Japão também é opção para não nikkeis
A dekassegui Ângela Rocha conta sua experiência no Japão e como faz para conseguir conciliar o trabalho duro no país com diversão
16.03.2008

Ângela Rocha carrega o mesmo sonho de muitos outros dekasseguis
Assim como os primeiros brasileiros que desembarcaram no Japão, Ângela Schwarz Seiryu Rocha, 28 anos, que chegou há pouco mais de um ano e dois meses, também carrega o mesmo sonho: juntar dinheiro em dois ou três anos para comprar uma casa ou dar entrada em um negócio próprio no Brasil.
Sonho que hoje pode ser alcançado não apenas pelos nikkeis, como foi no início do movimento dekassegui, mas também pelos não descendentes que são casados com nikkeis. Antes, apenas os nisseis solteiros ou casados que deixavam a família no Brasil se arriscavam a vir trabalhar no arquipélago. Com o passar dos anos, a esposa e os filhos que ficavam no País também passaram a vir para o Japão: as portas se abriram para os sanseis. Mais recentemente, o perfil da comunidade verde-amarela também inclui aqueles que não têm nada de oriental. É o caso de Ângela, gaúcha descendente de alemães, casada com um sansei, que veio trabalhar no Japão.
Ainda no Brasil, pensar em trabalhar nas fábricas japonesas era uma realidade que muitos não imaginavam que poderiam encarar. Um parente ou conhecido que estava ou havia vivido no Japão comentava que a vida de dekassegui não era nada fácil. Mas diante das dificuldades, o Japão sempre foi a solução. “Nunca imaginei que um dia viria trabalhar no Japão. Tenho parentes que já foram para a Alemanha trabalhar, mas não no Japão. Em 1998, comecei a namorar um sansei e nos casamos depois de cinco anos, mas não pretendíamos vir. Porém, as coisas foram ficando difíceis e decidimos ficar durante três anos e voltar”, confessa.
O começo da jornada no arquipélago não foi fácil, mas nos momentos difíceis também ocorreram situações engraçadas para superar a barreira do idioma. “No início, com dificuldade de falar o idioma, muitas vezes tive de fazer mímica, apontar com o dedo para o japonês da loja me entender”, relembra.
Entre as lembranças engraçadas, escutar as japonesas falarem ‘irasshaimase’ ao entrar em uma loja era motivo de risos. “Achava muito engraçado as japonesas falarem ‘irasshaimase’ meio cantando. Mas acho que é uma questão de costume e educação. Se for ver, nós mesmos já estamos falando assim”, analisa Ângela. Apesar de tudo, Ângela não descarta a possibilidade de um dia morar no Japão definitivamente. “Eu até viveria aqui, mas não ficaria na fábrica. Sou formada em educação física e gostaria de exercer a profissão. O meu plano é voltar em 2010, mas os objetivos podem mudar”, confessa ela, como dizem tantos outros brasileiros que vivem no Japão.
Ângela Schwarz Seiryu Rocha, 28 anos, fez caminho cada vez mais repetido por brasileirosDEPOIMENTO: “Trabalho com lazer”
“Chegamos ao Japão em dezembro de 2006 e, apesar de queremos juntar dinheiro para comprar uma casa própria ou dar entrada em algum negócio, não temos aquela preocupação de ter de guardar uma determinada quantia de dinheiro. O que der para juntar nesses três anos está bom.
Já trabalhei em autopeças fazendo quatro horas de zangyo, mas também tento me divertir. Fui para Tokyo algumas vezes e tenho vontade de conhecer Bali, porque estando aqui é mais fácil. Não digo que vou, mas é uma chance que temos agora. Claro que o mais importante é trabalhar, mas não é só isso, temos que aproveitar as oportunidades do Japão. A parte difícil é que sinto muita falta da minha mãe, da minha família e dos meus amigos que estão todos no Brasil. Eu posso contar nos dedos os amigos que tenho. Por outro lado, aqui temos segurança e a tranqüilidade de ir ao combini às duas horas da madrugada, por exemplo. Eu até viveria aqui, mas não ficaria na fábrica.
Além disso, queremos ter um filho e pretendo tê-lo no Brasil. O meu plano é voltar em 2010, mas claro que os objetivos podem mudar. Acho importante viver e aproveitar as oportunidades durante este tempo que estamos aqui, e não só trabalhar.”

“Nunca imaginei que um dia viria trabalhar no Japão. Tenho parentes que já foram para a Alemanha trabalhar, mas não no Japão”
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