A história do comércio brasileiro no Japão
Conheça a história de João Masuko, um dos pioneiros na venda de produtos brasileiros no Japão
28.03.2008

Comerciante foi um dos pioneiros na fabricação de pão francês no arquipélago
João Toshiei Masuko, 57 anos, e 20 de Japão, foi um dos pioneiros no comércio de produtos brasileiros. Ele começou vendendo os produtos no próprio apartamento onde morava. Em seguida abriu a loja Servitu, uma das mais antigas de Hamamatsu (Shizuoka), inaugurada em 29 de abril de 1993. Um ano depois de inaugurada a loja, Masuko criou a Servipan, uma ramificação do setor alimentício do grupo Servitu que foi pioneira na fabricação de pães do tipo caseiro e francês no Japão.
Entre a década de 80 e 90, época do auge do movimento dekassegui, muitos brasileiros passaram por situações difíceis. Um deles foi a refeição. Quem estava habituado a comer feijão temperado e bife todos os dias tinha enorme dificuldade para se adaptar ao refeitório da fábrica, que costumava servir peixe (muitas vezes com molho adocicado) e missoshiru. A falta de hábito gerava até doenças.
Esse problema foi se resolvendo aos poucos com o surgimento de lojas e restaurantes verde-amarelos. Masuko foi um dos que ajudaram os brasileiros naquela época. Ele já trazia o tino para os negócios. Masuko trabalhou como gerente do restaurante São Paulo, um dos primeiros restaurantes de Hamamatsu, por um ano e oito meses.
O resultado é que o local virou um ponto de encontro da comunidade: festas de aniversário, casamentos, até concurso de karaokê eram organizados no restaurante.“As pessoas tinham saudades da comida brasileira. Algumas vinham de longe e formavam filas nos fins de semana para comer feijão e carne”, lembra.
“Antigamente os brasileiros só conseguiam alguns produtos quando escondiam-os no fundo da mala, ao virem para cá”. Cerca de dez anos atrás, conta Masuko, o brasileiro ainda não vivia sem uma loja de produtos. Hoje, tudo mudou, como todos que vivem no Japão sabem. “Os brasileiros já se adaptaram aos restaurantes japoneses, até por influência dos filhos que estudam em escolas públicas. E do lado do comércio brasileiro, o cliente de hoje é mais exigente e quer tudo mais fresquinho”, diz.
Diferente da rúcula vendida no Japão, a verdura brasileira surgiu também há mais de dez anos com os primeiros brasileiros que passaram a se dedicar ao plantio. “Tem muito japonês que também passou a consumir esses produtos. Hoje, eu tenho contrato com um agricultor e até financio algumas máquinas para melhorar o plantio”, diz o comerciante.
“Antigamente os brasileiros só conseguiam alguns produtos quando escondiam-os no fundo da mala, ao virem para cá”DEPOIMENTO: Pioneiro na venda de produtos brasileiros
“Cheguei no Japão em maio de 1988. Naquela época, não existiam muitos brasileiros e não havia nenhuma infra-estrutura voltada para nós. Lembro que o único produto brasileiro que eu via era a pinga 51, porque tinha uma loja japonesa que deixava nas prateleiras bebidas de vários países.
Muitos não conseguiam se adaptar à comida japonesa. Carne bovina até tinha, mas era muito cara e o peixe era mais acessível. Por causa do serviço pesado, o corpo não resistia e acabava ficando doente.
Como as pessoas sentiam falta da comida brasileira, decidi deixar a fábrica para me tornar gerente do restaurante São Paulo, em 1991. Ainda não existia feijão brasileiro, então eu usava no lugar o kintokimame (um tipo de grão maior), mas o sabor não era igual. Mesmo assim, formava-se uma grande fila nos fins de semana.
Vinha gente de Aichi, Gifu e Mie, entre outras. Um prato custava em média 1,8 mil ienes e a feijoada, 2,5 mil ienes. Mas tudo era improvisado: a carne seca o restaurante fazia; a calabresa era uma lingüiça japonesa semelhante. Para mim foi uma grande experiência e tenho imensa gratidão pelo país por ter nos acolhido na época em que o Brasil estava passando por uma situação ruim. Há 16 anos, comecei o negócio no meu apartamento e no ano seguinte abri um ponto.
Em seguida, os clientes começaram a sentir falta do pão francês assado na hora. Aí comecei a fazer a massa em casa até montar a Servipan, que hoje fornece vários tipos de produtos em 500 locais, não só para as lojas brasileiras, mas também para grandes redes, como o grupo Aeon.
No começo, um dos produtos mais requisitados era a feijoada em lata. Também passamos a vender feijão carioquinha, bolachas, enlatados, farinha de mandioca, fubá, e outros. Hoje, praticamente já tem de tudo no Japão”.

Iniciativa de João saciou a vontade dos brasileiros de estarem mais próximos de sua culinária tradiconal
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