Imigração

Guerra na Colônia

O pós-guerra traz à tona o episódio da atuação da Shindo Renmei, o mais sangrento de toda a história da imigração japonesa

museu histórico da imigração japonesa no brasil e Museu Histórico regional saburo yamanaka de bastosA rendição japonesa perante a marinha americanaOs dois se conheceram no Exército Imperial Japonês. Tornaram-se grandes amigos, pois tinham em comum o fervoroso amor pelas tradições da pátria-mãe. Aos 55 anos, Junji Kikawa enxergou no Brasil o sonho de melhorar de vida. Enfrentava sérias dificuldades para sustentar seus sete filhos.

Convidou os colegas, inclusive seu companheiro de longa data, o ex-coronel Jinsaku Wakiyama, na época com 62 anos, para participar da travessia que mudaria o rumo de suas vidas. Juntos, acompanhados pela família e outros militares reformados, partiram em 1933. Ninguém poderia prever que alguns anos mais tarde, a história colocaria os dois em terrenos opostos, a ponto de Wakiyama perder a vida justamente a mando de seu ex-companheiro de exército.

Cai a noite no dia 2 de junho de 1946. Por volta das 19 horas, quatro tokkotai, pertencentes ao pelotão de elite dos vitoristas, reúnem-se no bairro da Liberdade. Seguem pela escuridão em direção à casa de Wakiyama, cada um com a bandeira da pátria amarrada na barriga. Tocam a campainha. Diferente do que consta no livro de Fernando Morais, Corações Sujos, no qual retrata a história da Shindo Renmei, não é a mulher da vítima quem atende a porta. Paulo Wakiyama, na época com pouco mais de dez anos, é quem recebe os assassinos de seu avô. O episódio marcaria a sua vida para sempre e, até os dias atuais, a testemunha ocular evita falar sobre o assunto para não trazer à tona o trauma daquela noite.

Junto com o pequenino Paulo, a esposa de Wakiyama cordialmente recebe o quarteto na sala, como manda a etiqueta nipônica. Mal o ex-coronel coloca os pés no recinto, logo um dos capangas entrega uma carta e declama: “vai pagar com a vida o crime de ter traído a pátria”. A tensão toma conta do recinto, mas o homem lê o recado com calma. Dentre o nacionalismo exacerbado das palavras que constam na carta, um pedido de suicídio.

A Shindo Renmei propagava o contrário entre os brasileiros, alegando que quem estava declarando derrota na guerra eram os inimigos, os EUAA cabeça da facção contrária, Junji Kikawa, por consideração ao cargo de coronel que seu velho amigo desempenhara no exército japonês, agora dá a chance de uma morte honrada. Nesse momento, um dos integrantes tokkotai entrega ao kokuzoku (traidor da pátria) um pequeno punhal para o harakiri (suicídio) em frente a todos.

Não havia tempo a perder. Recusada a proposta, outros dois capangas sacam suas armas e o baleiam. Com três tiros, Wakiyama cai morto, enquanto os quatro, após baterem continência ao corpo, saem da casa rumo à delegacia. Na lógica da Shindo Renmei, não eram crimes os atentados que cometiam, mas sim uma punição aos traidores. Portanto, não fazia sentido fugir. Por isso, entregam-se à polícia.

Origem da discórdia

O coronel Wakiyama era muito respeitado e influente dentro da elite japonesa nessas terras. Não era um makegumi (derrotista) qualquer. E certamente não era um inimigo qualquer aos olhos dos vitoristas, principalmente para Kikawa. O assassinato foi um triste desfecho da amizade e cumplicidade que ambos carregavam desde tempos remotos, quando ainda residiam no Japão. Mas a Shindo Renmei não perdoou quando o esclarecido Wakiyama, preocupado com a cegueira dos patrícios, assinou, juntamente com outras autoridades e intelectuais, uma matéria no jornal A Gazeta, em que explicava a verdadeira situação do Japão.

museu histórico da imigração japonesa no brasil e Museu Histórico regional saburo yamanaka de bastosA Shindo Renmei propagava a vitória do Japão na guerra. Distorciam as fotos com falsas legendas e as publicavam em revistas e jornais da colôniaUm país em escombros devido às baixas da guerra, uma nação derrotada. Kikawa, quando recebeu a notícia, relatou em seu diário pessoal que mal conseguia acreditar nas palavras que aquele homem, que um dia considerara seu melhor amigo, havia assinado. Nunca havia suspeitado de Wakiyama e seus flertes com o lado inimigo, principalmente depois que o “traidor” retornara da viagem ao Japão como um dos representantes da comitiva brasileira na comemoração de 2,6 mil anos do arquipélago. Mas o seu nome naquela página de jornal fora a gota d´água.

“O compromisso de um patriota é com a pátria, e não com os amigos”. A declaração do ex-tenente-coronel Junji Kikawa, líder da seita Shindo Renmei, representava uma ordem de execução para seus seguidores. Os dias de Wakiyama estavam contados. Era assim com todos os súditos que, de alguma forma, acreditavam na derrota do Japão.

Não poupavam ninguém, nem mesmo os amigos. Há menos de um ano, “falsas” declarações transmitidas pelas rádios noticiavam o fim da guerra, e que os EUA haviam vencido o arquipélago na campanha do Pacífico. Pelo menos era assim que os kachigumi, os vitoristas, acreditavam. A voz do Imperador Hirohito que lera a rendição incondicional do país só podia ser forjada e o fato de ter renunciado a sua ascendência divina era algo inaceitável, uma farsa sem perdão. Aos traidores, a morte era a única redenção.

Não foi a rendição japonesa, no entanto, que deu origem à Shindo Renmei. Antes mesmo da declaração de Hirohito, diversas facções anti-derrotistas nasciam na região de Bastos, Osvaldo Cruz, Lins, Tupã e em diversas outras cidades do interior. Porém, desorganizadas e sem uma idéia em comum, dissiparam-se.

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