Tragédia na colônia
Contratos exploratórios, doenças tropicais e falta de médicos jogaram por terra os esforços dos primeiros japoneses
23.05.2008

Japoneses e empreiteiros brasileiros derrubam a densa mata virgem, no início da instalação dos núcleos
Apesar do duro esforço empregado, os imigrantes acreditavam que iriam ter sucesso sob o comando de Umpei Hirano, mas a inexperiência custou-lhes muito caro.
O trabalho de contratista ou “formadores de café” era uma espécie de empreitada para a formação de cafeeiros e consistia em derrubar, queimar e limpar as matas, além de semear e cuidar dos pés de café por 4 a 6 anos. Quando finalmente começavam a frutificar, a colheita inicial também era revertida em benefício do formador, juntamente com as culturas intercaladas como feijão e arroz. Ao fim do contrato, os trabalhadores recebiam uma quantia para cada pé formado.
Era época de chuva e as pessoas, misteriosamente, caíam doentes uma após a outra. Os pobres pioneiros mal sabiam que se tratava de malária. Não existia fácil acesso a remédios e, aos poucos, foram falecendo, até que passaram a sepultar um corpo por dia. Muitos enterros não foram assistidos por seus familiares, que estavam sem condições de sair de suas camas. Conta-se também que alguns não percebiam que a pessoa deitada ao seu lado já havia morrido há dias. Os que não estavam doentes, logo, começaram a deixar a comunidade.
Hirano, de todas as formas, buscava, desesperadamente, por medicamentos e médicos, mas a ajuda nunca era o suficiente. Nessa vã tentativa de conter a malária, o líder perdeu toda a economia que guardara durante os seus oito anos no Brasil. Mesmo quando ele próprio estava contaminado, fazia questão de passar de casa em casa para ver os doentes e sua visita era melhor recebida do que qualquer funcionário do Órgão de saúde.
Após a morte de 80 pessoas, cansado, o orientador convocou uma reunião com os representantes das 30 famílias restantes e sugeriu que voltassem para o trabalho nas lavouras das fazendas de café. Ninguém seguiu seu conselho, pois estavam dispostos a continuar lutando pelo núcleo, caso Hirano também ali permanecesse. Então, com as últimas forças, o grupo transferiu a colônia para uma localidade mais alta, distante do foco da malária.
Nem por isso estavam longe dos infortúnios. Em 1918, uma núvem negra de imensos gafanhotos, que até cobria a luz do sol, devastou a região. Segundo relatos, “olhando-se para cima, avistam-se pontos pretos como se sementes de gergelim tivessem sido espalhadas pelos ares. Então começam a cair gafanhotos de 8 a 9 centímetros sobre a cabeça da gente”. Nada sobrou, a não ser as batatas que estavam debaixo do solo. Diziam que quando essa nuvem de gigantescos insetos cruzava os trilhos, até mesmo os trens eram obrigados a parar.

Com o tempo colônias prosperaram e, anos mais tarde, deram origem a cooperativas agrícolas
Além disso, no ano seguinte, uma longa seca castigou as plantações, que foi seguido por uma forte geada. Os pés de café, que finalmente tinham dado sinais de frutificação, foram danificados. Mas provavelmente o que mais deixou os imigrantes abatidos foi a morte de seu jovem líder, vítima da malária aos 34 anos. Sepultado no centro do cemitério coletivo da colônia, o local passou a ser chamado de núcleo Hirano, substituindo o antigo nome Três Barras.
Mas como se renascessem das cinzas, estes imigrantes não se renderam e continuaram perseguindo seus sonhos. Já sabiam que o retorno à pátria tardaria a acontecer. Talvez, a esse ponto, muitos já estivessem conformados de que não mais cruzariam o vasto oceano. Apesar das dificuldades, o núcleo Hirano, após superar todas as barreiras impostas pela sua inexperiência, enfim, prosperou.
Tornou-se uma cooperativa agrícola, chegando a anexar mais 385 alqueires e em 1941 o número de cooperados chegava a 372. A produção da colônia ultrapassava 50 mil sacas de café (uma saca continha 60kg), 50 arrobas de algodão (cada arroba equivale a 15kg) e 25 mil sacas de arroz anuais.
O “Boom” dos núcleos japoneses
Nessa época surgiram inúmeras colônias japonesas, fundadas por acordos entre ambos os países ou por iniciativas privadas, através da idealização de importantes líderes como Shuhei Uetsuka. Entre os principais núcleos estão:
- Núcleo Itacolomi, no atual município de Promissão, fundado por Shuhei Uetsuka, o “pai da imigração”, em 1918.
- Núcleo Birigüí, fundado por 13 famílias de imigrantes das fazendas das regiões de Mogiana e Paulista, por intermédio da “Companhia de Terras, Madeiras e Colonização de São Paulo”, em 1915.
- Núcleo Iguape, formada pela junção de três colônias inicialmente independentes: Registro, Tatsura e Sete Barras, através da companhia privada “Tokyo Sindicate”, liderado pelo seu representante Ikutaro Aoyagi, em 1913.
- Núcleo Juqueri, atual município de Mairiporã, fundada por Nagatoshi Akimura e as 10 famílias que haviam terminado o período contratual na Fazenda Guatapará, em 1913.
-Núcleo Cotia, fundada em 1914, acabou se tornando uma considerável concentração de japoneses produtores de bataticultura, que mais tarde, em 1927, gerou a Cooperativa Agrícola de Cotia.
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