Publicidade
18 de junho | 1908 ~ 2008
Especial do Centenário da Imigração Japonesa no Brasil
Revista Made in Japan
Centenário da Imigração Brasil Japão

Padre resolve problemas da comunidade

Há 14 anos no Japão, Evaristo Higa socorre brasileiros, presta auxílio aos moradores de rua todos os sábados e visita mensalmente o presídio

Arquivo Pessoal
“A primeira missa de Natal que eu celebrei em Hamamatsu foi em uma igreja que não existe mais. Logo depois, foi construída uma igreja nova, a São Francisco de Assis, onde moro hoje e são realizadas as missas aos sábados e domingos, reunindo mais de 300 brasileiros.”

Com o crescimento da comunidade brasileira no Japão, houve um conseqüente aumento de participações em atividades religiosas, como missas e cultos.

“Quando se está em um país estrangeiro, principalmente de cultura diferente, como é o caso do Japão, as pessoas passam por experiências não muito boas e ficam meio perdidas, sem um chão ou uma referência. Nessas horas, elas procuram Deus”, afirma o padre Evaristo Higa, 57 anos, de Hamamatsu (Shizuoka).

Segundo ele, muita gente que hoje freqüenta a igreja não tinha esse costume no Brasil e nem mesmo era batizada. “Com a vinda da insegurança, do medo e da incerteza por causa do idioma e da cultura, os brasileiros passaram a participar ativamente da comunidade católica. Eu sei que muita gente não vêm espontâneamente pelo amor, e sim pela dor, mas Deus oferece vários caminhos”, diz.

Em toda a província de Shizuoka, Higa percorre dez cidades realizando missas, batismos e casamentos. “Por ano, tenho feito cerca de 100 batismos de crianças, além de 15 a 20 adultos que, por algum motivo, não adotaram a religião católica quando eram pequenos”, conta.
As pessoas começaram a procurar Higa porque no Brasil, principalmente nas cidades do interior, o padre serve para tudo.

“Os brasileiros vinham me procurar para falar sobre saúde, problemas familiares, casos envolvendo polícia, emprego e outros assuntos. Mas hoje existem entidades que atendem os casos mais específicos e na maioria das vezes eu acabo encaminhando para esses locais. Mesmo assim, ainda aparecem muitos casos de problemas psicológicos, ou então de desempregados que não têm onde ficar”, relata.

Outra função que Higa tem feito bastante é rezar missa em velório. Segundo ele, os procedimentos também podem ser feitos na igreja. As funerárias japonesas cobram de 300 mil a 400 mil ienes pelos serviços, mas na igreja não passa de 200 mil ienes, incluindo transporte, cremação e todos os outros serviços necessários.

A questão dos jovens que se envolvem com drogas e crimes também é outro problema com o qual o padre lida diariamente. “Depois que eles são presos, os pais vêm me procurar, alegando que não sabiam que os filhos estavam envolvidos com isso. Realmente, os pais são sempre os últimos a saber, porque nenhum filho vai dizer que é viciado”, disse.

Todos os meses, o padre visita o presídio de Shizuoka em nome do Consulado do Brasil. Segundo ele, os cerca de 30 brasileiros presos precisam desse contato para desabafar porque muitos deles não recebem visitas.

Claudio EndoEvaristo Higa durante missa celebrada na abertura do evento em comemoração ao centenário da imigração, em KobeDEPOIMENTO: ‘Às vezes é cansativo, mas muito compensador’

“Antes de mim, atendia na comunidade o padre Nobuo, que morava na cidade de Shizuoka. Ele ficou durante dois anos e quando acabou o contrato retornou ao Brasil. O bispo de Yokohama (Kanagawa) pediu que viesse um outro padre no lugar e eu acabei me candidatando com a intenção de ficar três anos.

Mas o contrato foi se renovando por causa da necessidade e já estou em Hamamatsu há 14 anos. Vim, sobretudo, para exercer funções que cabem a um padre dentro da Igreja Católica, com o objetivo de rezar missas, fazer batizados e afins. Mas conforme eu fui me envolvendo com a comunidade acabei fazendo outras coisas por necessidade.

Pela própria cultura brasileira, o padre é um ponto de referência, apoio e de segurança, mesmo para as pessoas que não costumam freqüentar a igreja ou que nem mesmo são batizadas. Na hora da necessidade, o padre acaba sendo procurado para uma consulta psicológica ou espiritual e precisa dar conselhos. As pessoas acham que um padre tem a fórmula para resolver todos os problemas. O que eu posso fazer é orientar.

Em 1994, um ano depois que vim a Hamamatsu, começamos a ajudar os homeless (moradores de rua) da cidade. Para mim foi um choque saber que existiam pessoas que vivam nas ruas do Japão, porque não é essa a imagem que a gente tem do país sinônimo de modernidade, tecnologia e desenvolvimento. Damos comida (sopa, pão, arroz, frutas, chá e o que vem de doação), remédios, roupas e cobertores.

Desde então nos reunimos todos os sábados para fazer a distribuição e não falhamos uma única vez, seja com chuva, frio ou nos feriados. Como padre, me sinto satisfeito em saber que muitos brasileiros esperam a chegada do fim de semana para ter contato com a igreja e as atividades religiosas.

Às vezes é muito cansativo, mas compensador ao mesmo tempo em ver que as pessoas estão contentes. Por enquanto, não pretendo retornar ao Brasil antes que seja construído um centro salesiano em Hamamatsu para desenvolver atividades para a sociedade.”

Arquivo Pessoal
,em>“Essa foto foi tirada no dia em que eu saí do Brasil e coincidiu com o meu aniversário. Algumas pessoas foram ao aeroporto para se despedirem de mim. Resolvi me candidatar porque achava que vindo ao Japão poderia aprender o idioma, mas acabei tendo mais contato com os brasileiros.”