Imigração

Brasileiros buscam mais opções de lazer

Dekasseguis, que antes só se divertiam em reuniões com amigos, estão investindo mais em novas formas de aproveitar a vida no Japão

Cláudio Endo
Kooji Horinouti (centro) e convidados durante o Arraial de Ueda do ano passado, evento brasileiro que já é tradicional

A fixação dos brasileiros no Japão (em definitivo ou por um bom tempo) faz com que os hábitos de consumo mudem. Enquanto o trabalhador que monta um plano e o segue à risca faz de tudo para evitar gastos, as pessoas que não pensam desse modo estão mais acomodadas e passam a investir também em lazer. As discos têm sido os pontos mais freqüentados pelos jovens brasileiros. Já as famílias preferem os restaurantes ou então reúnem os amigos para uma churrascada.

Na época em que não existiam pontos brasileiros de lazer, uma pequena parte dos dekasseguis se divertia em restaurantes, boliches, karaokês e sunakos. A maioria passava o final de semana descansando ou reunindo-se na casa de alguém simplesmente para conversar e trocar informações de empreiteiras que pagavam melhor ou ofereciam trabalhos mais leves (na época em que os jornais em português ainda não circulavam).

Para estes, a diversão era ir ao supermercado e ver, a cada mês, a conta bancária crescer, contando os dias para retornar ao Brasil.

As mudanças na comunidade ocorreram de uma forma repentina. De repente, uma boa parte dos brasileiros começou a desfilar com carrões e a soltar o bolso para diversão e lazer. As
quedas dos salários e das horas-extras fizeram com que muitas pessoas desistissem de juntar dinheiro.

“Antigamente, creio que os poucos amigos se reuniam para um churrasquinho, nada mais. As opções de lazer são conseqüência do aumento de brasileiros na região e como resultado um maior relacionamento, criando novos elos, mais festinhas de aniversários, daí novos amigos e assim sucessivamente”, afirma Kooji Horinouti, 52 anos, que tem participado da organização de vários eventos voltados a brasileiros, como o Arraial de Ueda (Nagano), que acontece todos os anos desde 1998, e o Nippaku Karaokê Taikai de Ueda, concurso em comemoração ao centenário da imigração japonesa no Brasil que será realizado dia 1º de junho.

“Na nossa região, um grande sonho é ter um espaço totalmente brasileiro. Não que outras etnias não possam freqüentar, mas a comunidade teria todos os dias um local para ir, conversar, fazer consultas, ler, assistir TV e vídeos brasileiros, enfim, um local nosso, onde possamos rir alto, fazer churrasco, curtir um som, tudo isso sem estresse”, diz Horinouti. Segundo ele, mais do que lazer, hoje os brasileiros querem um ponto que seria um pequeno porto seguro, ou seja, sempre ter onde ir sem ter que pedir.

Arquivo Pessoal“Quando vim ao Japão pela segunda vez, meu primeiro trabalho foi de motorista de caminhão de até quatro toneladas. Estou em frente de casa usando o uniforme do serviço. Eu transportava banheiros móveis utilizados por trabalhadores em obras que eram feitas em toda província de Nagano.”DEPOIMENTO: ‘Fazer amigos e mantê-los onde quer que seja’

Eu morava em Lins, interior de São Paulo, e em 1990 decidi vir ao Japão. Por dois meses trabalhei em uma empresa chamda TACT, de Ichikawa (Chiba). O tipo de trabalho consistia em desmembrar contâiners de produtos que eram inspecionados pela alfândega japonesa e depois entregues ao importador.

Em 1997, quando cheguei pela segunda vez, meu primeiro trabalho foi de motorista de caminhão de até quatro toneladas. Transportava banheiros utilizados em obras por toda Nagano. Depois trabalhei em duas fábricas japonesas antes do atual trabalho como bancário.

No começo, eu procurava ficar com a família, pois no Japão, para as pessoas que se dedicam às fabricas, há pouco tempo- na maior parte das vezes por determinação do empregador, aí tudo fica mais complicado.

O Arraial de Ueda para mim é um marco na minha vida. Tudo que tenho de bom hoje no Japão devo a este evento maravilhoso, porque ali só conheci pessoas que hoje são minha grande família neste país. Com estas pessoas fazemos festas de aniversário, churrascos, reveillon e também desabafamos e descarregamos nossas preocupações, afinal somos uma família.

O Arraial de Ueda, para todos aqueles que o realizam e participam, acredito que seja um dos poucos eventos onde membros da comunidade se descontraem, reencontram amigos, solucionam seus problemas com o consulado itinerante e também aproveitam para fazer uma consulta médica e odontológica com profissionais japoneses, todos voluntários, e ainda têm atendimento psicológico prestado por profissionais brasileiros do SABJA.

Também dá pra matar um pouco a saudade da terrinha, com música brasileira, churrasco, pastel e brinquedos para crianças.

Tenho muitos planos futuros, porém hoje só peço a Deus que me mantenha com uma saúde razoável para que possa continuar fazendo aquilo que gosto e tenha energia para poder formar meus dois filhos e encaminhá-los cada um na sua estrada escolhida.

E no mais, continuar cultivando amigos e fazendo história com todos eles. Para mim viver é isso. Fazer amigos e mantê-los sempre amigos onde quer que seja.

Arquivo Pessoal
“Fui visitar um primo em Fujieda (Shizuoka) e ele nos levou para conhecer o monte Fuji, que aparece na foto, ao fundo.”
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