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Imigração

Imagens do Japão

Integrados à sociedade brasileira, os descendentes de japoneses começam a aparecer na televisão


por Redação Made in Japan
03.10.2008

Rosa Miyake canta em um dos vários programas que apresentou na extinta TV Excelsior

Longas filas com nikkeis, logo cedo, em frente ao teatro Record, nas manhãs de domingo. Centenas de pessoas aguardavam, ansiosas, a abertura dos portões para assegurar um lugar na platéia. Nos bastidores, a correria costumeira. Diretor, produtor, artistas, equipe técnica, todos se preparavam para levar ao ar, ao vivo, mais um programa Imagens do Japão. Mas em um domingo de 1972, um imprevisto mudaria o rumo do programa.

A apresentadora Emy Honda estava atrasada e ninguém sabia de seu paradeiro. Minutos antes do programa entrar no ar, o diretor Mario Okuhara olhou para o relógio e, em seguida, pousou os olhos sobre a cantora Rosa Miyake que, naquele dia, ajudava na produção do programa. Ele disse: “Rosa, entre e apresente o programa. Temos apenas cinco minutos”. “Fiquei atônita, sem saber o que dizer. Fui praticamente jogada no palco”, revela a cantora.

O público achou que Rosa subira ao palco para cantar, e começou a aplaudir. “Eu expliquei que a apresentadora oficial não havia chegado, e que estava lá para substituí-la. Nunca vou esquecer, pedi ao público que me ajudasse, e a resposta foram aplausos”, relembra Rosa, a primeira descendente de japoneses a cantar na TV brasileira.

Sem script ou orientação prévia, a cantora conseguiu conduzir a atração com tranqüilidade. Após o término do programa, ela foi para os bastidores. “Mario me disse: a partir de hoje você será a apresentadora oficial do Imagens do Japão”, comenta Rosa Miyake. Ao debutar como cantora na extinta TV Excelsior, a apresentadora abriu caminho para várias gerações de artistas nikkeis.

No início da carreira, a “boneca de porcelana que canta”, como era chamada pelo rei Roberto Carlos foi convidada a integrar a Jovem GuardaOs pioneiros ainda estavam intimamente ligados à imagem do imigrante e dos costumes tradicionais japoneses. Demorou quase três décadas para enfraquecer o estereótipo nipônico e somente nos últimos anos os artistas nikkeis passaram a representar personagens integrados à sociedade brasileira. Mas na época do Imagens do Japão, o interesse era justamente dar uma opção televisiva à comunidade nikkei.

O programa, com quatro horas de duração, era praticamente todo falado em japonês. Eles acompanhavam atrações como concursos de karaokê, matérias sobre a cultura japonesa e shows com artistas do Japão.

Enquanto Rosa Miyake fazia sucesso na TV, outra nikkei levava para a tela do cinema a saga dos primeiros imigrantes japoneses no Brasil. A sansei Tizuka Yamasaki se inspirou na história de sua avó. Em 1980, estreava nas salas de cinema Gaijin, os Caminhos da Liberdade. No elenco, Tizuka escalou o japonês Kenichi Kaneko.

Vinte anos depois de sua partida do Japão, o então pintor pôde reviver, durante as filmagens, um pouco do que havia passado no primeiro ano em solo brasileiro. Em uma das mais de 40 premiações conquistadas pelo filme, Kaneko teve a oportunidade de conhecer um diretor da rede Globo que o convidou para outros trabalhos na TV.

Em 1981, ele estreava na Globo, em pequenas participações, no seriado Plantão Policial. O papel: um muambeiro. “Naquela época, os brasileiros ainda achavam os japoneses exóticos. Para eles, até o jeito da gente cumprimentar, abaixando a cabeça, era engraçado. Por isso, minhas participações em programas de TV sempre tinham um lado cômico”, explica o ator.
O muambeiro de Plantão Policial marcaria o início de uma série de personagens caricatos, marcados por forte sotaque e trejeitos, interpretados por Kaneko.

Os brasileiros gostavam e se divertiam. Mas a comunidade japonesa sentia-se ofendida. “Disseram-me que eu era uma vergonha para a nossa raça. Eu respondia: estou fazendo arte. Eu mesmo era pintor, mas os brasileiros só conseguiam me enxergar como tintureiro, pasteleiro, profissões nas quais os japoneses eram mais conhecidos.”

A mudança veio em 1997, quando foi convidado para participar da novela Zazá. “Antes, quando recebia um roteiro, sempre estava escrito apenas ‘japonês fala’. Hoje vem escrito meu nome. Isso mostra como os japoneses estão cada vez mais integrados à sociedade brasileira. O que eu faço hoje não tem mais nacionalidade”, conclui o ator.

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