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Curiosidades

Tatuagem japonesa no Brasil

Mania de tatuagens japonesas vira onda no País; conheça fãs da arte e o significado de alguns desenhos


por Erika Omori
31.12.2009

Especialista em tatuagens japonesas, Osmar exibe os desenhos que fez em sua esposa CleideEspecialista em tatuagens japonesas, Osmar exibe os desenhos que fez em sua esposa CleideOs ideogramas japoneses já tiveram seus dias de glória na epiderme dos brasileiros. Hoje ainda é possível encontrar um ou outro kanji perambulando pelas ruas de São Paulo. Mas a febre dos caracteres nipônicos está perdendo espaço para um outro tipo de tatuagem: os desenhos japoneses. E grandes.

“Há alguns anos, todos os dias tinha gente querendo tatuar kanji. Hoje tatuo pouquíssimas por mês”, informa Osmar Tinto, 38 anos, mais conhecido como Osmar Tattoo. Em seu tranqüilo estúdio na movimentada rua 7 de Abril, centro de São Paulo, o experiente tatuador - ele usa a pele como papel há 20 anos - conta que 90% de seus clientes querem eternizar desenhos japoneses na epiderme.

“Eles procuram muito dragões, carpas e samurais. Muitos tatuam pela beleza do desenho, às vezes pelo significado”, explica. E continua: “geralmente são pessoas com mais de 20 anos. São pessoas resolvidas, que a gente nem imagina que têm tatuagem”.

Dos 20 anos de profissão, 11 são dedicados aos desenhos nipônicos. “A tatuagem japonesa é perfeita. Tem motivo que dá para fazer o corpo inteiro. É um desenho duradouro, que não é modismo. Quem gosta de tatuagem japonesa, gosta de tattoo”, afirma. “Gosto e me identifico com os desenhos. É o tipo de tatuagem que mais me agrada. Me dá prazer fazer tatuagem japonesa”.

O auto-didata Osmar diz que nunca saiu do País, e que aprendeu a fazer tatuagens japonesas observando imagens, livros que ganhou de amigos, e pela internet. Conta que começou a estudar tatuagem japonesa em 1997, totalizando milhares de desenhos nipônicos ao longo de sua carreira. “Nossa, com o dinheiro que já usei para revelar as fotos das tatuagens que já tirei, daria para comprar um fusca!”, brinca.

Húngaro “selvagem”
Entalhador, estrangeiro e selvagem/bárbaro. Estes são os ideogramas que compõem a assinatura de Horiiban, ou melhor, Ivan Szazi, húngaro, de 41 anos, que faz tatuagens japonesas no Brasil.

Ivan tem notado o aumento da procura de tatuagens também pelos nikkeis
Ivan tem notado o aumento da procura de tatuagens também pelos nikkeis

“Não foi muito pelo significado, mas foram os kanjis que mais se aproximaram da sonoridade do meu nome em japonês: Iban”, explica.

Ele nos recebe em seu estúdio, entre hanya, noren, leques, os sete deuses da felicidade e outras referências nipônicas. E assim como no Japão, nada de sapatos no local em que trabalha.

Como Osmar, do qual tatuou o braço direito, Ivan também afirma que “está aumentando a procura por tatuagens orientais, não só no Brasil, mas em outros países”. E avisa: “isso não é moda. Quem gosta de tattoo grande não é por moda”.

A conversa segue embalada ao som de By the grace of God, dos Hellacopters. “O dragão é o desenho número um. Acho que as pessoas gostam porque tem força, é misterioso. Também é um dos desenhos que mais gosto de tatuar”.

Tatuador há 17 anos, e com 11 anos de Brasil, Szazi conta que também notou aumento do número de clientes nikkeis. “Eles dizem que os pais não gostam muito, mas mesmo assim fazem. E muitos optam pelo desenho japonês”, relata.

Usando uma camiseta com os ideogramas Horimichi (entalhar e caminho), assinatura de seu amigo suíço Miki - “posso considerá-lo como meu professor” -, Ivan conta que foi com ele que aprendeu a fazer os primeiros traços.

Também é de autoria de Miki a maioria das tatuagens que cobrem o corpo de Ivan. “Carrego trabalhos de cerca de 50 tatuadores”. Ele próprio já “fechou umas 25 pessoas”.

Tattoo Zen
Para a tatuadora Camila, a arte oriental atrai pelo significadoPara a tatuadora Camila, a arte oriental atrai pelo significadoA tatuadora Camila Rocha, 26 anos, exerce a profissão há oito anos, e estuda os significados e mitos japoneses há quatro. Apaixonada pela cultura nipônica, Camila também dedica-se ao nihon-ga (pintura japonesa) e ainda faz aulas de nihongo (idioma japonês).

Para Camila, o que mais a atrai na arte oriental é a “riqueza que essa cultura traz em relação à humanidade, beleza e crescimento espiritual”.
Segundo a tatuadora, o desenho japonês é mais requisitado por pessoas que se sintam familiarizadas com o significado da tatuagem japonesa, pois “ela é repleta de símbolos como força, honra, respeito, perseverança, entre outros”. E continua: “o mais importante neste estilo é o significado. O desenho vem depois”.

Como valoriza o significado do desenho, Camila, antes de eternizar a tattoo na epiderme, gosta de ter uma longa conversa com seu cliente. “É na conversa que descobrimos o que é melhor para a pessoa tatuar. A escolha é feita de acordo com a história do cliente. E é neste momento que se dá a evolução espiritual. Você pode oferecer na tattoo sentidos de aprimoração e evolução pessoal. Para mim é uma honra dar este presente para a pessoa.

Significados de algumas tatuagens japonesas mais pedidas:

Flores
- Peônia (botan): símbolo de fartura e boa fortuna
- Crisântemo (kiku): perseverança e determinação
- Flor de cerejeira (sakura): flor nacional do Japão, simboliza tudo que é transitório. Também simboliza o tempo e a fragilidade da existência. Os samurais adotaram a sakura como uma insígnia, indicando que eles podem morrer a qualquer momento, em uma batalha

Animais
- Dragão (ryu): símbolo do poder. Por ser a síntese de vários animais - uma serpente com chifres de um cervo, escamas de uma carpa, quatro garras da águia - muitos acreditam que o dragão também representa a força de todas as criaturas que o compõe
- Carpa (koi): chamado como o rei do rio, o koi é visto como um peixe da alegria. Durante o período Muromachi, os samurais admiravam a bravura deste vertebrado aquático.
- Tigre (tora): simboliza o destemor, força, independência

Origem das tatuagens
Muito do que se conhece hoje da cultura e de hábitos japoneses tem, na verdade, origem na China. Uma das heranças que chegou ao arquipélago foi o contexto negativo da tatuagem.

Para os chineses, marcar a pele era um sinal de barbarismo, usado apenas como punição. De acordo com historiadores, o primeiro registro de marcar a pele como punição no Japão, ocorreu no ano 720 d.C. O condenado foi poupado da morte, e sua sentença foi ter sua epiderme marcada.

No início do século 17 até uma codificação foi criada para identificar criminosos e os banidos da sociedade japonesa. Com os símbolos - como pictografias de cachorro, cruz, barra, linha dupla e círculos - era possível saber onde, e qual crime a pessoa cometera.

Para os japoneses, os desenhos eram considerados uma forma muito severa de punição. Indivíduos marcados eram isolados pela família e totalmente excluídos do convívio da sociedade.

Com o passar dos anos, com a popularização das tatuagens, outras formas de castigo substituíram as marcas de punição. Os próprios criminosos começaram a cobrir as pictografias com o irezumi (tatuagem em japonês).

Acredita-se que esta também seja a origem histórica da associação da tatuagem com o crime organizado no Japão, a yakuza. Além das máfias, a tatuagem tornou-se popular entre foras-da-lei, operários e lavradores pobres.

No século 19, o imperador permite que artistas tatuem estrangeiros, mas não os japoneses. Por este motivo, muitos marinheiros contribuíram para a divulgação da tatuagem japonesa pelo mundo. Eles carregavam belos desenhos criados por artistas do ukiyo-e. Os mestres de tatuagem adaptavam as imagens para adequá-las à pele.

As wabori (tatuagem estilo oriental) usam a epiderme como uma grande tela. Um único desenho preenche as costas, e pode vazar pelas pernas, braços, e até fechar (cobrir) todo o corpo.

É bom ressaltar que cobrir o corpo, ou fazer grandes tatuagens japonesas, não significa que a pessoa seja necessariamente um membro da yakuza.

Fotos: Caio Kenji

Essa reportagem foi publicada originalmente na Made in Japan 133

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