Resolvendo problemas de dekasseguis
Conheça Eliza Yuka Sato, que há 14 anos trabalha com assistência a brasileiros no Japão
11.04.2008

Eliza Sato acompanhou de perto as dificuldades dos dekasseguis
Um dos problemas que mais afligem a comunidade brasileira no Japão é a criminalidade. Em razão dela, aliás, surgem discussões do governo japonês sobre restringir ou mesmo acabar com o visto de longa permanência para estrangeiros. Por trás da criminalidade, porém, a comunidade tem outras questões preocupantes, mas que estão relacionadas a ela, como a desestruturação familiar, o êxodo escolar e a delinqüência juvenil.
Desde o início do fenômeno dekassegui, por volta de 1990, as dificuldades enfrentadas pelos brasileiros no arquipélago foram se tornando cada vez mais complexas e, em alguns casos, deram origem a novos problemas. Inicialmente, além da barreira do idioma, a maior dificuldade era a adaptação cultural, já que os primeiros dekasseguis não tinham nenhuma noção sobre como é viver no Japão e, por serem pioneiros, não tiveram com quem pegar referências sobre o estilo de vida.
O tempo passou e muitos outros brasileiros chegaram ao Japão. Com isso, nas regiões com maior concentração brasileira algumas instituições públicas japonesas também começaram a se adaptar aos estrangeiros. A principal providência foi a contratação de brasileiros em prefeituras, hospitais, escolas e delegacias, entre outras repartições.
Uma destas pessoas é Eliza Yuka Sato, 40 anos, que chegou ao Japão há quase 20 anos. Nos últimos 14 anos, sempre trabalhou prestando assistência aos brasileiros e, por isso, acompanhou de perto o surgimento dos mais diversos problemas no seio da comunidade. “De 1994 a 2000, trabalhei assessorando os brasileiros recém-chegados ao Japão, ajudando-os a providenciar documentos e fazendo tradução para eles em consultas médicas”, lembra. “De 2000 a 2005, trabalhei em escolas públicas japonesas, ajudando crianças brasileiras a aprender o idioma e se adaptar ao sistema educacional.”
Desde setembro de 2005, Eliza trabalha na Associação Internacional de Komaki (KIA), em Komaki (Aichi). Paralelamente, participa de projetos sociais e educativos promovidos pela polícia de Aichi junto aos jovens. “Faço a ponte entre a polícia e os jovens brasileiros, em palestras sobre o trânsito, sobre como proceder em situações de emergência e sobre conscientização anti-drogas”, explica. “Também há projetos fixos de aulas de culinária e de dança hip-hop, programas voltados para japoneses e estrangeiros. Principalmente, para os jovens que não estão estudando, uma questão preocupante entre os brasileiros.”
Para Eliza, os problemas da comunidade verde-amarela aumentaram significativamente no decorrer dos últimos 15 anos. “Antes, o maior problema era a dificuldade de adaptação cultural. Hoje, vejo muitos problemas urgentes de desestruturação familiar, êxodo escolar e delinqüência juvenil”, analisa. “Acredito que isto ocorre porque falta suporte psicológico e social para diversos brasileiros.”
2005 - “Em setembro de 2005, comecei a trabalhar na Associação Internacional de Komaki (KIA), onde estou até hoje. Lá, lido com a assistência a estrangeiros em diversas áreas e aprendi muitas coisas. A cidade possui uma grande concentração de brasileiros.”
DEPOIMENTO: ‘Há 14 anos auxiliando brasileiros no Japão‘
“Vim para o Japão em junho de 1988, nas primeiras levas do fenômeno dekassegui. Trabalhei um ano em uma fábrica de fiação para carros, em Toyohashi (Aichi) e, depois, fui para uma fábrica de autopeças em Kosai (Shizuoka), onde fiquei mais um ano e meio. Depois disso, fui trabalhar em uma fábrica de futon localizada em Gamagori (Aichi).
Três anos depois, eu me casei e fiquei grávida das minhas duas primeiras filhas, Airi e Karen, que são gêmeas e nasceram em 1994. Na época, para eu não ter de parar de trabalhar, o meu chefe propôs que eu atuasse dando assistência para os brasileiros, que ainda tinham muitas dificuldades de adaptação e com coisas do dia-a-dia. O que eu mais fazia era ajudar as pessoas a providenciar documentos e tirar visto e carteira de motorista, além de acompanhá-las em hospitais e clínicas, por exemplo.
Mas havia outros tipos de problema em que eu tinha de ajudar os brasileiros e, por isso, aprendi muita coisa neste período. Em abril de 2000, após o nascimento de mais duas filhas, passei a conciliar este trabalho com a assistência educacional para a prefeitura de Gamagori. Minha função era a de ajudar as crianças estrangeiras a se adaptar às escolas japonesas. Comecei cuidando de cinco escolas e logo este número dobrou.
É curioso que, algumas vezes, também é preciso reeducar os pais para que eles entendam o sistema educacional nipônico. Por exemplo, alguns não admitem que o filho tenha de limpar o banheiro da escola, mas isso faz parte do processo. Em setembro de 2005, mudei-me para Komaki (Aichi) e comecei a trabalhar na Associação Internacional de Komaki (KIA), onde estou até hoje.
Desde o ano passado, também participo de projetos sociais e educativos promovidos pela polícia de Aichi. Atualmente, cuido sozinha das minhas quatro filhas porque estou em processo de separação. Quando superar isso, planejo fazer faculdade aqui no Japão. Pretendo estudar algo voltado para trabalhos de assistência social na área de educação.”

1991 - “Esta imagem mostra um tradicional encontro que vários familiares meus fazem no Brasil, todos os anos, no terceiro domingo de janeiro. Até hoje, a família continua a se reunir neste mesmo local. Desta foto, por exemplo, eu e mais uns seis primos estamos no Japão.“
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