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18 de junho | 1908 ~ 2008
Especial do Centenário da Imigração Japonesa no Brasil
Revista Made in Japan
Centenário da Imigração Brasil Japão

A desilusão dos primeiros imigrantes

Sem perspectivas com a vida nos cafezais, explode a revolta dos imigrantes contra as péssimas condições de vida.

Museu Histórico da Imigração Japonesa no Brasil
Japoneses aprendem o processo da “derriça”, que consisitia em jogar os frutos sobre um lençol, do qual eram mais tarde recolhidos e peneirados

Por mais esperançosos que estivessem, os imigrantes nada poderiam fazer diante daquela situação. Os velhos cafezais, de 50 a 60 anos, não mais frutificavam como antes. De fato, as lavouras estavam em crise. A má colheita era geral, e, principalmente naquele ano, o número de cafeeiros sem frutos alcançara uma quantia sem precedentes. É nessa época que chegavam as primeiras famílias japonesas nas seis fazendas, distribuídas a partir da Hospedaria de Imigrantes.

O baixo rendimento das colheitas não correspondia nem um terço do trabalho prometido pela Companhia Imperial de Imigração. “Fomos enganados”, foi a impressão que tiveram. Mesmo se esforçando ao máximo, os japoneses conseguiam, por família, encher de 1 a 2 sacos, enquanto o prometido eram 9 sacos por dia. O sonho de colher ouro dos cafeeiros com as mãos ia se esvaindo.

Pequenas e construídas à base de tijolos e madeiras, as moradias, já velhas, não eram bem o que os imigrantes tinham em mente. Erguidas há anos na colônia - a área habitacional da fazenda - as casas não apresentavam mobílias e estavam impregnadas pela sujeira e pelo mau cheiro.

O pavimento também era quase sempre de tijolos, alguns ainda eram de chão de terra batida. Não havia banheiro. Como não estavam acostumados com o urinol, os moradores, geralmente as mulheres, faziam suas necessidades atrás da cerca, onde se criavam os porcos.
Normalmente, as casas abrigavam uma ou duas famílias, e nestes casos, eram seccionadas ao meio.

A dependência principal era uma mistura de sala com cozinha e as demais serviam como quartos. Não existia camas, cabendo ao morador construir ou comprar, mais tarde, a sua. Porém, isso não foi um grande problema para os japoneses, acostumados a dormir no chão.

O dia-a-dia

Nos primeiros anos, os imigrantes tiveram dificuldades para preparar devidamente os alimentos que compravam na venda. O arroz agulha, por exemplo, não sabiam cozinhá-lo devidamente e o faziam do modo oriental, o que deixava os grãos soltos, bem diferente do jeito que consumiam no Japão.

A água era retirada do tanque de uso comum ou dos poços. Na venda da fazenda, compravam, a preços exorbitantes, alimentos dos quais não tinham afinidade, como: feijão, carne-seca, bacalhau seco, sardinha salgada, toicinho, sal e açúcar mascavo. Improvisavam como podiam.
As famílias acordavam às 4 horas da manhã.

Partiam, ainda sob a escuridão da madrugada, caminhando, muitas vezes por quilômetros, até começarem a trabalhar ao nascer do sol. Durante o trajeto, as mulheres carregavam seus bebês, os homens, as escadas e as crianças, o bentô que comeriam no almoço. O trabalho começava ao soar da buzina dos fiscais e só terminava ao pôr-do-sol.

O serviço nas lavouras não chegava a incomodar tanto. É certo que demoraram um bocado até aprender a utilizar as peneiras corretamente. Exigia destreza jogar os grãos colhidos ao ar, para que o vento levasse as impurezas, e pegá-los sem derramar. Depois de limpos, os cafés eram ensacados. Caso não apanhassem completamente os grãos das árvores ou abandonassem frutos no chão, eram advertidos,

Shuhei Uetsuka

Museu Histórico da Imigração Japonesa no BrasilYûzare-ya kokage ni naite kôhii mogi
(anoitecer: à sombra d´arvore choro colhendo café)
Yo nige seshi imin omou-ya kareno hoshi
(penso no imigrante que fugiu; estrela luz em prado seco)
Hyôkotsu

O trecho de haicai escrito por Shuhei Uetsuka descreve resumidamente a situação dos pioneiros em sua jornada nos cafezais. Assim como Mizuno, também ficou conhecido como o “Pai da Imigração”, tamanha contribuição que deu para a história da comunidade japonesa no Brasil. Nascido em 1876, na província de Kumamoto e bacharelado em direito pela Faculdade Imperial de Tokyo, Uetsuka zelou pelo bem-estar dos que aqui permaneceram, chegando a criar uma colônia no município de Promissão, na região noroeste de São Paulo.

Lá, construiu escolas, contratou médicos, abriu estradas e fundou associações. Hoje, sua lembrança fica na história, cravada nas inúmeras homenagens e monumentos espalhados pelo município. Em 1973, no bairro da Liberdade, o viaduto sobre a Radial Leste Oeste recebeu o seu nome. O pioneiro ainda ganhou uma estátua no Largo da Pólvora, no mesmo bairro, inaugurado em 1978.

Fugas noturnas

Existem episódios tragicômicos envolvendo as fugas durante as madrugadas nas colônias. Elas não aconteciam aleatoriamente e contavam ainda com a colaboração de vizinhos. Para dificultar o processo, todas as fazendas contrataram os “capangas”, convocados para vigiarem as casinhas, munidos de carabinas.

Conta-se que certa noite, durante a ronda habitual dos capangas, um deles avistou claridade em uma das casas e achou suspeito. Ao se aproximar, “Cruz credo!” - concluiu que os moradores estavam construindo bombas caseiras com o objetivo de usá-las durante a fuga. Saiu em disparada para alertar o proprietário da fazenda, pois, embora pequenos, os japoneses haviam vencido a guerra contra os russos. Em partes, o vigia concluira certo. Apesar de não serem bombas, os imigrantes estavam cozinhando o arroz que comeriam durante a sua evasão.

Não era raro mulheres japonesas saírem de suas casas durante a noite para fazer as necessidades, muitas vezes confundidas com fugitivas. Quantas vezes não foram abordadas por um vigia apontando sua caribina?