História de cinema
Conheça o Cine Niterói, que marcou época nas décadas de 50 e 60 e trouxe até estrelas do cinema japonês para promover os filmes
08.08.2008

Sussumo Tanaka (à esq.) recebeu o ator Koji Tsuruta em sua casa. As visitas de artistas famosos do Japão eram uma novidade para o público na época
Pais deixavam os filhos em casa e seguiam até o bairro da Liberdade, em São Paulo, para se juntar a outros imigrantes numa fila que dobrava o quarteirão da rua Galvão Bueno. O que hoje significaria uma irritante espera, em 1953 era motivo de animação.
Era o dia da inauguração do primeiro cinema voltado para a colônia. Todos estavam lá com o simples objetivo de matar um pouco da saudade da terra natal. E, além da empolgação, eles tinham em comum o duro passado nas fazendas e a vontade de celebrar o começo de um novo tempo. Aquele em que eles começaram a colher os frutos plantados com tanto suor.
Os japoneses que estavam no dia em que o Cine Niterói abriu as portas viram o filme Genji Monotagari (de Kosaburo Yoshimura,1951), que conta a história de um príncipe, sua vida amorosa, os problemas no poder imperial e a vida dos filhos dele após sua morte. O roteiro da ficção estava bem longe da realidade daqueles que vieram para cá, e exatamente por isso servia como uma forma de relembrar o que eles tinham deixado para trás há cerca de 40 anos.
As filas para entrar no Cine Niterói chegavam a dobrar a esquina da Galvão Bueno. O local era ponto de encontro dos imigrantes japoneses, que na época já gozavam de uma melhor condição econômica e podiam dedicar um tempo livre para o convívio socialQuem teve a idéia do empreendimento foi Yoshikazu Tanaka. Seu irmão Sussumo, hoje com 94 anos, ainda lembra quando soube dos planos. Estava prestes a comprar uma fazenda no Paraná quando o irmão, 7 anos mais velho e mais experiente, perguntou: “Você vai mesmo fechar negócio? Eu queria fazer outra coisa. Abrir um pólo cultural para a colônia”.
Assim, Sussumo acabou desistindo das terras. Na época o primogênito dos Tanaka morava em São Paulo e via de perto a necessidade que todos tinham de saber as novidades nipônicas e a saudade que sentiam. O projeto dele mudou toda a história dos imigrantes e o mais engraçado é que Yoshikazu possuía experiência como jornalista, conhecia gente importante no Japão, mas nunca havia tido contato nenhum com a área de cinema!
A partir daí, todo o dinheiro que a família Tanaka ganhava com a venda de grãos (principalmente feijão) e madeira foi canalizado para a construção do espaço. A sala de cinema tinha dois andares, com capacidade para 1500 pessoas sentadas em poltronas estofadas. Nos outros andares do prédio funcionavam restaurante, hotel e um salão de festas. A comunidade japonesa, que se sentia humilhada no pós-guerra, viu a obra como um motivo para erguer a cabeça e encher o peito.
Os heróis japoneses
“Esse cinema não foi construído de cimento, esse cinema foi feito com feijão”, teria dito Katsuzo Yamamoto, cerealista e amigo da família, no discurso de inauguração. Quando chegou ao Brasil, a família Tanaka não plantou apenas sonhos nas salas do Cine Niterói, mas também cultivou feijão e café no sul do país.
A família Tanaka trabalhou um ano numa fazenda em Serrana, em São Paulo. Sussumo é o segundo mais novo dos quatro irmãos. Ele tinha 12 anos na época. “Lembro que foi a época mais triste, pois todas as crianças da minha idade iam para a escola. Eu nunca cheguei a freqüentar uma durante minha infância aqui no Brasil”, revela Sussumo.
A família resolveu se mudar para a cidade de Santa Mariana, no Paraná. Foi lá que eles conseguiram prosperar. Yoshikazu ia para outros estados para vender o feijão plantado e chegou a ficar conhecido como o Rei do Feijão na Bolsa de Cereais de São Paulo. Também foi ele quem fechou acordo com a Toei, pessoalmente, no Japão.
O alto investimento na época teve um bom retorno, já que cerca de vinte mil pessoas por semana assistiam aos filmes japoneses legendados. Yoshikazu resolveu ir além e surpreendeu mais uma vez, trazendo os atores de lá.
O nome dado ao cinema sempre foi questionado, já que era localizado em São Paulo, e não no Rio de Janeiro. Sussumo nos dá a resposta: Niterói nada mais é do que a junção de “Nitto” (= japonês) e “herói”, ou seja, o nome significava “Herói Japonês”. Apesar de terem surgido outros cinemas, esse foi o primeiro e mais conhecido da colônia. “Meu irmão nunca falou nada de concorrência para mim, só agradecia por ter muitos clientes”, conclui Sussumo.
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