Tradição em movimento
Os cinemas da Liberdade simbolizaram a ascensão dos imigrantes que já tinham condições para se divertir
15.08.2008

Além de exibir filmes, o Cine Niterói também tinha apresentações de cantores e dançarinos japoneses
De olho no movimento e no público que circulava por ali, comerciantes nipônicos abriram lojas. O sucesso do Niterói também fez outros cinemas japoneses surgirem na Liberdade. Poucos anos depois, cada lugar fechou acordo com uma distribuidora diferente. O Cine Niterói assinou com a Toei, o Cine Jóia (1958) passava filmes da Toho; o Cine Nippon (1959) ficou com os direitos da Shochiku.
Já o Cine Tóquio (1954) mudou o nome para Nikkatsu depois de fechar negócio com a distribuidora homônima. Cláudio Hirai, neto do fundador, chegou a freqüentar algumas sessões e ainda guarda recordações que hoje são engraçadas. “Tinha apenas 12 anos, mas lembro que uma vez a tela começou a pegar fogo e todo mundo saiu correndo na hora. Mas ninguém se machucou”, conta.
Essas salas, que só exibiam filmes japoneses, na verdade, apareceram numa época em que a indústria cinematográfica nipônica estava em expansão. Trazer essas obras também interessou os empresários de lá, que viam o Brasil como um novo pólo de investimento. Na melhor fase, quatro das cinco grandes distribuidoras do Japão estavam apostando suas fichas aqui.
A novidade também atraiu os brasileiros que gostavam de cinema.
A divulgação restrita aos veículos de comunicação direcionados aos imigrantes dificultou, mas não impediu essa aproximação. Foi o primeiro contato que muitos fizeram com a cultura japonesa e estavam gostando desse novo mundo, a ponto de ficar sentado numa sala cheia de isseis, sem entender nada do que eles falavam. Mesmo com as diferenças, a relação rendeu bons frutos.
Alguns cinéfilos, que faziam parte do chamado Grupo de Estudos Fílmicos, entre eles Ermetes Ciocheti, lançaram, em 1963, “O Filme Japonês”, primeiro livro sobre o assunto publicado em língua portuguesa no Brasil. Críticos se encantaram pela qualidade das produções e chegaram a comparar com os norte-americanos. Rubem Biáfora, que escrevia uma coluna sobre os lançamentos nas telonas, no jornal O Estado de S.Paulo, dedicava um espaço para os japoneses.
Os cinemas que foram fundamentais para o estabelecimento dos imigrantes, principalmente em São Paulo, ainda chegaram a fazer parte da diversão da geração seguinte. Mariana, filha de Sussumo Tanaka, chegou a ver e conhecer de perto atores famosos, como Koji Tsuruta, um galã da época. Isso porque, para atrair ainda mais o público, artistas japoneses eram convidados para se apresentar no próprio cinema. Cantores e dançarinas conhecidos passaram pelo palco que ficava bem na frente da tela.
Sussumo Tanaka, 94 anos, foi um dos fundadores do Cine Niterói. Seu irmão mais velho, Yoshikazu, teve a idéia de construir a sala mesmo sem ter experiência prévia.Em 1968, o Cine Niterói foi desapropriado para a passagem da avenida Radial Leste-Oeste. Um primo ainda tentou reabri-lo na Avenida Liberdade, mas o lugar era bem menor, com 933 lugares. Dezesseis anos depois, os filmes deixaram de ser importados e, assim como Jóia, Nippon e Nikka- tsu, a sala foi fechada. Apenas uma pequena parte desse material está na Cinemateca Brasileira.
Apesar de terem feito parte de uma época importante na história da imigração, os cinemas não conseguiram vencer seu maior concorrente: o tempo. Houve uma crise da indústria cinematográfica japonesa a partir dos anos 60, a falta de interesse das novas gerações nos anos 70 e o receio em relação à segurança do bairro nos anos 80. Mas o principal problema foi a inovação tecnológica. A chegada dos televisores e videocassetes às lojas fez o cinema ficar de lado.
Essa parte da imigração japonesa pode não ter tido um final feliz, mas com certeza ainda está presente na memória daqueles que viveram um pedaço dela. É como uma sessão de filme, em que toda a magia se acaba ao acender das luzes e resta para aqueles que estiveram lá recontar a história que viram.
Cinema vai até o público
Os filmes japoneses ficaram mais conhecido com a inauguração do Cine Niterói, mas o local não foi o primeiro a trazer as produções nipônicas. O chamado cinema-ya levava projetores em carroças e percorria todo o interior dos estados, principalmente no noroeste do estado de São Paulo, levando um pedaço do Japão para os imigrantes saudosos.
O cinema itinerante começou na década de 20 e exibia curtas e longas metragens de todos os tipos, desde romances até histórias de samurais. As primeiras apresentações incluíam documentários e noticiários. Aos poucos, os japoneses começaram a levar o processo mais a sério.
Um deles foi Masaihi Saito, que em 1929 fundou a primeira empresa cinematográfica nipo-brasileira, a Nippaku Cinema-sha, que tinha sede em Bauru. A empresa importava filmes e os exibia no interior paulista, percorrendo as linhas Noroeste, Paulista, Sorocabana e Mogiana. “Verdadeiros pioneiros da história cinematográfica brasileira, esses ambulantes percorreram longos caminhos de terra carregando toneladas de equipamentos.
Muitas vezes não podiam contar com a rede elétrica local, e eles improvisavam amarrando uma correia à roda traseira de um caminhão erguido, e sua rotação acionava um gerador que por sua vez ligava os projetores.”, escreveu Edna Kobori no livro Cultura Japonesa.
Um dos investimentos de Saito foi uma parceria com imigrantes bem-sucedidos na época. Eles filmaram um documentário sobre a vida nas fazendas com o nome de Noroeste-sem Isshu. Quatro anos depois, as sessões passaram a se concentrar na capital, com exibições em clubes e escolas. Não demorou muito para conquistar um espaço em salas maiores, como o Cine Teatro de São Paulo. Já em 1935, Kimiyasu Hirata abriu uma concorrente, a Nippon Eiga Kogyo, que junto com a Nippaku, foi responsável por trazer, antes da Segunda Guerra, filmes de cineastas conhecidos, entre eles Minoru Murata e Kenji Mizoguchi.
Após 1945, as duas empresas se juntaram para formar a Nippaku Kogyo que, apenas um ano depois, conseguiu fazer o lançamento do filme Vida de Artista (Ruten, de Buntaro Futagawa) com o Cine São Francisco lotado. A partir daí, a idéia de construir salas para a comunidade nikkei ganhou força.
Com a chegada dos cinemas na Liberdade, o cinema-ya perdeu uma parte de seu público, mas ainda continuou existindo por alguns anos. Os próprios cinemas chegaram a vender os filmes para os exibidores itinerantes depois que eles saíam de cartaz.
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