Os imigrantes expulsos do litoral
Milhares de japoneses tiveram de abandonar Santos em apenas 24 horas. Famílias foram divididas e os bens, deixados para trás
27.06.2008

Shiguejiro Nakai (centro) e a família tiveram que enfrentar os problemas da desocupação forçada de Santos. Sua trajetória em prol da comunidade rendeu uma homenagem, em 1978, concedida pelo governo japonês
As crianças choravam desesperadamente sem entender o motivo da partida apressada dos pais. Por que teriam de deixar a cidade da noite para o dia? Por que precisavam morar com vizinhos ou parentes até que seus pais retornassem?
A cena acima faz parte de uma das mais dramáticas páginas da história da imigração: o dia em que 1,6 mil japoneses que moravam na região litorânea de São Paulo tiveram de abandonar tudo que haviam conquistado durante anos de trabalho em um prazo de apenas 24 horas.
O decreto do então presidente Getúlio Vargas ordenava que a área fosse evacuada no dia 8 de julho de 1943.
Enfim, a guerra que assolava o mundo nos longínquos continentes da Europa e Ásia finalmente alcançou os súditos japoneses que se encontravam no Brasil.
Mesmo já considerados inimigos em território nacional desde o início do conflito, em 1939, os imigrados dos países do Eixo - italianos, alemães e japoneses - tiveram o rígido ultimato devido a rumores infundados sobre imigrantes disfarçados de pescadores para, supostamente, fornecer informações aos submarinos alemães que infestavam a costa brasileira.
Pelo decreto, os japoneses deveriam embarcar ainda no trem que partia às oito da noite para São Paulo, largando os bens para trás. Famílias com crianças nascidas no Brasil deixavam
seus filhos para que tomassem conta da casa ou dos negócios.
A Tribuna retrata o dramático momento da evacuação da cidade litorâneaO caos tomava conta do litoral paulista. Chocantes cisões familiares e emancipações forçadas de jovens foram algumas das seqüelas que surgiram em meio ao tumulto.
Na época, Shiguejiro Nakai, um dos dirigentes da Associação Japonesa de Santos, teve de enfrentar a reviravolta em sua vida da noite para o dia. Ele era naturalizado, mas sua mulher, não. O patriarca da família Nakai, que vivia da pesca, também precisou deixar seu pequeno patrimônio e seus utensílios de trabalho com os sobrinhos nisseis, que na época tinham entre 16 e 18 anos.
Na trajetória até a estação de trem, viu doentes serem carregados em redes. Nenhum issei foi poupado. Muitas casas abandonadas foram invadidas por estranhos após o despejo.
Estampadas nas páginas do jornal santista A Tribuna, a aflição dos que tentavam se desfazer de seus pertences: “no Marapé, na Ponta da Praia e em Santa Maria, houve verdadeira corrida para a venda de suínos, galináceos, muares, etc. Muitos proprietários de chácaras puseram à venda quase tudo que possuiam. Vendiam a qualquer preço, pois não havia tempo para regatear”.
