O segredo da comida dos sumotoris
A Made In Japan visita um restaurante especializado em chanko nabe, em Tóquio, a comida oficial dos lutadores de sumô
04.07.2009

Prato pode levar até 17 iguarias diferentes
O ex-lutador profissional Kuni-Nishiki Kojiro lidera uma apresentação com canto e poesia, enquanto isso os clientes saboreiam o chanko nabeO que os lutadores de sumô comem? Se você já se fez essa pergunta, provavelmente a imagem que vem à mente é de uma dieta ultracalórica e gordurosa, pois só isso explicaria a “massa” dos praticantes da modalidade. Engano seu, ao menos parcialmente.
O chanko nabe é o prato mais famoso dentro da cultura dos sumotoris (como são chamados os lutadores), e apesar das diferentes receitas utilizadas em cada academia (heya), o conceito é o mesmo no país inteiro: misturar o maior número de ingredientes na panela e cozinhar na água.
O resultado não difere muito dos tradicionais nabe-ryori (pratos de caçarola) do Japão. O mais curioso é que devido à quantidade de verduras e carne branca, a iguaria tem baixa caloria.
O diferencial está no volume, já que dentro da mesma caçarola muitas vezes se mistura peixe, frango, carne de porco, carne de gado, frutos do mar, verduras e legumes.
“Muitos estrangeiros experimentam o prato, e se impressionam com a quantidade de ingredientes utilizados”, diz Atsushi Kataoka, gerente do restaurante Kappo-Yoshiba, de Tóquio, cujo maior atrativo do cardápio é o Yoshiba Nabe, preparado com nada menos que 17 diferentes iguarias.
O gerente Atsushi Kataoka recebe muitos estrangeiros em seu restaurante. Segundo ele, a quantidade de ingredientes assusta até mesmo os clientes mais famintos A casa oferece um ambiente onde o cliente se envolve completamente com o mundo dos gigantes lutadores. Ao descer na estação mais próxima, a primeira construção avistada é o Kokuritsu Kokugikan, onde são realizadas as lutas profissionais em Tóquio.
A probabilidade de dar de cara com um sumotori caminhando na rua é grande, já que a tradicional e respeitada academia Miyagino fica próxima.
Ao entrar, o visitante dá de cara com uma arena de luta com medidas oficiais, herança de uma academia que funcionava na mesma construção há 24 anos.
As cadeiras são subdivididas conforme a proximidade com o círculo sagrado, e quanto mais próxima do centro, mais difícil de conseguir uma reserva.
“O início do inverno é o período mais concorrido, e a casa fica lotada de segunda a segunda”, diz o gerente Kataoka, sem parar de misturar os ingredientes na panela.
Enquanto o chanko nabe não fica pronto, as atenções se voltam para a arena, onde o ex-lutador profissional “Kuni-Nishiki” Kojiro canta e recita poesias, em uma performance conhecida como sumô-jinku.
A apresentação ocorre três vezes por semana, e é uma das mais concorridas atrações do Kappo Yoshiba. Lá literalmente os clientes comem, bebem, cantam e respiram sumô.
Só falta lutar, mas, por enquanto, isso não está incluso no cardápio, pois a arena serve apenas de decoração.
Significado de chanko nabeA palavra chanko faz referência à ligação do Pai (Mestre) e Filho (aprendiz). Antigamente, servia para denominar qualquer comida compartilhada entre os lutadores e seus mestres. Com o tempo foi criada a expressão chanko nabe, específica para o prato que se tornou mais popular entre os sumotoris
“O diferencial do chanko nabe não é o que se come, mas como se come”, diz Pablo Eu experimentei!
“Na arena de luta, que fica no centro do restaurante, o ex-lutador profissional Kuni-Nishiki lidera uma performance de canto e poesia, batizada de sumô-jinku.
Na minha frente, uma enorme e pesada panela de metal. Ao espiar o interior do recipiente, nada de estranho: pedaços de peixe, carne de vaca, carne de porco, coxa de frango, frutos do mar e verduras. Mas tudo ao mesmo tempo?Definitivamente, o diferencial do chanko nabe não é “o que” se come, mas “como” se come. Para se chegar à invejável forma física de um lutador, é necessário que se aprecie de tudo e, se possível, de uma vez só. O porco está mais gostoso que o frango, mas deixa pra lá, tenho um peixe e uma lula para comer.”
Pablo Yuba, repórter da Made in Japan
Esta reportagem foi originalmente publicada na Made in Japan 126
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“O diferencial do chanko nabe não é o que se come, mas como se come”, diz Pablo

