Imigração

Imigração interrompida

Guerra rompeu relações de amizade entre Brasil e Japão e fez com que colonos fossem tratados como ameaças ao País

Museu Histórico da Imigração Japonesa no Brasil
Cerca de 400 famílias japonesas que moravam na Liberdade foram despejadas no início de 1942 em um dos episódios que marcou a história do bairro

Depois de venderem tudo o que tinham e de mudar completamente de vida, muitos imigrantes
que saíram do litoral desembarcavam em São Paulo e seguiam até a Hospedaria dos Imigrantes, no bairro da Móoca, em São Paulo.

O estabelecimento, que nos primórdios abrigara trabalhadores além-mar para que tivessem seus sonhos realizados em terras brasileiras, agora servia como cárcere aos imigrantes detidos por crimes de guerra, já que as prisões convencionais não mais comportavam os numerosos detentos.

Da Hospedaria, as centenas de famílias dirigiram-se para regiões no interior do estado como Alta Sorocabana, Noroeste e Alta paulista.

Em 1941, o porto de Santos recebia o último navio a trazer mão-de-obra nipônica: o Buenos Aires Maru. O fato marcou o início de um período que a comunidade prefere esquecer. A imigração interrompida, retomada só em 1952, representava o fim da amizade entre os dois países firmada há quase meia década.

Os brasileiros, que uma vez receberam os japoneses de braços abertos, agora consideravam a colônia como uma “ameaça amarela”.

E o preconceito se intensificou à medida que o governo Vargas fortalecia os laços com a Aliança, formada por Rússia, Inglaterra, França e, mais tarde, Estados Unidos.

Entre 1938 e 1942, inúmeros decretos-leis restringiram as atividades dos nipônicos. Proibiram o ensino da língua japonesa, e jornais tiveram as redações fechadas. Transmissões de rádio? Nem pensar. Não podia mais se falar o idioma em locais públicos e mais de cinco indivíduos juntos era sinal de motim, portanto, crime.

Qualquer manifestação da cultura tradicional era motivo para prender os suspeitos e confiscar os bens. Era o começo de uma longa batalha judicial. Os donos muitas vezes nunca receberam de volta o patrimônio confiscado. E poucos são aqueles que persistiram para tê-los de volta, como no caso da Associação Japonesa de Santos, que só após 64 anos do confisco e muita luta, reconquistou o espaço perdido.

A sede da entidade, um imóvel de três mil metros quadrados, situada na rua Paraná, foi incorporada ao patrimônio da União pelo decreto-lei de 1946 e ocupada pelo grêmio dos subtenentes e sargentos da baixada santista durante 25 anos.

Hoje, com a ajuda do grupo pró-devolução, composta por entidades nikkeis locais, o sonho de retomar o imóvel está se tornando realidade. E agora, quem encabeça o processo é justamente o presidente de uma dessas instituições, Sadao Nakai, do Estrela de Ouro Futebol Clube, neto do ex-dirigente da associação, Shiguejiro Nakai. “No pleito da devolução do terreno, obtive informações que desconhecia sobre minha família e demais personagens da história da colônia”.

Liberdade calada

Museu Histórico da Imigração Japonesa no Brasil
Associação Japonesa de Santos antes de ser confiscada pelo governo

Nenhum issei se arriscava a perambular pelas ruas da Liberdade, o bairro japonês de São Paulo, no início da década de 40. Um cruzar de olhares desconfiado já seria suficiente para uma acusação esdrúxula da polícia. Portanto, andavam a passos firmes e em silêncio, cortando rapidamente a tensão que pairava pelo bairro.

E em janeiro de 1942, após a suspensão das relações diplomáticas entre Brasil e Japão, o que parecia ser ruim, ficou ainda pior. Semelhante ao que ocorreu em Santos, o reduto nipônico foi decretado proibido para os isseis, que tiveram dez dias para deixar os arredores das ruas Conde de Sarzedas e Estudantes.

O despejo chegou na calada da noite. Acordados pelo barulho dos caminhões, os moradores não sabiam o que estava acontecendo. Policiais do Departamento de Ordem e Política Social, o DOPS, batiam de porta em porta, distribuindo aos residentes o mandato de despejo, alegando “razões de segurança nacional”.

O mesmo costumava ocorrer há poucos quilômetros dali. No bairro do Bexiga, os súditos italianos já haviam passado pelo mesmo tipo de ordem. A polícia não dava ouvidos aos suplícios que pediam para ficar. Ia jogando os pertences no caminhão para “auxiliar” a mudança.

Já no dia seguinte, mais de 400 famílias se encontravam desamparadas, com
as casas abandonadas e os negócios lacrados. As pensões estavam cheias e não comportavam mais os desabrigados. No fim do prazo estipulado, as ruas da Liberdade já estavam desertas. Só se ouvia o barulho das tropas militares eliminando os últimos materiais “subversivos” das livrarias.

E o fato voltaria a se repetir em setembro daquele mesmo ano.

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