A força da organização
A comunidade começa a se reorganizar após a Guerra. É a época do surgimento das principais entidades nikkeis do País
22.08.2008

O príncipe Akihito visita o Bunkyo, em 1967. Esse evento não teria acontecido não fosse o surgimento das associações depois da Segunda Guerra
A tão aguardada visita do então príncipe-herdeiro Akihito ao Brasil simbolizou o resultado de duas décadas de reorganização da comunidade. No estádio lotado, só havia uma grande ausência. Kiyoshi Yamamoto, o Pai da Colônia não sobreviveu para encontrar o representante imperial.
O estádio do Pacaembu estava lotado, mas o público não esperava para assistir a uma final de campeonato de futebol. Em 25 de maio de 1967, as arquibancadas estavam tomadas por imigrantes japoneses ansiosos para ficar perto da maior lembrança da terra natal. Todos aqueles olhos puxados não tinham levado para lá apenas a presença física, mas todo o espírito japonês, suas raízes. E os mesmos olhos não contiveram as lágrimas ao ver o príncipe-herdeiro Akihito e a princesa Michiko entrando no gramado ao lado de autoridades brasileiras.
Eram 80 mil japoneses e descendentes que viam ali um pedaço de seu passado, quase esquecido depois do sofrimento nas fazendas e do conturbado período da Segunda Guerra.
Esse gesto era o reconhecimento por parte dos governos do Brasil e do Japão à importância que tiveram aqueles imigrantes em 60 anos de história, desde que aportaram em terras brasileiras.
Nem a imprensa brasileira esperava tamanha comoção. Segundo o jornal Diário da Noite, “foi um espetáculo impressionante. Milhares de bandeirinhas se agitavam, ao vento. Era quase como uma prece em voz alta. Um ruído que evidenciava a veneração de um povo pelo seu príncipe”.
Kiyoshi Yamamoto foi o principal incentivador da união entre os japonesesO que muitos ali não imaginavam é que o momento que levou até os senhores mais contidos a disfarçarem o choro, também era uma conseqüência de quase 20 anos de trabalho das entidades nipônicas, que se formaram logo após a Segunda Guerra. Foram elas que deram unidade e voz à colônia que tinha perdido o orgulho, já que o consulado e as associações foram dissolvidos durante os anos de conflito mundial.
Claro que a preservação da cultura nipônica não teria acontecido não fossem os esforços de muitos. Mas pode-se dizer que uma pessoa em especial lutou para alcançar esse objetivo e, infelizmente, morreu quatro anos antes de presenciar essa festa. No palco, montado no meio do gramado, estava o presidente do Comitê de Recepção, Kunito Miyasaka. Muito provavelmente, ele deve ter olhado para o lado naquele momento e sentido a falta do amigo que estaria lá não fosse o câncer de pulmão.
Kiyoshi Yamamoto ficou conhecido como o Pai da Colônia. Foi ele quem tomou a primeira iniciativa de reunir os japoneses depois de 1945. A colônia estava dividida na época entre aqueles que acreditavam que o Japão tinha vencido a guerra e os que achavam que o país havia perdido, em um impasse que perduraria nos anos seguintes. Para se ter uma idéia, em 1947, houve a primeira atividade organizada da colônia, o Comitê de Socorro às Vítimas da Guerra do Japão. Mas o movimento não foi bem-sucedido porque não teve apoio dos vitoristas.
Yamamoto foi mandado ao Brasil para trabalhar em 1927.
A Tozan tinha acabado de adquirir 1,7 mil alqueires na região de Campinas, onde foi instalada a fazenda, investimento que marcou o ingresso dos japoneses nas classes mais abastadas. Vendo o respeito que ganhou entre os empresários, ele decidiu usar essa influência para promover a união dos nikkeis. A única coisa que ele precisava era de uma causa maior, que motivasse a vontade dos isseis. E ela apareceu.
Dois anos antes das comemorações dos 400 anos da cidade de São Paulo, o governo já começava a organizar uma grande festa. A Comissão do IV Centenário convidou as principais colônias de imigrantes para participar ativamente dos festejos. Em maio de 1952, o gerente da Tozan se encontrou com o cônsul-geral Shiro Ishiguro, para expressar o desejo de representar a colônia japonesa.
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