Tradição

A experiência de assistir a um espetáculo de Butoh

Made in Japan conta como é assistir ao desconcertante espetáculo Além das Metáforas do Espelho, do grupo japonês Sankai Juku

por Alexandre Sammogini
08.03.2009

Em “Kagemi” os dançarinos começam imóveis embaixo de enormes flores de lótus. As flores são suspensas e os homens lentamente vão se erguendo ao som de músicas vibrantes.

Assistir a um espetáculo do grupo de dança Sankai Juku não é um programa comum. Com a cabeça raspada, sete dançarinos japoneses Ao final, em um cenário futurista, eles formam uma flor desabrochada …entram em cena empoados de branco dos pés à cabeça. Os primeiros minutos são marcados por movimentos mínimos em um silêncio desconcertante. Estão embaixo de enormes flores de lótus, uma planta sagrada das mitologias egípcia e indiana. Ao amanhecer a flor se volta para o leste como se prestasse honras ao sol nascente e, ao anoitecer, se fecha e submerge na água. Esta é a primeira das diversas metáforas que permeiam a peça. Lentamente, um dos bailarinos, Ushio Amagatsu, coreógrafo e fundador do grupo, começa a movimentar os dedos e as mãos, em seguida, os braços. O início, aparentemente monótono, engana os desavisados.

… e se alinham em dois trios que olham a leste e oesteQuando as batidas da trilha musical começam a retumbar, os corpos e músculos vão pulsando e deslizando em uma dinâmica impressionante. As raízes ganham vida, brotam e vibram. Já não é mais possível desviar o olhar durante quase uma hora e meia da peça “Kagemi”, apresentada em São Paulo em recente temporada. O estilo do grupo é o butoh, que surgiu no Japão do pós-guerra, marcado pelo clima de dor. Através da dança, alguns artistas japoneses decidiram mostrar ao mundo as feridas e a destruição da sociedade nipônica. Não por acaso, a dança foi rejeitada em seu próprio país e até hoje não é considerada uma arte típica japonesa. Mas a proposta ganhou o mundo com uma estética impressionante e temas polêmicos.

Criada nos anos 60 por Tatsumi Hijikata (1928-1986), ficou conhecida inicialmente como a “dança das trevas”. O estilo rompeu com tudo o que se produzia no arquipélago antes da Segunda Guerra. Os ideogramas de butoh significam “dançar” e “marcar passo”, o que remete à teatralidade da dança. Além de Hijikata, outro mestre do butoh é Kazuo Ohno, uma lenda que criou a “dança da luz”, uma contraposição à idéia de trevas. O mestre completou 100 anos em 2006.

Um dos principais herdeiros da tradição do mestre Hijikata é o Sankai Juku, criado em 1975 e radicado até hoje na França. O nome significa “oficina da montanha e do mar”, uma referência aos dois elementos básicos da geografia japonesa. A companhia esteve no Brasil em 2000 com “Unetsu - Ovos em Pé por Curiosidade”.

Em setembro de 2007, voltou com a turnê mundial de Kagemi. O significado de “kage” é sombra e “mi” se refere ao verbo “ver”. Juntos, os ideogramas são entendidos como “espelho”. Nesta peça, os artistas dançam em sete cenas em uma alusão ao ciclo de vida e morte do ser humano.

Papel de parede
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Os dançarinos começam como raízes de plantas, depois andam agachados como primatas e em seguida vão se erguendo até caminharem eretos, em outra das possíveis metáforas da evolução humana. Mais adiante, um círculo com os dançarinos que lembram o desabrochar de uma flor remete à evolução da consciência. Ao final, os bailarinos parecem flutuar, tamanha a delicadeza e refinamento da coreografia.

Entrevista
Confira entrevista com o mestre da dança butoh Ushio Amagatsu, criador do Sankai Juku

Made in Japan - Quais os principais elementos do butoh atual?
Ushio Amagatsu O butoh atualmente aborda dois grandes temas: a “diferença” e a “universalidade”. E é por causa dessas diferenças que a cultura existe e faz com que as pessoas possam interagir sentimentos e emoções entre si.

MJ Por que o Brasil foi escolhido para integrar o roteiro da turnê mundial do grupo em 2007?
Amagatsu Fizemos uma turnê do Kagemi no outono de 2006 pela América do Norte e México. Não visitamos o Brasil desde a performance de 2000, em São Paulo, por isso incluímos o país na turnê de nosso novo trabalho.

MJ - Quem influenciou o seu estilo de dançar?
Amagatsu Conheci Kazuo Ohno por meio de Tatsumi Hijikata e ambos são fortes influências na minha dança. Sentia uma forte conexão com a consciência em relação ao estilo de Ohno, mas creio que eu puxei mais o lado de Hijikata.

MJ - Como o público japonês corresponde às apresentações de butoh?
Amagatsu Não noto distanciamento em relação ao Sankai Juku. Sinto que os japoneses têm uma forma diferente de causar impressões.

Veja também:
.: Kazuo Ohno, 100 anos
.: Galeria Kazuo Ohno, mestre do butoh

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