Imigração

Desembarque rumo às fazendas de café

Após longa viagem, os primeiros japoneses chegam ao Brasil, rumo ao trabalho nas lavouras. Houve estranhamento dos dois lados

Museu Histórico da Imigração Japonesa no Brasil
Antiga hospedaria de Santos, que acomodou os primeiros imigrantes europeus

“Tudo é novidade, não só para os japoneses como também para nós, brasileiros. Acostumados a receber trabalhadores europeus, a chegada do Kasato Maru logo despertou a curiosidade local. Nenhuma outra leva de imigrantes apresentou as características marcantes desses pioneiros. Para começar, o porte físico”, o trecho faz parte das anotações da pequena caderneta do inspetor da Secretaria de Agricultura, J. Amâncio Sobral.

O atento funcionário público acompanhou o trajeto dos novos trabalhadores até a distribuição das famílias nas fazendas paulistas e esse contato rendeu um artigo para o Correio Paulistano do dia 26 de junho de 1908. Os rabiscos de seu caderno de bolso continuam: “São geralmente baixos. A cabeça grande, tronco robusto e reforçado, mas as pernas curtas. Um rapaz de catorze anos não é mais alto que uma criança européia de oito anos e a estatura média não alcança a estatura baixa de um italiano. Porém, são fortes. Todo o indivíduo de mais de doze anos traz já as mãos calejadas, sinal evidente de trabalho habitual”.

O peculiar porte físico do oriental não pôde deixar de chamar a atenção dos brasileiros, que se esforçavam para imaginar como estes pequeninos haviam derrotado os grandalhões russos há pouco tempo, durante a guerra Russo-Japonesa.
O que mais espantava, no entanto, não eram os atributos físicos, mas o comportamento dócil e absolutamente organizado dos nipônicos.

“Um aspecto que comprova o meu espanto vem das bocas daqueles que entraram no vapor Kasato Maru após o desembarque dos imigrantes. Em Santos houve quem afirmasse que o navio japonês apresentava na sua 3ª classe mais asseio que qualquer transatlântico europeu na 1ª classe. As acomodações se encontravam em uma limpeza impecável”, admirado, anotava o inspetor Amâncio.

E o choque cultural ainda estava apenas começando.

Futuro brilhante

Museu Histórico da Imigração Japonesa no Brasil
O início da viagem de trem do litoral para São Paulo

Ele estava cada vez mais convicto de que a estadia dos novos imigrantes teria um futuro promissor no Brasil. “Deixaram o cais do porto em um trem especial que subiu a Serra do Mar. O verde dos vales e das montanhas e a vastidão dos bosques no planalto paulista encantaram os japoneses. Certamente a bela paisagem compensara a decepção de alguns, quando perceberam que Santos não era bem um litoral paradisíaco do qual tanto se ouvia falar no Japão, com brancas e finas areias e grandes palmeiras. A viagem de quatro horas correu tranqüila”.

Em São Paulo, foram abrigados na Hospedaria de Imigrantes, na Móoca, onde passaram os próximos dias até serem conduzidos às fazendas. Lá se acomodaram no abrigo para assinarem os contratos, receberam as vacinas preventivas e tiveram suas bagagens inspecionadas.

Amâncio continua seu detalhado relato sobre o comportamento do grupo recém-chegado. “Chamou minha atenção quando presenciei a inspeção das malas. Os funcionários da alfândega se assustaram ao deparar com o conteúdo. Geralmente dispensava-se o procedimento pois os imigrantes europeus nada mais traziam além de uma ou duas mudas de roupas simples. Mas no caso dos japoneses, lenços de seda, cobertores acolchoados, esquisitos travesseiros de madeira ou bambu, casacões contra o frio, tinta nanquim, alguns raros quimonos, apetrechos e objetos pessoais, que nem os proprietários de terra no Brasil possuíam”.

Os objetos encheram os olhos dos fiscais. Querendo aproveitar a oportunidade, começaram a cobrar taxas. Graças ao suborno proposto pelo astuto intérprete Suzuki, as bagagens passaram intactas. “Ouvi boatos de que os funcionários da alfândega nunca viram gente que tenha assistido à inspeção, com tanta ordem e calma, durante dois dias, sem ao menos reclamarem ou se oporem”.

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