O sabor da polêmica carne de baleia
O consumo da carne de baleia faz parte da cultura japonesa há pelo menos 5 mil anos. Apesar da pressão de ecologistas, novos pratos chegam aos restaurantes para atrair o público jovem
29.12.2008

Pesca da baleia para fins científicos abastece o restrito mercado japonês
De tempos em tempos, um espacinho nas prateleiras dos supermercados japoneses é aberto, especialmente, para uma iguaria que se tornou rara e polêmica: a carne de baleia. Mesmo com a caça comercial proibida desde 1986, a pequena produção surge do abatimento para fins científicos, uma brecha que os japoneses encontraram para driblar as normas internacionais e abastecer o restrito mercado interno.
Os nipônicos, no entanto, estão mexendo seus pauzinhos para acabar com a proibição, sob protestos de ecologistas radicais.
Cardápio do dia-a-dia
A carne de baleia está nos supermercados,
… é servida como hot-dog,
… vendida em fatias de sashimis
… recheia suculentos hambúrgueres
… e acompanha bentôsOs países membros da Comissão Baleeira Internacional (CBI), órgão que regula o assunto mundialmente, estão divididos. De um lado, ficam aqueles que acreditam ser a hora de liberar a caça das espécies que já tiveram chance de se recuperar. Do outro, os que pregam a cautela.
O Japão lidera o bloco interessado em retomar a exploração baleeira. Para entender melhor a posição do arquipélago é necessário voltar um pouco no tempo.
A relação dos japoneses com o consumo de carne de baleia remete, pelo menos, à era Jomon, que vai de 8 mil a.C. a 3 mil a.C. Os arqueólogos encontraram desenhos de caçadores de baleia armados apenas com cordas e arpões de mão. Em algumas regiões, como Chugoku e Kyushu, o consumo era uma tradição.
Os cetáceos substituiam, supersticiosamente, animais de quatro patas nas refeições de ano-novo e casamentos.
A caça se manteve artesanal durante muitos séculos até o surgimento da moderna indústria baleeira no final do século 19. Em 1939, cerca de 45 mil toneladas já eram comercializadas. Após a Segunda Guerra, os japoneses, derrotados, enfrentaram a fome e uma das saídas foi expandir o consumo da carne de baleia.
Em 1947, por exemplo, esse tipo de carne correspondia a 47% de todo o consumo de proteína animal do arquipélago. Até as escolas incluíram a carne em seu cardápio.
Os pratos à base de carne de baleia se mantiveram muito populares no Japão até a década de 1980. Mas a caça predatória realizada nos oceanos pelos japoneses e outros povos levou boa parte das grandes espécies próximo à extinção. Mesmo com a proibição à caça, ainda há demanda para manter o consumo.
Os jovens, por exemplo, passaram a se interessar mais depois que os restaurantes especializados se reinventaram e partiram dos cozidos e sashimis para os hambúrgueres e hot-dogs.
O principal argumento dos japoneses para discutir o assunto é que a Comissão está fora de seu rumo original. Em vez de tornar viável e racional a exploração comercial das baleias, ela teria se convertido em um órgão de defesa incondicional da espécie.
Para debater o assunto e pressionar uma reforma, o Japão organizou este ano uma conferência mundial. No entanto, 38 dos 72 membros da CBI boicotaram o evento, o que, segundo o representante japonês na comissão, Minoru Morimoto, inviabilizou a discussão.
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