Cicatrizes da batalha
Divididos entre uma dura realidade e um ideal patriota, japoneses passaram a perseguir e matar seus próprios conterrâneos
18.07.2008

O bicho-da-seda (acima) foi um dos itens proibidos pela seita, já que o produto poderia ajudar os brasileiros na guerra
Em fevereiro de 1944, motivados pela preocupação do apatriotismo crescente entre os patrícios, que se organizou a Kôdosha (movimento unificador).
Na época, 99% dos produtores de seda e menta eram japoneses e tais artigos tinham ingredientes capazes de aumentar o poder de fogo dar armas dos brasileiros, conseqüentemente dos EUA. E a valorização do preço desses produtos tendia a elevar o número de nipônicos que se dedicavam a eles.
Com o intuito de impedir que os patrícios continuassem com tais atos de traição, os membros da recém-formada seita, a Kôdosha, procuraram por Wakiyama. Com a entrada do coronel, seu colega da Academia Militar Kikawa também manifestou-se a favor da entidade. Definida a cúpula com mais alguns outros comparsas, a sociedade clandestina camuflou-se em uma mercearia, a “Casa Paulista”, em São Paulo.
Porém, Wakiyama tinha uma rígida vigilância às suas costas por ter sido liberado da prisão a pouco tempo. Declinou, portanto, a presidência da seita para seu velho amigo, Kikawa, que era conhecido como um fiel e legítimo propagador dos ideais da yamato damashii (espírito japonês). Na época em que foi preso por manifestações subversivas de agosto de 1944 a setembro de 1945, escreveu o Espírito Kikawa, que se tornaria a filosofia norteadora da Shindo Renmei.
Subornando os policias que o mantinham encarcerado, seu manifesto foi distribuído para fora das grades por seus companheiros. Quando a guerra acabou, em agosto de 1945, afirmou que a maior prova do Japão ter vencido a guerra era o fato do Imperador estar vivo.

Policial confisca bens materiais subversivos pertencentes a japoneses
Pois, caso contrário, todos os dirigentes do governo teriam praticado o harakiri. Suas idéias voaram aos quatro ventos e a figura do “implacável coronel Kikawa” alimentava a esperança de todo kachigumi. Enquanto isso, quanto mais Wakiyama tomava conhecimento da real situação da guerra, mais sentia a necessidade de informar a maioria esmagadora dos japoneses e nikkeis que defendiam a versão idealizada.
Para ele, traição à pátria seria fechar os olhos. Portanto, abraçou a oportunidade de conscientizar os kachigumi, acreditando que a matéria do jornal assinada com o seu nome pudesse despertar um questionamento. Mas as convicções inabaláveis de Kikawa deram um fim trágico a uma amizade que havia cruzado os oceanos.
As cicatrizes do conflito
Aqueles que amanheciam com a parede de sua casa pintada com o termo “kokuzoku”, estavam jurados de morte. Assim, o pós-guerra foi marcado pela Shindo Renmei e o caos sem precedentes que ela provocou. Em menos de dois anos de atuação, a sociedade secreta dos vitoristas ganhou mais de 200 mil associados pelo interior de São Paulo.
Cada um contribuindo da maneira que podia, seja participando dos ataques tokkotai ou só pagando mensalidades. Os atentados aconteciam por todos os lados. Bombas de mostarda que, apesar de não matarem a vítima, deixavam dolorosos ferimentos. Espiões se infiltravam nas casas de família para obter detalhes que pudessem ajudar na execução do condenado.
Também não era raro o assassino se confundir e matar o alvo errado. Até fevereiro de 1947, a seita militarista acumulou mais de 150 feridos em atentados e 23 mortes, além de 30 mil registros nos arquivos do Departamento de Ordem e Política Social, o DOPS.
