Imigração

Feijoada no Japão

O cenário econômico dos anos 90 fez com que muitos brasileiros partissem para o Japão em busca de novas oportunidades

João Toshiei Masuko, 57 anos, foi um dos primeiros brasileiros a tentar a sorte no Japão, em 1988, dois anos antes do início oficial do movimento dekassegui. A decisão de deixar o Brasil deu certo: após cinco anos, ele trocou a linha de produção pela gerência de um dos primeiros restaurantes brasileiros em Hamamatsu. Lá ele notou que, mesmo sem os ingredientes originais, as pessoas faziam fila para comer carne e feijão, ainda que do tipo japonês (kintokimame).

Um ano e oito meses após deixar o restaurante, Masuko decidiu montar seu próprio negócio. Começou com a venda de alguns produtos brasileiros em seu apartamento. A iniciativa prosperou e, no ano seguinte, ele abria a Servitu, loja que vendia de tudo, de bacon à feijão preto, de fubá à farinha de mandioca.

O número de estabelecimentos verde-amarelos acompanhava o aumento de brasileiros no Japão. E os clientes ficavam cada vez mais exigentes. “Os clientes passaram a exigir produtos fresquinhos”, afirma. Atento, João começou a preparar massa de pão em casa. Um ano depois abria a Servipan, pioneira na fabricação de pães do tipo caseiro e francês no Japão, que fornece vários tipos de produtos em 500 locais, não só para lojas brasileiras, mas para grandes redes, como o grupo Aeon.

O exemplo de Masuko e seu negócio representa a evolução da infra-estrutura voltada aos dekasseguis atualmente. Mas as facilidades encontradas hoje não existiam há 20 anos, no início do movimento migratório dos nikkeis brasileiros. Se os isseis que vieram ao Brasil não conseguiram retornar à terra natal, seus descendentes puderam fazer o caminho inverso.

O início

Em meados da década de 80, as publicações direcionadas à comunidade japonesa no Brasil estampavam vários anúncios convocando japoneses e descendentes a ir ao Japão, para trabalhar nas linhas de produção. Os salários atraentes e a escassez de oportunidades no Brasil estimulavam os primeiros dekasseguis a refazer o caminho dos pioneiros imigrantes japoneses.
Enquanto o Brasil amargava inflação ascendente e estagnação econômica, o arquipélago despontava como a segunda maior potência mundial.

No Brasil, o Plano Collor confiscou a poupança dos brasileiros. E no arquipélago foi criada a Lei de Controle de Imigração e Reconhecimento de Refugiados, que concedia visto de longa permanência aos filhos e netos de japoneses e seus cônjuges.

Os japoneses compravam tanto que as fábricas não conseguiam cobrir a demanda. Faltava mão-de-obra. Em 1990, dois fatores contribuíram para o êxodo em massa rumo ao Japão.
O reflexo da nova lei foi imediato: 14,5 mil brasileiros viviam no Japão, até 1989. Já em 1990, segundo dados do Ministério da Justiça do Japão, o número pulou para 56,4 mil, um incremento de 288%. Era o início do movimento dekassegui.

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