 16 anos. Comprava tecidos na Rua 25 de Março, fazia o desenho e levava para a costureira executar. Tive também meus primeiros fracassos (risos). Muita coisa não ficava do jeito que eu queria.
Há alguma peça que você produziu, nessa época de adolescência, que foi marcante?
Na verdade, eu não guardei nenhum vestido dessa época. O que me marcou mais foi a época da faculdade, porque eu gosto muito do processo de criação, de como ele acontece. Lá, eu aprendi isso. O exercício de desenhar uma peça e levar para a costureira não é tão importante para mim quanto o estudo e pesquisa da forma, do volume, da cartela de cores. Da soma de tudo isso vem o desenho, que não é apenas uma roupa, mas uma coleção. Há um processo inteiro de criação que, quando completado, geralmente resulta em boas roupas.
.: Veja onde encontrar produtos da grife Erika Ikezili, no site da estilista
Reportagem: Gabriel Nanbu
Fotos: Ricardo Miyajima
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