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18 de junho | 1908 ~ 2008
Especial do Centenário da Imigração Japonesa no Brasil
Revista Made in Japan
Centenário da Imigração Brasil Japão

Esporte evolui junto com a comunidade

Dekasseguis buscaram na prática esportiva um refúgio para o trabalho estafante e uma opção de lazer de baixo custo no arquipélago

Arquivo Pessoal
Edvaldo Oshiro com a esposa Jacqueline; peladeiro de fim de semana virou jogador profissional e realizou seus sonhos

No início do fenômeno dekassegui, o pensamento da maioria dos brasileiros era permanecer no Japão pelo período suficiente para poupar boa quantidade de dinheiro e, logo, retornar ao Brasil. Assim, muitas pessoas se privavam de seu lazer para poupar dinheiro.

Mas, como nem sempre é preciso gastar para ter descontração, desde o início da década de 1990 a prática esportiva surgiu como uma maneira de aliviar o estresse do dia-a-dia nas fábricas e, paralelamente, promover a integração entre colegas de trabalho. Como bons brasileiros, os primeiros que tiveram este tipo de iniciativa escolheram o futebol como forma de reunir os amigos e esquecer um pocuo do trabalho. Devido à falta de espaços e à praticidade do próprio esporte, o futsal se tornou a principal escolha dos “boleiros de fim de semana”.

Quem acompanhou de perto a evolução do esporte na comunidade foi o brasileiro Edvaldo Oshiro, 43 anos, de Oizumi (Gunma). Edvaldo começou a participar dos primeiros campeonatos de futsal da comunidade em 1991. “É uma coisa de brasileiro. Onde tem duas ou três pessoas já dá pra juntar e jogar uma bola. Desde 1990 já tinha brasileiro jogando”, relembra Edvaldo.
Com o passar dos anos, o que era só brincadeira começou a tomar proporções maiores, com o surgimento de times e a criação de pequenos torneios, às vezes, entre equipes formadas por funcionários de uma mesma fábrica ou moradores de um mesmo conjunto habitacional.

A tendência natural foi os campeonatos se estruturarem, angariando o patrocínio das empresas verde-amarelas e, em alguns casos, ganhando tradição na comunidade brasileira, assim como os próprios times.

Os jogos de fim de semana tornaram-se uma oportunidade para Edvaldo. O brasileiro chegou a ser convidado para jogar em um time que oferecia serviço na fábrica, moradia de graça com a família e bônus. Hoje ele atua como jogador do time Ota FC, que corresponde à quarta divisão do Japão. Além disso, há dez anos, Edvaldo dá aulas de futsal para os jovens brasileiros, mais recentemente, na Escolinha BFC Kowa, em Oizumi (Gunma).

Atualmente, o esporte é mais que uma válvula de escape emocional e um passatempo para muitos brasileiros. Há quem encare os torneios de fim de semana com a mesma seriedade dispensada ao trabalho.

O leque de opções também cresceu e, além do futsal, também há na comunidade campeonatos de futebol de campo, vôlei, basquete, tênis, artes marciais e até atividades como truco, bilhar e boliche.

Arquivo Pessoal“Hoje jogo pelo time Ota FC, que corresponde à quarta divisão no Japão, e fui eleito o artilheiro do ano com 24 gols durante o campeonato japonês Gunma Taikai 2007 – liga que ocorre anualmente e tem tradição de 20 anos –, sendo o primeiro brasileiro a receber o prêmio nesta liga”DEPOIMENTO: Futebol abriu portas no campo profissional

“Vim para o Japão em 1990 com o meu irmão Daniel devido às condições financeiras. Fomos trabalhar em uma fábrica em Shimodate (Ibaraki), e não tínhamos tempo de jogar durante a semana.

Quando chegava o domingo, eu e o Daniel ficávamos jogando a bola um para o outro. Na época, chamávamos todo mundo para formar um time e poder jogar, seja brasileiro, japonês ou iraniano. Depois de um ano, um pessoal de Tochigi nos chamou para jogar no time Tochigi FC e participar do Campeonato de Kawaguchiko. Lá, fomos campeões. Um pessoal de Ota nos viu e chamou para jogar para a Kyoei Interprise que ofereceu a nós serviço na fábrica, moradia de graça com a família e bônus se jogássemos pelo time.

Na final da Segunda Copa Kyoei, em 1993, fomos bicampeões. Foi quando machuquei o joelho e tive que parar de jogar por quase cinco anos. Fui para o Brasil e fiz um curso de técnico e árbitro de futsal em 1998. Em abril de 1999, eu e meu irmão abrimos o BFC (Brazil Futsal Center) em Oizumi.

A primeira e única quadra de futsal da cidade para brasileiros. Já no ano de 2001, casei com a Jacque e tivemos um filho. Na Copa de 2002, realizei um grande sonho. Através do meu amigo Mikio Ito, eu dirigi uma van que levou os repórteres da Globo a diversos estádios do país e pude conhecer a seleção brasileira de futebol.

Na final da Copa, invadi o campo e consegui comemorar o penta com a seleção, quando o Brasil ganhou da Alemanha, com dois gols do Ronaldo, no estádio de Yokohama. Dei a volta pelo campo com a seleção carregando a bandeira e também dei as mãos aos jogadores para agradecer pela vitória. Foi emocionante.

Hoje, eu jogo pelo time Ota FC, que corresponde à quarta divisão do Japão, e fui eleito o artilheiro do ano com 24 gols durante o campeonato japonês Gunma Taikai 2007 – liga que ocorre anualmente e tem tradição de 20 anos –, sendo o primeiro brasileiro a receber este prêmio. E durante dez anos, dou aula de futsal para jovens. Mas tudo o que aconteceu na minha vida foi graças à Deus.”

Arquivo Pessoal
“Eu, minha esposa Jacqueline e meu filho Jonathan, durante um campeonato de futsal infantil japonês em Edogawa (Tokyo). Nós representamos o Brasil”