Eles não desistem de voltar para o Brasil
Mesmo com dificuldades financeiras e de readaptação, muitos brasileiros optam por retornar à terra natal em vez de ficar no Japão
08.06.2008
“Esquiando em Okutone com meu namorado Bruno. A vista das montanhas é fascinante e indescritível!”Depois de idas e vindas entre Brasil e Japão, ou mesmo após muito tempo sem pisar novamente em solo verde-amarelo, poucos brasileiros se arriscam a voltar definitivamente para seu país natal. Os motivos são vários e vão desde problemas de readaptação a dificuldades de obter uma renda estável.
Além disso, o que no começo do movimento dekassegui podia parecer um pouco mais fácil, tornou-se cada vez mais difícil: a missão de juntar dinheiro. Com o tempo, o valor do salário diminuiu e os gastos dos brasileiros aumentaram.
Alguns conseguiram juntar uma boa quantia em dois ou três anos e voltar para o Brasil na década de 90, mas hoje, é praticamente impossível encontrar alguém que consiga tal façanha.
Para conseguir juntar mais, a comunidade foi obrigada a permanecer no arquipélago por mais tempo. Assim, os brasileiros passaram a constituir família no Japão, e logo, começaram a sentir a necessidade de ter uma qualidade de vida melhor.
O que no começo do movimento dekassegui era um absurdo adquirir, tornou-se algo comum nos dias atuais. Comprar carro, casa ou gastar em viagens há 20 anos era considerado uma extravagância, para não dizer loucura.
Outra despesa extra que dificulta a tarefa de juntar dinheiro são os impostos. Desde o ano passado, tornou-se obrigatória a apresentação dos comprovantes de pagamento para renovar o visto. Como se não bastasse, a queda do dólar não anima os brasileiros a voltar.
Diante desse cenário, cada vez mais, os brasileiros estão adiando a volta ao País. Não são raros aqueles que decidiram ficar no Japão pelo resto da vida. Por outro lado, há ainda aqueles que tomaram coragem e decidiram voltar definitivamente para o Brasil.
Renata Saka, 29 anos, de Oizumi (Gunma), é um desses casos. Após idas e vindas, a brasileira conta que vai voltar para o Brasil para ficar. “A decisão não foi fácil, mas parece que aqui estamos ‘trocando figurinhas’. No Brasil não está fácil, mas aqui também não está”, avalia Renata. “É ilusão achar que você vai ficar rico aqui. Dificilmente dá para juntar metade do que havia sido planejado”, aponta.
Para encarar a nova jornada no Brasil, Renata planeja primeiro tentar um emprego, estudar o mercado e depois investir o dinheiro poupado. Apesar de todas as dificuldades, seja no Brasil ou no Japão, o retorno ao país natal ainda é o sonho da maioria dos brasileiros.
Renata Saka, 29 anos, ficou no Japão em pelo menos três épocas diferentes. Agora, ela pretende voltar ao BrasilDEPOIMENTO: Aprontando as malas
“Vim para o Japão pela primeira vez em março de 1997, quando tinha acabado de terminar o terceiro colegial e não sabia o que fazer da vida.
Meus pais – que estavam no Brasil – não queriam que eu viesse, mas eu tinha amigos que tinham feito a viagem e também tive vontade. Acabei vindo e fiquei um ano e dez meses em Oizumi (Gunma) trabalhando em uma fábrica, mas não juntei dinheiro. Voltei para o Brasil para fazer cursinho e pude contar com o apoio dos meus pais.
Prestei vestibular e passei em ciências contábeis na USP. No final do primeiro ano da faculdade, de 2000 para 2001, eu e mais algumas amigas resolvemos fazer arubaito no Japão por três meses, durante as férias da faculdade. Desta vez, fiquei em Toyokawa (Aichi) e também não guardei dinheiro, mesmo porque não era esse o propósito. Vim para conhecer e pela experiência.
Trabalhava na fábrica durante a semana e me divertia nos fins de semana. Voltei para o Brasil, terminei a faculdade em 2004 e já estava trabalhando na minha área, mas nunca quis ser diretora da empresa.
Não tinha esse interesse. Na época, eu e alguns amigos pensamos em vir para o Japão para trabalhar, juntar um dinheiro em um ano e ir para a Austrália fazer uma especialização em finanças. Então vim pela terceira vez em abril de 2005.
Voltei para Oizumi e comecei a trabalhar em uma fábrica. Só que nesse tempo, eu conheci o Bruno, meu namorado, e meus planos mudaram, mas não me arrependo.
O tempo passou e fui ficando. Agora decidimos voltar para o Brasil. Vamos nos casar e tentar a vida lá. No Brasil não está fácil, mas aqui também não está. Não pretendo voltar, tanto que não tenho interesse no visto. Não vou falar que nunca mais vou voltar, mas não quero ficar aqui.
De início, pretendo arrumar um emprego e depois investir o dinheiro em algo. Não será fácil entrar de novo no mercado de trabalho, mas acho mais seguro estudar primeiro o mercado para depois investir. Vai ser difícil, mas não estou com medo. Tenho que pensar positivo e torcer para dar certo.”

“Em novembro de 2007, no paraíso de Okinawa que não podia deixar de conhecer antes de ir embora. Essa é a Kokusai Doori”
