Imigração

O surgimento do Bunkyo

Mesmo com as dificuldades e com o preconceito, imigrantes conseguem se estabelecer no Brasil, mas sem perder traços tradicionais


O Pavilhão Japonês foi um presente da comunidade nikkei para São Paulo

A primeira tentativa de juntar todas as figuras representativas da colônia japonesa foi um fracasso. Apenas metade apareceu e os poucos que estavam presentes não conseguiram chegar a um acordo. Para evitar o desastre total, o cônsul decidiu conversar com jornalistas para saber quem eles sugeririam para a organização. Daí surgiu a Comissão Colaboradora da Colônia Japonesa Pró-IV Centenário da Cidade de São Paulo, presidida por Yamamoto.

O grande feito da primeira entidade que englobou toda a colônia nikkei do Brasil foi a construção do Pavilhão Japonês, no Parque do Ibirapuera. Ter um espaço público cedido pelo governo bem no coração da cidade encheu de orgulho os imigrantes japoneses e seus descendentes. A exposição recebeu a visita de 240 mil pessoas até o final das atividades do aniversário de São Paulo. Os próprios nipônicos mudaram de atitude.

Trocaram o nome de Zaihaku Hojin Sakai (Comunidade dos Compatriotas Residentes no Brasil) para Burajiru Nikkei Koronia (Colônia Nikkei do Brasil). O mal-estar entre os grupos antagônicos demorou para passar, mas a colônia conseguiu se colocar como uma das mais importantes do país.

Porém, todo esse entusiasmo corria o risco de terminar junto com as comemorações. Em 1955, a Comissão seria dissolvida. O visionário Yamamoto se prontificou antes que a organização fosse extinta e já começou a pensar mais longe, no Cinqüentenário da Imigração Japonesa, em 1958. Aproveitando a estrutura já formada, ele decidiu fundar a Sociedade Paulista de Cultura Japonesa (San Pauro Nihon Bunka Kyokai). Yamamoto foi o primeiro presidente.

Apesar de ter como principal objetivo as festas que aconteceriam dali a 3 anos, ele estabeleceu metas que serviriam para as futuras gerações. Entre os objetivos estavam a educação dos nisseis, a divulgação da cultura japonesa e a construção do centro cultural.

A mobilização para os 50 anos da chegada dos imigrantes foi como um ponto final à campanha antijaponeses no país e o fim da divisão dentro da colônia. Agora, era tempo de comemorar e esquecer o triste período da guerra. O governo japonês também contribuiu, mandando um membro da Família Imperial, o príncipe Mikasa, além de subsídios para as obras.

Yamamoto lutou para que o incansável espírito de trabalho e persistência, tão característico dos japoneses, passasse para outras gerações. Até o governo brasileiro se rendeu a esse incansável batalhador, que recebeu a Ordem do Cruzeiro do Sul, a mais alta condecoração brasileira atribuída a cidadãos estrangeiros.

Hoje, o local é conhecido como Bunkyo. “Nós promovemos várias atividades ao longo do ano que buscam preservar e divulgar a cultura japonesa. Temos até o prêmio que leva o nome do nosso fundador, que destaca os nikkeis que se dedicam à agricultura”, diz o atual presidente da entidade, Kokei Uehara. E completa: “Eu acredito que Kiyoshi Yamamoto ficaria muito orgulhoso”. Mais do que uma entidade, Yamamoto deixou um legado maior aos descendentes: a história de um vencedor.

Presente para São Paulo

Os sinos tocaram marcando o início da cerimônia. Dois mil japoneses aguardavam do lado de fora. Apenas a cobertura do Pavilhão Japonês, no Parque do Ibirapuera, em São Paulo, estava concluída. Mas a ansiedade era tanta que, em maio de 1954, eles celebraram o mune age shiki, um ritual xintoísta. Os imigrantes japoneses estavam tendo o primeiro contato com as suas raízes desde antes da Segunda Guerra.

A inauguração oficial foi em 6 de setembro do mesmo ano. Contou com a presença do governador de São Paulo, na época, Lucas Nogueira Garcez, que foi conduzido para dentro do local por Kiyoshi Yamamoto. Logo atrás, estava o poeta Guilherme de Almeida.

Kokei Uehara, presidente do Bunkyo:prêmio com o nome do fundador O espaço havia sido oferecido para outras colônias estrangeiras, mas a superstição fez todas recusarem. Um crime teria ocorrido lá anos atrás. O fato pode ter mexido com os brios de outros imigrantes, mas não dos japoneses.

Eles decidiram que no local seria construído um lugar que serviria para mostrar um pouco da cultura para os brasileiros. Esse seria o presente para a cidade que os acolheu e tornou possível a construção de uma nova vida. A obra também foi símbolo do reatamento diplomático entre os governos do Japão e do Brasil. A Associação Central Nipo-Brasileira de Tokyo forneceu material e verba para as exposições e construção do Pavilhão Japonês. A repercussão entre os brasileiros e a lembrança reavivada dentro dos isseis sem dúvida trouxe um novo entusiasmo para a colônia.

Amizade entre Brasil e Japão

A Comissão Colaboradora da Colônia Japonesa Pró-IV Centenário da Cidade de São Paulo rendeu tantos frutos, que deu origem a outra associação, a Aliança Cultural Brasil-Japão, que tinha características diferentes do Bunkyo.

Em um almoço com todos aqueles que organizaram o evento, o professor José Stevenson comentou que “seria lamentável que uma entidade que conseguiu realizar um trabalho tão importante nas relações de amizade entre o Brasil e o Japão fosse simplesmente dissolvida”. Foi aí que surgiu a idéia de criar uma entidade que fortalecesse os laços com os brasileiros. Ela recebeu o nome de Aliança Cultural Brasil-Japão.

Não é à toa que os organizadores não eram todos nipônicos. Além de personalidades nisseis, o projeto teve apoio do fundador do Museu de Arte de São Paulo, Francisco Matarazzo Sobrinho, e do poeta Guilherme de Almeida, que tinha comandado a Comissão IV Centenário. “O fato de Guilherme de Almeida ter sido o fundador da nossa entidade se deve a uma série de circunstâncias políticas da época. O mundo tinha saído recentemente de uma guerra, onde o Japão era o inimigo. Ele não compartilhava dessa visão, e admirava a cultura e a literatura japonesa”, revela Jo Tatsumi, atual presidente da Aliança.

A inauguração oficial foi em 17 de novembro de 1956. Dos fundadores, 19 eram nipônicos e 12 eram brasileiros. As principais metas eram manter cursos de língua japonesa e organizar conferências. Dois anos depois eles tinham montado uma biblioteca e começaram a promover cursos de ikebana.

Eles também foram responsáveis pela sessão musical em homenagem ao Príncipe Mikasa, no Teatro Municipal, além da publicação de livros didáticos. “Nosso foco principal sempre foi o ensino da língua japonesa para os brasileiros, e da língua portuguesa para os japoneses, e o leque de opções se abre bastante pelo nosso trabalho de difusão da cultura, da culinária, das artes e dos costumes do Japão. Até mesmo Monteiro Lobato foi um grande admirador da literatura e das tradições do Japão”, diz Tatsumi.

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