Imigração

Música: remédio para a saudade do Brasil

Brasileiros no arquipélago encontraram nas canções e ritmos da terra natal uma forma de ter conforto e proximidade com a cultura tupiniquim

Arquivo Pessoal
Em 2001, quando a mídia brasileira começava a me dar espaço aqui no Japão, uma reportagem do jornal Tudo Bem me deu o rótulo de ‘A Enciclopédia Viva da Música Sertaneja’”

A saudade do Brasil é um dos fatores mais penosos para quem se propõe a viver no Japão, mesmo que por um período passageiro. Além da distância de cerca de 20 mil quilômetros, o alto custo da viagem entre um país e outro faz com que a vida no arquipélago seja uma espécie de “reclusão” para quem aprecia coisas tipicamente brasileiras, como uma boa roda de samba, um bailão sertanejo ou outros traços da cultura tupiniquim.

Desde o início do fenômeno dekassegui, os brasileiros sempre deram um jeito de “trazer o Brasil” para o Japão. Se na alimentação, a demanda por produtos brasileiros deu origem às importadoras que, hoje, trazem centenas de produtos para o território japonês, na música não foi diferente.

No início da década de 1990, época em que os CDs ainda não eram tão populares no Brasil, muitas canções de samba e música sertaneja adentraram o Japão gravadas em fitas cassete.

Elas é que animavam os churrascos organizados pelos dekasseguis que tentavam matar as saudades do estilo de vida brasileiro. Em alguns casos, o surgimento de um violão ou um pandeiro era o suficiente para formar uma roda e bradar a brasilidade em forma de canção.

Com o tempo, quem tinha mais intimidade com algum instrumento musical começou a perceber que, mesmo no Japão, havia um campo musical a ser explorado. Tocando para brasileiros ou japoneses, músicos amadores começaram a formar bandas para animar eventos e tentar galgar degraus numa possível carreira artística.

Hoje, a manifestação musical verde-amarela é um fenômeno crescente no Japão, nos mais variados gêneros musicais: samba, bossa nova, música sertaneja, rock e rap, entre outros. Artistas dekasseguis têm conseguido gravar seus próprios CDs com qualidade profissional e, em alguns casos, promovem um intercâmbio com músicos que estão no Brasil.

Além disso, a internet aproximou o cenário musical dos dois países e proporcionou também o surgimento de rádios online que servem como canal de divulgação e informação musical.

O cantor e compositor sertanejo Izaque Iolanda Bispo, mais conhecido como JK, 47 anos, é um exemplo de toda esta trajetória da música brasileira no Japão. No arquipélago desde 1992, encontrou na música uma forma de manter suas raízes.

Periodicamente, apresenta-se em eventos japoneses ou brasileiros. Mais que isso, criou em uma rádio japonesa um programa de música sertaneja em que deixa este público sempre atualizado e, através da internet, promove o intercâmbio com artistas que estão no Brasil.

Gilberto Yoshinaga Izaque Iolanda Bispo, o JK, com seu violão de estimação, adquirido com o primeiro pagamento recebido no Japão”DEPOIMENTO: “TRAGO UM POUCO DO BRASIL PARA O JAPÃO”

Canto música sertaneja desde criança, mas meu primeiro contato com o violão ocorreu aos 16 anos. Entre 1983 e 1984, adotei o nome JK e lancei dois discos no Brasil, com o parceiro Juscelino. De 1982 a 1992, fui o presidente do fã-clube oficial da dupla Milionário & José Rico, ídolos que se tornaram meus amigos.

Cheguei ao Japão em fevereiro de 1992, com a idéia de passar só dois anos aqui. Com o primeiro pagamento que recebi, comprei um violão que tenho até hoje. Já morei nas províncias de Gunma e Kyoto, mas me fixei mesmo em Mie. Larguei o trabalho em fábrica há dois anos e meio, quando consegui montar uma lanchonete no Sasagawa Danchi, em Yokkaichi (Mie), onde resido.

Como tantos outros brasileiros, adiei várias vezes o retorno para o Brasil. Conforme fui ficando, nunca deixei de me dedicar à música, até mesmo porque ela me ajuda a diminuir as saudades que tenho do nosso país amado. Mas o Japão também me inspira a compor.

Eu sou um caipira, me orgulho disso e fico feliz de poder divulgar a música sertaneja aqui no Japão. Já fiz mais de 60 apresentações em várias províncias, cantando para brasileiros e japoneses, e com isso acredito que ajudo a trazer um pouquinho do Brasil para os dekasseguis, além de apresentar a nossa cultura para os japoneses. Inclusive, fiz algumas versões em japonês para algumas canções brasileiras, para que os japoneses pudessem entender a letra.

Outra forma que encontrei de divulgar a música sertaneja no Japão foi batalhando para criar o programa Estrada da Vida, na rádio japonesa Port Wave 76,8FM, de Yokkaichi. O programa é bem aceito pelos japoneses e, este ano, completa cinco anos no ar.

E eu continuo ‘na estrada’, com a meta de gravar um CD em breve e celebrar, em forma de música, o orgulho de ser um caipira brasileiro no Japão”.

Arquivo Pessoal
“Com muito orgulho, apresento a Lanchonete do JK, que inaugurei há dois anos e meio, depois de muita luta. Graças a este empreendimento, consegui largar o trabalho em fábrica. Costumam dizer que minha lanchonete é ‘um pedacinho do Brasil’ no meio do Sasagawa Danchi, de Yokkaichi (Mie), onde residem mais de dois mil brasileiros.”
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