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18 de junho | 1908 ~ 2008
Especial do Centenário da Imigração Japonesa no Brasil
Revista Made in Japan
Centenário da Imigração Brasil Japão

Brasileiros fincam suas raízes no Japão

Número de dekasseguis que desistem de voltar ao Brasil e resolvem ficar no arquipélago de forma definitiva é cada vez maior

Gilberto Yoshinaga
Rogério Fugii e sua esposa aguardam chegada do novo filho

Não são poucos os brasileiros que estão há 10 ou 15 anos no Japão e já decidiram economizar menos dinheiro para poder investir mais na qualidade de vida. O fato é que, quanto mais se acostumam ao estilo de vida japonês, mais os brasileiros se vêem distantes do plano original de retornar para o Brasil após algum tempo. Este enraizamento abre um novo capítulo na história das relações entre os dois países, iniciada há 100 anos com a ida dos primeiros imigrantes japoneses para o Brasil.

Os casos destes brasileiros que fincaram raízes no Japão são bastante parecidos. A grande maioria veio para o arquipélago no início da década de 1990, com a intenção de trabalhar durante dois ou três anos e economizar dinheiro suficiente para voltar para o Brasil e comprar uma casa ou montar um negócio próprio. Ou seja: ninguém planejou permanecer no Japão por um período tão longo.

O tempo foi passando e a boa qualidade de vida proporcionada pelo Japão, entre outros fatores, fez com que muitos adiassem o retorno ao Brasil. Alguns até chegaram a voltar e investir seu dinheiro em algum empreendimento, mas não foram poucos os que, em razão da instabilidade econômica brasileira ou da própria inexperiência no ramo, viram o negócio falir. A solução foi, mais uma vez, vir trabalhar no arquipélago.

A decisão de tentar fixar residência no Japão é um fenômeno recente, mas cada vez mais comum entre os brasileiros. Diversos fatores contribuem para o desejo de não retornar para o Brasil, como a falta de perspectivas, a violência urbana, a corrupção política, o alto índice de desemprego e a já mencionada instabilidade econômica, entre outras.

Mas o Japão também “segura” alguns brasileiros por oferecer emprego fácil e salários suficientes para se manter um bom padrão de vida, o que inclui segurança, serviços públicos eficientes e o acesso a bens de consumo.

No caso de pessoas com espírito empreendedor, o arquipélago também já é visto como um lugar mais seguro para montar seu próprio negócio – plano inicialmente traçado para quando retornassem ao Brasil.

Com mais de 17 anos no Japão, Rogério Minoru Fugii, 31 anos, é um bom exemplo. Do plano inicial de permanecer no arquipélago por dois ou três anos, ele adiou a volta para o Brasil diversas vezes e, hoje, não planeja mais o retorno. Há três anos, criou uma empresa de decorações para festas, ao lado da esposa Karine.

E, com casa própria comprada há menos de um ano em Toyota (Aichi), aguarda a chegada do filho Vitor, que pretende educar em escola japonesa. “Vou ensinar português também, para prepará-lo para um possível retorno ao Brasil. Mas ainda pretendo ficar aqui por muito tempo”, prevê.

Arquivo2000
“Este foi o primeiro aniversário do meu filho Matheus, de meu primeiro casamento. Na época, eu ainda nem imaginava que um dia trabalharia com decorações para festas. Aluguei os enfeites com uma amiga que, alguns meses atrás, vendeu este material e mais outros enfeites para a minha empresa.”
DEPOIMENTO: “Difícil foi perceber que decidimos ficar”

“Cheguei ao Japão em fevereiro de 1991, com meu pai e um irmão. Alguns meses depois, vieram meu outro irmão e minha mãe. Eu tinha só 14 anos, mas a empreiteira relatou à fábrica que eu tinha 18 e desde então comecei a trabalhar em fábrica.

O plano inicial de minha família era ficar aqui por uns dois ou três anos, mas com o tempo a volta para o Brasil foi adiada várias vezes. Por um lado, o fato de ter independência me fez ficar acostumado ao Japão. Ao contrário de muitas pessoas, nunca sacrifiquei meus momentos de lazer ou minha qualidade de vida só para economizar dinheiro. E acho que este conforto que o Japão proporciona, além da própria sensação de segurança, me fez não pensar em retornar ao Brasil tão cedo.

Quero voltar, sim, mas acho que isso ainda vai demorar bastante. O difícil foi perceber que decidimos ficar por aqui. Aliás, como eu e minha esposa dizemos, o difícil foi ‘desfazer a mala’, ou seja, perceber que ainda vamos ficar no Japão por um bom tempo e, por isso, temos de viver bem. Para nós, a ficha caiu no final de 2006, um ano e meio depois de abandonarmos o trabalho em fábrica para abrir nossa própria empresa de decorações para festas.

A partir daí, decidimos comprar uma casa em Toyota (Aichi), onde estamos desde meados do ano passado. Encontramos um terreno grande e meu cunhado Fernando também construiu a casa dele no mesmo local. Isso é bom porque, além do conforto, temos a liberdade de fazer um bom churrasco no quintal. E, mesmo com um financiamento de mais de 30 anos pela frente, estamos pagando por algo que será nosso.

Eu e minha esposa Karine estamos aguardando a chegada do nosso primeiro filho, Vitor, que deve nascer até meados de maio. Pretendemos colocá-lo em escola japonesa, mas sem deixar que ele se desligue da cultura brasileira, porque ainda não sabemos onde estaremos no futuro. Nosso plano é voltar para o Brasil quando estivermos mais velhos, mas não dá para traçar alguma previsão. O importante é que estamos aproveitando bem o momento presente, sem nos privarmos de nada.“

Arquivo
2002 “Este foi o dia da final da Copa do Mundo de 2002, o inesquecível 30 de junho de 2002, quando o Brasil bateu a Alemanha por 2 a 0 e conquistou o penta. O legal é que este jogo foi realizado de tarde, por isso ficou fácil nos reunirmos. Nas outras Copas, os jogos ocorriam durante a madrugada e por isso ficava difícil assistir. Mesmo assim, sempre demos um jeito.”