A evolução do ensino brasileiro no Japão
Conheça a história das escolas brasileiras no Japão e de Shoko Takano, responsáveil por uma das primeiras instituições do tipo
04.04.2008

Shoko Takano (ao centro) abriu a primeira escola para brasileiros em Oizumi
Em províncias sem grande concentração brasileira, os pais com filhos em idade escolar não têm outra opção a não ser matriculá-los em uma instituição japonesa e lidar como podem com a barreira do idioma.
Mas quem mora nas províncias com muitos brasileiros tem a opção de colocar os filhos em estabelecimentos onde a língua portuguesa predomina nos corredores e nas salas de aula. Hoje, existem mais de 100 escolas para brasileiros, entre reconhecidas e não reconhecidas pelo MEC (Ministério da Educação e Cultura), que fornecem o ensino básico e fundamental para os estudantes.
Ainda existem escolas sem infra-estrutura, mas quando famílias completas se estabeleciam no Japão, isso era a regra que predominava e não havia redes de ensino, como hoje, localizadas em mais de uma província.
A melhoria começou a surgir aos poucos, como resultado do esforço individual de professores que preferiam dar aulas, mesmo ganhando menos que nas fábricas; do investimento de diretores e até do governo brasileiro e japonês, que passaram a acompanhar essa mudança.
A japonesa Shoko Takano foi movida por um sonho: abrir uma escolinha no Japão para brasileiros, que hoje é conhecida como Centro Nippo Brasileiro (ou Nippaku Gakuen), com 16 anos de existência na cidade de Oizumi (Gunma).
Depois de nascer no Japão e viver toda a adolescência em terras brasileiras, anos depois e já casada, Shoko voltou ao Japão para integrar a massa de dekasseguis durante um ano e dez meses.
Após esse período retornou ao Brasil, mas recebeu um telefonema de um ex-chefe que mudou toda a sua história. Ele pediu para ajudá-lo no Japão. “Eu volto, mas não para a fábrica. Quero abrir uma escola de aula de nihongo”. E assim foi feito. Na mala, Shoko trouxe vários materiais didáticos de língua japonesa e, em outubro de 1991, a escolinha Centro Nippo Brasileiro foi inaugurada com dez alunos, a primeira a ensinar japonês para brasileiros em Oizumi.
Mas por que japonês? “Via que os brasileiros passavam por discriminação por não saberem o idioma”, lembra. Em 1996, a escola cresceu e o português foi inserido para aqueles que freqüentavam e tinham dificuldade em escola japonesa. De dez alunos iniciais, o número pulou para 210, um aumento que mostra como os estudos dos filhos de brasileiros melhorou em uma década.
”Voltamos para o Brasil e meu ex-chefe ligou pedindo para voltar. Eu disse que voltaria se abrisse uma escola de aula de nihongo”
DEPOIMENTO: Luta pela educação das crianças brasileiras
“Fui ao Brasil com meus pais e irmãos em 1958, quando tinha 13 anos. Ficamos em uma fazenda em Vacaria (Rio Grande do Sul) e fomos muito bem tratados. Eu estudava e morava na pensão da cidade e só voltava para a fazenda nos fins de semana. Ajudava meu pai no pomar.
Não tive dificuldades de adaptação. Só voltava triste da escola por causa do meu nome. Ficavam falando ‘shoko ovo podre’. Meu irmão até me deu o apelido de Margarida. Com relação ao português, tive dificuldade com a pronúncia de algumas palavras. Ainda hoje não tenho certeza quem é avô e avó.
Escrevendo eu sei, mas a pronúncia é difícil. Então já falo ojiichan e obaachan, que é mais fácil. Minhas professoras eram dedicadas e em dois anos eu já traduzia os negócios para o meu pai. O que é muito comum hoje com as crianças brasileiras daqui. Depois casei com 19 anos e tive quatro filhos.
Todos estudaram em colégio japonês e brasileiro e sabem falar fluente os dois idiomas. A nossa intenção era trabalhar dois anos, viajar pelo Japão e voltar ao Brasil. Viemos em 1989 para trabalhar em Oizumi durante um ano e dez meses. Nesse tempo passeamos bastante. Voltamos para o Brasil e meu ex-chefe ligou pedindo para voltar. Eu disse que voltaria se abrisse uma escola de aula de nihongo.
Queria abrir porque via que os brasileiros passavam por discriminação por não saberem o idioma. Não sei se os brasileiros se acomodam porque um amigo traduz e um outro ajuda. Quanto a voltar para o Brasil, eu não sei, porque enquanto dá para trabalhar, eu prefiro ficar aqui.
Também dependo muito dos filhos. Se eles ficarem aqui, procuramos ficar. Na verdade, acho que todos os japoneses que foram ao Brasil tinham vontade de voltar. E a história se repete porque acho que a vontade de voltar dos brasileiros é 100%, mas a realidade financeira não deixa.”

”Casei com 19 anos e, em cinco anos, eu já tinha quatro filhos. Vim ao Japão em 1989 e, também em cinco anos, todos se casaram. Hoje tenho 11 netinhos, todos nascidos aqui”
