Brasileiros assimilam o ‘jeitinho japonês’
Dekasseguis mudam seu comportamento no arquipélago e adotam cada vez mais o modo de vida e os valores da sociedade nipônica
24.05.2008

“A Rieko trabalhava em uma loja em que eu ia bastante.Fomos nos conhecendo melhor até que, um dia, eu a convidei para sair e ela topou. Começamos a namorar em 1998 e nos casamos em 2000, depois de passar cerca de um ano morando juntos.”
Esqueça o famoso “jeitinho brasileiro”. A longa permanência no Japão faz com que alguns brasileiros mudem de comportamento, assimilem hábitos e características tipicamente nipônicas e absorvam, ou sejam absorvidos, pela cultura japonesa. Os casos não são raros e exemplificam um curioso fenômeno que, aqui, chamaremos de “aculturação”.
Mesmo de forma não intencional, o intercâmbio cultural ocorre diariamente com os brasileiros que vivem no Japão. Para uns com mais intensidade e freqüência e, para outros, menos. Esta “troca” está presente, por exemplo, nos hábitos alimentares, na linguagem, no vestuário e nos costumes do dia-a-dia. Mas é no modo de pensar e agir que estas peculiaridades podem caracterizar a ‘aculturação’, o que não significa, exatamente, que estas pessoas abdicam totalmente das características e traços típicos do povo brasileiro para absorver os valores japoneses.
O mais comum é que a assimilação de princípios e valores culturais ocorra de forma gradativa, às vezes imperceptível para o ‘aculturado’. Para estes brasileiros, a identificação com os hábitos japoneses é quase instintiva.
É o caso do brasileiro Maurício Amano, 34 anos. “Cheguei a me relacionar com algumas brasileiras, mas sempre tive um modo de pensar diferente. Quando conheci minha atual esposa, que é japonesa, a identificação foi imediata, tínhamos e temos modos de pensar e agir bastante parecidos”, analisa ele, que hoje é pai de duas filhas.
Há 14 anos no Japão, Amano foi ao Brasil pela última vez em 1997, ou seja, há 11 anos, e ficou só duas semanas lá. “Só sinto falta dos meus familiares e de alguns lugares, mas estou totalmente integrado e adaptado ao estilo de vida japonês”, garante ele, que também menciona valores culturais nipônicos com os quais se identifica. “Muito me agradam a disciplina, a pontualidade e o respeito mútuo, entre outros valores da sociedade japonesa.”
Dono de uma empresa bem-sucedida no mercado japonês, Amano decidiu comprar um apartamento em Nagoya há três anos, quando percebeu que não pretende retornar tão cedo para o Brasil. “Talvez, quando estiver bem velhinho, só para descansar, em uma cidade do interior”, afirma.
Dentro de sua casa, só fala em japonês com as filhas, que sabem apenas algumas palavras em português. “Mas ainda pretendo levá-las para pelo menos conhecer minha terra natal e os parentes brasileiros”, planeja.
Maurício Amano com a esposa japonesa, Rieko, e as duas filhas, Lana, 4 anos, e Llua, 5 anos, que só falam japonêsDEPOIMENTO: “Me identifico muito com os costumes do Japão”
Quando cheguei ao Japão, em 1995, eu não tinha planos muito específicos, senão o de juntar dinheiro. Mas muitas coisas boas foram acontecendo na minha vida e eu me envolvi bastante com este país. No momento, não me imagino de volta ao Brasil.
Meu enraizamento no Japão ocorreu de forma gradativa. Mas acho que isso se deve ao meu modo de pensar e agir, que combina mais com o jeito japonês do que com o brasileiro. Eu me identifico muito com o Japão, principalmente no que se refere a disciplina, planejamento, pontualidade, lealdade e respeito mútuo, por exemplo.
Também assimilei com facilidade a frieza nipônica no trato com os sentimentos, já que sou mais reservado e menos emotivo do que os brasileiros em geral.
Em 2003, criei minha empresa Koringa Fight Production, que começou revendendo roupas relacionadas a artes marciais e prestando assessoria para lutadores brasileiros que vêm ao Japão participar de torneios japoneses.
Assim, conheci vários dos mais famosos lutadores brasileiros e estrangeiros e, hoje, alguns deles vestem os quimonos que comecei a confeccionar no ano passado. Este ano, também comecei a empresariar alguns lutadores profissionais.
Quanto à vida pessoal, depois de me envolver com algumas brasileiras e não me identificar com elas, conheci a Rieko em 1998 e nossas idéias coincidiam demais. O casamento veio dois anos depois e, na época, nem parei para pensar no fato de ela ser japonesa e eu, brasileiro. Também sempre fui muito bem aceito por todos os familiares dela.
Temos duas filhas: Lana, que tem 4 anos, e Llua, que tem 5. Dentro de casa, só conversamos em japonês. Assim mesmo, minha esposa e minhas filhas aprenderam algumas palavras em português.
Estamos decididos a viver aqui e, há três anos, decidimos comprar um apartamento em Nagoya (Aichi). Mesmo assim, quero levá-las para conhecer o Brasil assim que puder.

“No momento, a Koringa Fight Production se lança em um novo desafio: o de empresariar lutadores em eventos aqui no Japão. Já cuido de seis bons lutadores profissionais, entre eles Robert Drysdale e André Galvão. Conheço muitas pessoas fortes no meio e conto com o apoio de algumas, entre elas o Wanderley Silva, que é um ótimo parceiro profissional.”
