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Tradição

Tatuador de yakuza

Brasileiro que vive no Japão faz tatuagens em membros da temida máfia nipônica


por Redação Made in Japan
27.12.2009

Há 8 anos, o brasileiro Adriano Kobayashi já podia ser considerado um veterano da tatuagem no Japão. Na época, ele não tinha estúdio próprio, mas trabalhava para um tatuador japonês em Tóquio, com quem aprendeu a arte do “wabori”, a tatuagem estilo oriental.

Apesar da experiência no ramo, certo dia, Adriano confessa que sentiu medo ao receber um pedido de trabalho - reação natural e inevitável de qualquer um ao saber que suas mãos seriam responsáveis por marcar eternamente o corpo de um membro da máfia japonesa. O estúdio onde trabalhava havia sido requisitado pela yakuza.

No dia marcado, Adriano se dirigiu à casa do cliente. Uma bela residência no meio de mansões em um bairro nobre de Tokyo. A tensão aumentava, uma vez que ele faria também o “irezumi” (tatuagem) na esposa do integrante da yakuza.

Duas tarefas que exigiriam sangue frio, pensava ele. Mas ao ser recepcionado pelo casal, Adriano se surpreendeu. O interior da casa era comum - totalmente diferente daquilo que imaginava da facção do submundo nipônico. Além disso, os anfitriões foram muito educados, o que fez com que o tatuador executasse sua “missão” com profissionalismo.

Depois da emocionante experiência, Adriano continuou sua carreira e hoje tem sua própria loja em Oizumi, na província de Gunma, região com grande concentração de brasileiros. Apesar da grande parcela dos clientes ser de origem verde amarela, ele ainda atende fregueses japoneses, inclusive membros da máfia.

“Um deles, frequenta o estúdio duas vezes por mês para ‘fechar o corpo’ e mesmo assim falta muito tempo para ele finalizar toda a tatuagem”, complementa Adriano. Por conta do processo delicado e demorado, o tatuador acabou criando certa “intimidade” com a yakuza.

“Quando agendo uma data para eles tatuarem comigo, peço para virem discretamente, com roupas casuais. Assim nenhum outro cliente, principalmente os japoneses, se sentirão incomodados. Até aí tudo bem, eles aceitam normalmente. Mas não dá para exigir muito. Eles costumam vir sempre acompanhados por um ou dois ’seguranças’. Não posso pedir para que se retirem do estúdio”, conta o tatuador.

Assim como a primeira experiência, Adriano ressalta que seus clientes mafiosos são extremamente educados, e longe de trazerem problemas, são até bem-vindos na loja, pois “pagam sempre direitinho”, brinca.

“Escolhi tatuar um dragão, por ser o meu signo chinês. Já fui barrado em piscinas públicas e não pude fazer matrícula em uma academina japonesa por causa da tatuagem. Mas tinha noção do preconceito antes mesmo de fazer o desenho, por isso não vejo problema”
Paulo Maruyama, sendo tatuado por Adriano

Entrevista - Adriano Kobayashi

Adriano do Nascimento Kobayashi, mais conhecido como “Tatoo” trabalha com tatuagens a 16 anos. Sua primeira tatugem foi feita nele mesmo com uma máquina caseira. A primeira vez que ele foi procurado por um japonês da Yakuza ele não estranhou pois estava sendo indicado por um outro amigo japonês que ele já tinha tatuado. O membro da Yakuza tinha uma tatuagem começada e pediu para que ele desse continuidade para fechar o corpo. Ele vem de muito longe 2 vezes por mês para ser tatuado, a tatuagem esta em andamento e ainda falta muito para ser terminada.

Como você se tornou um tatuador no Japão?
Estou no Japão há 15 anos e vim para trabalhar na fábrica. No começo, dividia o tempo entre o serviço e a tatuagem, mas aos poucos, passei a me dedicar exclusivamente a essa arte. Aprendi o estilo oriental “wabori” em estúdios japoneses e hoje tenho minha própria loja.

Qual o estilo de tatuagem mais pedido pelos brasileiros no Japão?
Adriano - São pedidos bastante variados, mas o oriental, estilo yakuza, é um dos mais requisitados.

Já houve desentendimento com membro da máfia japonesa?
Até agora não tive e espero não ter! Converso normalmente com meus clientes da yakuza mas sei os limites. Jamais perguntarei algo que não preciso saber. Desde que eu mantenha uma relação profissional, acredito que não haverão problemas.

O que os membros da yakuza acham dos estrangeiros que fazem esse tipo de tatuagem no corpo?
Eles se surpreendem e até acham legal de ver um costume tão tradicional e fechado se tornar moda entre os estrangeiros. Mas já em relação aos japoneses que “fecham o corpo” sem ser da yakuza é outra história…

Que tipo de desenho são mais pedidos pela yakuza?
Dragões, deuses da mitologia shintoísta e budista e principalmente a carpa. Além de representar prosperidade, o peixe, em japonês, se chama “koi”. Essa palavra tem um trocadilho: “koi” também significa algo como “venha!”, ou “pode vir!”, deu pra entender?

Quanto tempo demora para “fechar o corpo”?
Para cobrir braços, peito e costas, geralmente leva-se três anos com duas seções por mês.

Veja também:
.: Tatuagem tradicional japonesa em documentário
.: A moda ousada das garotas de Tóquio
.: Desenhos japoneses à flor da pele

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