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Investindo no futuro

Conheça a Casa de Estudantes Harmonia, uma das iniciativas que ajudaram a abrir as portas do ensino superior para os nisseis

Acervo da Associação Harmonia de Educação e Cultura
Graças às contribuições prestadas pela comunidade, foi possível construir o pensionato que abrigaria jovens estudantes do interior

A decisão de fincar definitivamente as raízes no Brasil logo depois da Segunda Guerra Mundial fez com que a comunidade se preocupasse com a formação de seus filhos. Não havia tempo para lamentar a desilusão do antigo sonho de retornar ao Japão enriquecidos.

Era hora de plantar novas sementes. E com essa idéia na cabeça, um grupo de japoneses resolveu angariar fundos para a implementação de uma infra-estrutura em São Paulo, onde os estudantes do interior pudessem se acomodar durante a vida universitária.

A equipe era formada por autoridades e empresários de destaque do interior paulista como Rokuro Hama, Shungoro Wako, Shinichiro Murakami e Hideto Futatsugui, além de, mais tarde, receber o apoio do deputado federal Diogo Nomura e de Shigueaki Ueki, que se tornaria ministro anos depois.

Em 1949, após contribuições caridosas da comunidade e generosas doações do Japão, o grupo consegue adquirir um terreno de 13 mil metros quadrados nos arredores de São Bernardo, no bairro de Rudge Ramos. A construção do prédio foi finalizada em 1953 e inaugurada em setembro do mesmo ano. Na ocasião, somente 13 alunos - incluindo Tadayosi Wada - formavam o primeiro grupo de estudantes que ocuparam parte dos 22 quartos do alojamento de dois andares.

Não tardou para que o pensionato tivesse suas vagas totalmente ocupadas, tamanha era a procura. Ao longo dos anos, seguindo sempre as orientações do professor e principal dirigente da entidade Hideto Futatsugui - sempre recordado com respeito por seus ex-alunos, a Harmonia ampliou o espaço físico, chegando a comportar 110 jovens. A infra-estrutura havia crescido e passou a contar com uma enfermaria, auditório e até salão nobre.

Em uma dessas recordações, como consta no livro comemorativo do 40º aniversário da Casa de Estudantes Harmonia, Futatsugui sensei relatou que, certa vez, os pais de uma moça mandaram-lhe uma carta sobre o comportamento de sua filha após passar um período no estabelecimento. “O que será que aconteceu?”, se preocupou o diretor. Mas logo se surpreendeu, pois eles o agradeciam pela mudança de atitude da jovem, que passou de menina mimada para uma estudiosa responsável. A manutenção do valor tradicional da educação nipônica era algo que os fundadores não queriam abrir mão.

A educação, tanto a japonesa quanto a brasileira, era primordial para que os descendentes deixassem as lavouras para ocupar cargos importantes em escritórios. A história da hoje chamada Associação Harmonia de Educação e Cultura é um exemplo simbólico do panorama das entidades educacionais e culturais que surgiam na época. Já em 1954, nascia a congregação Burajiru Nihongo Gakko Rengokai, a Federação das Escolas de Língua Japonesa, que reunia aproximadamente 150 escolas filiadas.

Acervo da Associação Harmonia de Educação e Cultura
A Harmonia hoje é uma escola particular que abriga alunos não só da comunidade, desde a pré-escola até o ensino médio

Parte dessas instituições, como a Casa de Estudantes Harmonia, a Associação Cultural e Esportiva Piratininga, a Associação Brasileira de Estudos Técnicos de Agricultura e a Associação Pró-Colaboração Internacional de Agricultura do Brasil - mantida pela Cooperativa Agrícola de Cotia - eram iniciativas que nasciam para apoiar o desenvolvimento da comunidade na área da educação. Dessa forma, cada vez mais descendentes passaram a ocupar as vagas de concorridos cursos como medicina, engenharia, odontologia e arquitetura das universidades mais conceituadas de São Paulo e Paraná. E esses, ao se graduarem profissionais liberais, finalmente brigariam por um lugar ao sol no mercado, equiparando-se a qualquer outro cidadão com as mesmas oportunidades.

A “Harmonia” desempenhou esse importante papel ao longo de quatro décadas, até que, em 1993, uma grande mudança transformou o pensionato em um centro educacional. Conforme as exigências do tempo, os quartos tiveram as paredes derrubadas, dando espaço para uma grande sala de aula. Em meio aos alunos que assistem atualmente aos ensinamentos dos professores brasileiros, poucos são aqueles que têm a fisionomia oriental.

Mesmo que o foco da antiga “casa” onde moraram os amigos Watanabe e Wada tenha mudado, a principal missão ainda continua firme junto aos velhos pilares que sustentam o prédio em constante ampliação: transmitir os valores culturais japoneses. Todos os alunos até a nona série escolar aprendem o idioma nipônico como parte da grade curricular. A disseminação da cultura dos ancestrais permanece, fazendo jus ao nome do colégio, onde jovens, nikkeis e não-descedentes, caminham harmoniozamente seguindo a filosofia dos fundadores.

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