Chegada à universidade
O ingresso dos nisseis nas universidades marca uma nova fase dentro da história da imigração japonesa no Brasil
05.09.2008

Alunos da Casa de Estudantes Harmonia
Silêncio no salão ao lado da biblioteca. Não se ouvia nada, a não ser ruídos mínimos de lápis riscando papel e páginas de livro viradas freneticamente. Exatos 33 jovens nikkeis - 26 rapazes e 7 moças - ocupam as dependências do pensionato Casa de Estudantes Harmonia. A descrição é uma cena da segunda leva de alunos da instituição erguida em São Bernardo do Campo.
Às vésperas dos vestibulares mais importantes de São Paulo, em 1954, as concentradas mentes, ocupadas por complexas equações matemáticas e densos textos da literatura portuguesa, tinham uma missão em comum: o dever de ser aprovado em uma boa universidade da capital.
A dedicação era total, pois o ingresso no ensino superior requeria muito esforço e atenção “full time”, como relembra o ex-desembargador Kazuo Watanabe, um daqueles rapazes que na época tinha 18 anos. Depois de completar os estudos primários em pequenas escolas japonesas de Bastos, interior do estado de São Paulo, e o colegial na capital paulista, o garoto que queria ser advogado dava o primeiro passo para concretizar seu sonho ao se hospedar na pensão.
Não seria fácil, pois alguns nikkeis ainda tinham problema para assimilar o idioma e a gramática portuguesa. “Eu sabia que tinha mais dificuldade nessa área que os meus concorrentes, por isso lia muitos livros. Acredito que li muito mais naqueles anos do que em todo o resto da minha vida”, lembra. “Freqüentávamos cursos preparatórios no período da manhã e só largávamos os estudos para dormir. Das 8 da manhã até as 11 da noite, só parávamos para comer”, completa.
Kazuo Watanabe foi o primeiro juiz nikkei da históriaWatanabe não media esforços, assim como seus demais colegas que repartiam os quartos da “Harmonia” em meados da década de 50. Nem todos tinham a mesma oportunidade. Se estavam lá, era porque a família trabalhava arduamente nas lavouras pelo interior paulista para proporcionar tais condições. “A grande maioria dos internos eram caçulas e só puderam estudar graças ao sacrifício dos pais e dos irmãos mais velhos. Sou o mais novo entre oito irmãos e só consegui me formar graças a eles, a quem sou eternamente grato”.
Após um ano de preparativos na Casa de Estudantes Harmonia, Watanabe pôde finalmente comemorar quando viu seu nome na lista de aprovados no curso de direito da Universidade de São Paulo, mais conhecida como a tradicional faculdade do Largo São Francisco. E aos 26 anos, em 1962, se tornou o primeiro juiz nissei da história da imigração japonesa no Brasil. Suas lembranças da época não se resumem a sacrifícios.
“Foi uma fase muito boa, cheia de alegria”, recorda. O pensionato não só dava moradia e comida, como também uma infra-estrutura propícia para que os alunos tivessem uma vida social saudável. “O lugar era perfeito. A região, por ser um pouco afastada da agitada capital, criava um ambiente ideal para que estudássemos tranqüilamente. Havia também aulas de japonês e atividades físicas na quadra poliesportiva. De vez em quando organizávamos o famoso baile no salão, principalmente no carnaval. Nessa época, jovens descendentes de vários lugares vinham para a Harmonia para se divertir nas festas. Foi um período de luta, mas também de muita integração e companheirismo”.
A amizade entre os internos ultrapassou muitas décadas e continua firme até hoje, tanto que alguns deles e o próprio Watanabe são os atuais dirigentes da casa. Tadayosi Wada, presidente da Associação Harmonia de Educação e Cultura foi um dos internos da primeira leva, em 1953. Seu pai, Shuichiro, foi um dos idealizadores do alojamento. Wada lembra-se com carinho e dá risada dos momentos nostálgicos da fase de “bixo” do curso de engenharia da Universidade Mackenzie, como retratado na foto em que aparece junto ao amigo Tetsuo Segui, também atual dirigente da escola.
“Hoje, Watanabe é presidente do conselho deliberativo do centro educacional. Somos todos voluntários e trabalhamos em prol da Associação Harmonia de Educação e Cultura por gratidão e principalmente em reconhecimento aos esforços dos fundadores, que ansiavam um futuro melhor às gerações seguintes”, declara Wada.
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