Turismo

Os caminhos da liberdade

Conheça a história, os rostos, os lugares e os segredos do bairro mais japonês do Brasil

Shin Shikuma
O bairro com sua decoração oriental

A história de amor entre os japoneses e o bairro da Liberdade é antiga. Já a partir de 1912 até 1942, o bairro foi uma das principais portas de entrada dos imigrantes que não se adaptaram as condições inóspitas das lavouras do interior para tentar a sorte na capital paulista. A rua que mais atraía os japoneses era a Conde de Sarzedas, que fica na divisa do centro com a Liberdade, marcada por uma ladeira íngreme, cuja parte inferior era um extenso brejo, coberto de mato e cortado por um córrego que costumava inundar as terras vizinhas. Mas era possível alugar porões por preços baixos, conseguir empregos facilmente e, além de tudo, matar a saudade da comida japonesa, já que próximo dali ficava o Comercial Fujisaki, que comercializava produtos nipônicos. Os imigrantes haviam encontrado a segunda terra-natal.

A Liberdade dos imigrantes

Museu Histórico da Imigração Japonesa no Brasil
Rua da Liberdade no ano de 1942

Em 1915, foi fundada a escola Taisho Shogaku que passou a atrair diversos japoneses à região. A educação era amplamente valorizada pelos nipônicos, motivo pelo qual a escola adquiriu importância considerável.

Museu Histórico da Imigração Japonesa no Brasil
Liberdade na década de 30

Aos poucos, as diferenças com outras regiões começaram a ficar visíveis: nos estabelecimentos comerciais da área, placas com letras orientais começavam a tomar o ambiente. Na hora da refeição, o aroma peculiar do missoshiru com sardinha assada na brasa se espalhava pelo ar. Nos tempos livres, um esporte nada semelhante ao futebol era praticado nas ruas: o beisebol.

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Rua da Glória em 1860

A partir de1934, o governo Getúlio Vargas adotou uma política de retaliação aos imigrantes dos países do Eixo (Alemanha, Japão e Itália). Nos anos mais difíceis, os japoneses foram proibidos de ensinar a língua japonesa. Concentrações de japoneses também passaram a ser mal vistas. Por isso, em 1942 os moradores da Conde de Sarzedas foram obrigados a deixar o local. O medo e a tristeza impregnaram a região, acabando com o sonho da segunda terra-natal.

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Bairro da pólvora em 1942

A Liberdade do pós-guerra
Museu Histórico da Imigração Japonesa no BrasilA educação era amplamente valorizada pelos nipônicos, motivo pelo qual a escola adquiriu importância considerávelApós a guerra, os japoneses voltaram para a região, que incluía a Praça da Liberdade, para retomar o desenvolvimento comercial que havia sido interrompido. Era uma área repleta de árvores, cortada pelos trilhos dos famosos bondes vermelhos da época e não tinha alagamentos, como a Conde de Sarzedas. Muitos abriram pensões para hospedar os recém-chegados, principalmente os agricultores do interior e estudantes em busca da faculdade.

A auge dessa época foi a inauguração, em 1953, do Cine Niterói, onde eram exibidos somente filmes japoneses. O sucesso foi estrondoso, e as filas para o cinema chegavam a tomar o quarteirão. Intelectuais brasileiros começaram a freqüentar o bairro para assistir aos filmes. Na década de 60, surgiu o Centro da Sociedade Brasileira de Cultura Japonesa, o Bunkyo, bem como a Associação de Confraternização dos Lojistas, que hoje é a ACAL (Associação Cultural e Assistencial da Liberdade). As duas organizações exerceram um importante papel dentro da colônia japonesa: “Em torno delas, os nikkeis começaram a se reunir”, conta Sumiko Mizumoto, esposa de Tsuyoshi Mizumoto, o primeiro presidente da ACAL.

Museu Histórico da Imigração Japonesa no BrasilCine Niterói inaugurado na década de 50Além de ir ao cinema, os nikkeis tinham outras opções de diversão na Liberdade. Que tal ir à boate beber saquê, servido por atendentes isseis que só falam em japonês? A proposta atraia muitos membros da colônia, que nem ligavam para o ar melancólico das casas noturnas que começaram a abrir na região. As reclamações vinham, sobretudo, dos que acabavam de chegar do Japão - a falta de elegância do ambiente e dos freqüentadores incomodavam os recém-chegados. Mas não havia outra opção. “Havia as boates dos isseis e as dos nisseis”, relata Noboru Sato, comerciante do bairro. Diferentes no modo de pensar e agir, as duas gerações tinham de freqüentar lugares diferentes, a fim de evitar brigas e discussões.

Uma pioneira
Shin ShikumaShizue Arai, descendente da primeira família que se instalou no bairro
Arquivo pessoalShizue, então com 4 anos e parte da família Higaki
Shizue Arai é uma nissei de 67 anos, proprietária de uma farmácia na Rua Galvão Bueno. Ao lado do estabelecimento ficam os consultórios médicos de duas de suas filhas, que também ajudam na farmácia. Nada de diferente, não fosse a freqüência com que Shizue é chamada para dar entrevistas aos jornais, revistas e televisão. O motivo: a nissei é parte da família Higaki, os primeiros japoneses a se instalar na Avenida Galvão Bueno. Praticamente os precursores da Liberdade como Bairro Oriental.

“Tenho a farmácia desde 63. Antes da guerra, morávamos na Conde do Pinhal. Meus pais vieram do Japão para trabalhar no cafezal. Eles se conheceram em São Paulo, por volta de 1930, por casamento arranjado, o miai. Compraram um hotel na Conde do Pinhal, em 1934, o Asahi. Na região, já tinha uma coloniazinha de japoneses, pois na Conde de Sarzedas estava a embaixada do Japão. O que os japoneses do interior ganhavam na safra, vinham vender aqui. Teve a época da alta do óleo de hortelã, para abastacer os aviões.

Ou então tinha as pessoas que iam de volta para o Japão. Tivemos que sair dali por causa da guerra. Teve a lei do Getúlio Vargas: 24 horas pra mudar. Queimamos vários móveis, colchão, as camas e levou só o essencial para uma ruazinha perto da caixa d’ água na Vila Mariana.

Durante a guerra foi rigoroso. Não podia acender vela e a comida era racionada. Eu entrava na fila de pão. Acordava cinco horas, e e ia para a fila do pão pegar a senha. Chegava a minha vez e acabava a senha.

Arquivo pessoal
Bar Asahi da família de Shizue

Após a guerra, o tratamento melhorou. O pessoal do interior passou a vir de novo. Nossa casa, que era uma pensão, ficou pequena para abrigar essas pessoas. Um senhor comprou o terreno vago na frente da pensão. Ele disse que ia construir um cinema, então resolvemos abrir um bar. Inauguramos o bar em 1953, antes de abrir o cinema, que era o Cine Niterói. Eu tinha uns 18, 19 anos. Vendíamos sushis, pernil assado, udon. Ampliamos o bar e virou um restaurante, o Asahi. Vendia bastante.

Arquivo pessoalEstabelecimento foi ampliado para se tornar um restauranteO cinema durou pouco. Não chegou nem a 15 anos. Eu me formei em farmácia, casei. Resolvi abrir uma farmácia em 63. A partir daí começou a surgir o comércio, como pastelaria, tinturaria, tudo de japonês.

Na construção do metrô, o comércio ficou meio parado. Queriam fazer um bairro que nem a Little Tokyo (na Califórnia). Aí colocaram essas lanternas, esse piso. Nos últimos 30 anos, surgiu muita concorrência. Os chineses e coreanos têm mais visão para comércio, porque o japonês é mais retraído. Tenho quatro filhos e alguns netos, que foram criados aqui. Os clientes têm confiança, são bem antigos.

O ponto turístico

Quem vai hoje à Praça da Liberdade nunca vai imaginar que, antes do metrô, o local era conhecido pela tranqüilidade. Acolhia um pequeno morro, um lago com barquinhos e muitos casais de namorados que passavam ali o tempo livre. Por volta de 1968, o cenário começou a se modificar. Primeiro foi a construção da Avenida 23 de Maio, abaixo do atual viaduto de Osaka. Depois, o caos que tomou conta da região devido à construção do metrô: muitas lojas da Avenida Liberdade foram obrigadas a se mudar, já que os clientes mal conseguiam transitar pela região.

Museu Histórico da Imigração Japonesa no BrasilInauguração do Bairro Oriental em 74Com o metrô, surgiu a idéia de transformar o bairro em um chamariz turístico e comercial. Era o nascimento do chamado Bairro Oriental (Toyogai), que recebeu da prefeitura decoração especial, com a instalação das luminárias típicas (suzuranto), de letreiros em japonês na fachada das lojas, a construção de um portal xintoísta (torii) e a reformulação das calçadas, entre outros. No dia 9 de novembro de 1974, 40 mil pessoas assistiram à inauguração da nova cara do bairro, que deixaria definitivamente o caráter residencial. Um ano depois, foi a vez da abertura da feirinha da Praça da Liberdade, que acabou se tornando um dos marcos da cidade. “Naquela época, havia pouca gente. Nós ficávamos naquele espaço perto da porta do metrô. Os brasileiros não estavam acostumados à comer yakissoba no meio da rua”, conta Tsuguo Kondo, que trabalha na feira desde a inauguração.

Nos dias de hoje, a Liberdade ainda é uma das maiores referências da colônia japonesa em São Paulo. O momento, no entanto, é de transição: embora nas aparências o bairro continue nipônico, por trás das cortinas coreanos e chineses estão cada vez mais dando as cartas.

Museu Histórico da Imigração Japonesa no Brasil
Avenida 23 de Maio no ano de 1972

Museu Histórico da Imigração Japonesa no BrasilE em 1943Esse fenômeno não é sem motivo. A origem da mudança está no início da década de 80, com o movimento dekassegui e o envelhecimentos dos comerciantes nikkeis. Incapazes de prosseguir no comércio, os japoneses vêem-se obrigados a passar para frente os estabelecimentos que mantêm. A primeira opção seria, obviamente, para os próprios filhos e netos. Estes, no entanto, preferem seguir carreira em outros setores da economia, já que normalmente apresentam escolaridade mais alta que a dos pais. Ou então seguem ao Japão como dekasseguis, opção aparentemente mais interessante que os poucos atrativos oferecidos pela vida de pequeno comerciante da Liberdade. O resultado é a venda dos estabelecimentos aos chineses e coreanos, que aproveitam a cultura nipônica para alavancar as vendas. Não há dúvida, contudo, de que o bairro ainda guarda fortes laços com a colônia japonesa.

A alegria dos visitantes, no entanto, não é suficiente para espantar o ar decadente que envolve algumas partes do bairro. O número de estabelecimentos comerciais que parecem prestes a fechar as portas, as fachadas e os edifícios denegridos pelo tempo estão presentes em toda a Liberdade, que luta para não perder o charme conquistado nas décadas de 70 e 80.

O primeiro passo em direção à revitalização do bairro foi dado. Mas ficou só nisso: o projeto Viva Liberdade!, iniciado em 2001, está parado. Resultado de uma parceria da Acal, da Prefeitura, do Sebrae e do BNDES, o Viva Liberdade! tinha por objetivo renovar o visual da área, reformando fachadas de lojas, calçadas, luminárias e viadutos. A prefeitura diz que fez a sua parte, embora as reformas que promoveu não tenham surtido grande efeito. O Sebrae e o BNDES abandonaram o projeto, o que inviabilizou os investimentos dos empresários da região. Revitalizar a Liberdade é o mesmo que manter viva a própria memória da colônia nipo-brasileira.

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Documentário com depoimentos sobre o bairro da Liberdade

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