Revolta japonesa nas fazendas de café
Depois da viagem do Kasato Maru e do choque cultural da chegada ao Brasil, a difícil trajetória dos imigrantes japoneses continua com a árdua realidade das plantações de café
02.05.2008

Famílias japonesas junto ao proprietário da fazenda
“Ei, escutem! Venham aqui todos os chefes de família! Vamos largar o trabalho a partir de manhã! Se não tivermos o que comer, matemos os bois do pasto. E se algum desgraçado da companhia de emigração se atrever a aparecer, vamos espetá-lo numa lança de bambu!” - gritava um dos colonos.
As brigas com os intérpretes e fiscais brasileiros e os conflitos entre os próprios pioneiros começavam a surgir. Estavam cansados de dividir o mesmo teto com integrantes agregados às familias, subnutridos, desanimados com a colheita, revoltados com a maneira que eram tratados pelos brasileiros. O orgulho japonês, súditos diretos do imperador supremo, estava totalmente esmagado.
Não tardou para que ocorressem greves e fugas durante a noite. O limite de suas paciências havia se esgotado há muito tempo. Para apaziguar a situação, em 23 de agosto de 1908, o presidente da Companhia Imperial de Imigração Ryu Mizuno e o seu representante no Brasil, Shuhei Uetsuka e comitiva partiram para a fazenda Dummont, onde ocorria a revolta.
Os trabalhadores demandavam transferência para outra fazenda de melhor safra e solicitavam a demissão do intérprete, que nada fazia a respeito de suas reivindicações. Ameaçaram a comitiva com lanças de bambu, enxadas e foices. Mizuno se ajoelhou perante os grevistas e suplicou compreensão. Pela visão dos imigrantes, ele era um falsário.

O trabalho puxado nas lavouras não era o principal problema. O que revoltou os colonos foi a propaganda enganosa divulgada no Japão
Foi aí que Uetsuka ajoelhou-se em meio ao cafezal e pronunciou com convicção:
“Reconhecemos que fomos os responsáveis pela duríssima situação em que hoje os senhores se encontram. Não temos como pedir perdão, mas de nossa parte podemos dizer que tudo fizemos para que os senhores pudessem sentir-se felizes.
Estamos na pior depressão econômica, agravada ainda pela péssima safra de café. Os senhores foram jogados num inferno de sofrimento. Se quiserem que eu me mate, digo-lhes que não tenho medo da morte, mas, se me permitirem, gostaria de continuar vivo para poder servir aos senhores”.
Pode-se considerar que Uetsuka era o porta-voz da Companhia Imperial de Imigração, uma vez que apresentava características de um hábil diplomata. Diferente de Mizuno, que era fechado e de poucas palavras, o representante, sempre que surgia algum tipo de problema, era requisitado para resolver a situação.
Os pioneiros abaixaram suas armas e o ódio que imperava no grupo se transformou em tristeza. Em meio à imensa plantação de café, ouvia-se o choro daqueles que se conformavam de que nunca mais cruzariam o oceano de volta para sua terra.
As 51 famílias retornaram à Hospedaria de Imigrantes, após 56 dias de permanência, mediante a intervenção da Secretaria do Trabalho do Estado, e foram distribuídas para outros locais mais produtivos.
Os membros de Fukushima e Miyagi foram para a Fazenda Veado, na linha Sorocabana e os de Kumamoto e Hiroshima, para a Fazenda São Joaquim, na linha Noroeste. Outros 28 solteiros que integravam as famílias tornaram-se operários ferroviários na região de Faxina, na linha São Paulo-Paraná.
