Imigração

Encarregado há 18 anos no Japão

Conheça a história de Muneharu Kawae, brasileiro que foi para o Japão em busca de uma vida melhor e acompanhou as principais mudanças na comunidade dekassegui


“Eu e minha família. Nessa época, por volta do ano de 2000, nós já tínhamos decidido a não retornar mais ao Brasil. Para muita gente, era o fim daquela história de juntar dinheiro rápido para ir embora. Meus filhos estavam estudando e adaptaram-se bem ao país. Porém, ainda não pensávamos em construir uma casa, fato que aconteceu somente há dois anos.”

Pode-se afirmar que o brasileiro Muneharu Kawae, 57 anos, é um dos tantoushas mais veteranos do Japão. Ele veio em setembro de 1989 e um ano depois já era responsável por um grupo de funcionários da empreiteira Shouei, em Saitama. Desde então, nunca mais encarou uma linha de produção. “Naquela época, era raro brasileiro que dominasse o idioma japonês”, conta ele.

Kawae saiu do Brasil em 7 de setembro de 1989, mas a esposa e os três filhos vieram somente em fevereiro de 1991. “Normalmente era assim: primeiro vinha o chefe da casa e, depois de um certo tempo, a família.”

Ele morava em Piabetá, distrito de Magé, a 30 km da capital carioca. “Eu nasci no meio da lavoura, e fui caminhoneiro e comerciante. Mudei para Piabetá porque era um local onde meus filhos podiam estudar. Nessa época, o Brasil estava em crise e decidi sair do País”, conta.

No Japão, Kawae foi para Yokohama (Kanagawa), onde eram definidos onde e qual ti­po de serviço cada pessoa iria fazer. “Como eu já tinha uma irmã em Ibaraki, pedi para que me enviassem em um local próximo. Então comecei a trabalhar na fábrica Sankei, em Saitama”, relembra.

O presidente da empreiteira decidiu transferi-lo para o escritório de Hamamatsu (Shizuoka), em 1990. “Fiquei cinco anos na Shouei. Em janeiro de 1995 passei a trabalhar na empreiteira Shin-Ei, onde estou até hoje e atualmente sou gerente de administração.”

Kawae planejou ficar no Japão por seis anos no máximo, mas a estadia foi se prolongando. “No final de 1990, pedi para minha esposa vir com os filhos porque no Brasil eles não teriam futuro. Como dar educação em um País cheio de crise e criminalidade? Uma vez, eu mandei 2 mil dólares e minha esposa foi ao banco retirar o dinheiro. Na volta para casa o ônibus foi assaltado. Mas ela e meus filhos conseguiram descer. Se o ladrão soubesse que dentro da bolsa tinha 2 mil dólares, teria levado tudo.”

DEPOIMENTO: ‘FÁBRICAS TINHAM PRODUÇÃO ATRASADA’

Muneharu Kawae no local de trabalho: há 18 anos no Japão, ele foi um dos
primeiros tantoushas brasileiros

“No começo, chegavam no Japão muitos nisseis (segunda geração). Entre os japoneses, eles tinham a fama de bons trabalhadores e não recusavam horas extras. Quando chegava a notícia de que algum brasileiro tinha sido preso, era uma grande novidade.

A produção das fábricas de uma forma geral ficava atrasada de seis a oito meses porque faltava mão-de-obra. No começo, eu fazia cinco ou seis horas extras por dia e, por muitas vezes, trabalhei até às 3h da manhã, sendo que às 8h eu já estava iniciando o expediente. O salário variava de mil a 1,2 mil ienes por hora.

Em 2000, a Suzuki fez uma grande demissão em massa. Só da nossa empreiteira foram 50 funcionários, todos remanejados para outras fábricas. As horas extras também diminuíram, mas o número é relativo.

Em uma montadora, por exemplo, trabalha mais quem está na linha de um modelo que vende bastante. O que não mudou muito foi a troca de emprego. Antes de 2000, os brasileiros diziam que estavam no Japão de passagem e, se não tivesse hora extra, iria procurar outro trabalho.

De uns dois anos para cá, muitos não querem hora extra. Alguns fazem arubaitos em outros lugares, ou estão estudando. Também escolhem o tipo de serviço. Por exemplo, quem tem habilitação de empilhadeira quer um serviço nessa área. Eu concordo com eles porque se esforçaram para se aperfeiçoar.

Mas todos que chegam pela primeira vez diz que aceita qualquer tipo de serviço porque não domina o idioma. Hoje em dia, o candidato precisa ter um certo nível de japonês para que os superiores possam explicar o serviço sem o intermédio de intérpretes.

As fábricas também querem pessoas qualificadas ou com experiência para não comprometer a produção quando há troca de funcionários. Outro requisito é ter carteira de motorista. Como muita gente passou a morar nos conjuntos habitacionais, muitas empreiteiras estão com apartamentos e alojamentos vazios.”


“Em 1994, eu fazia o transporte de funcionários até a fábrica de Ryuyo em um micro-ônibus, que está estacionado em uma avenida de Takaoka (bairro de Hamamatsu onde moram muitos brasileiros). Na foto acima, aparecem vários funcionários da época e alguns estão por aqui até hoje.”
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