Imigração

Testemunha da história: Tomi Nakagawa

O primeiro navio japonês a trazer trabalhadores ao Brasil foi o Kasato Maru. Tomi Nakagawa estava nele. Sua história é a própria saga da imigração

:: Fotos: a trajetória dos imigrantes japoneses no Brasil

Eduardo Xavier
Arquivo PessoalOs pais e os dois irmãos de Tomi que voltaram para o Japão: foto tirada antes do embarque para o arquipélago
Arquivo PessoalA família que Tomi formou no Brasil
Arquivo PessoalTomi, aos 18 anos, ao lado da irmã Tomo
Arquivo PessoalA fazenda de café em que Tomi e a família trabalharam no interior de São Paulo
Tomi Nakagawa foi a última entre os imigrantes do navio Kasato Maru a morrer. Ela tinha um ano e nove meses quando viajou com os pais, Mitsuji Nishimura e Kiyo, e as irmãs Koto e Tomo, na lendária embarcação que trouxe os primeiros japoneses para o País. Cidadã honorária do Paraná, título que recebeu em 2004, sua importância na comunidade nikkei é tão grande que o imperador Akihito fez questão de visitá-la na sua vinda ao Brasil em 1997. Tomi faleceu no dia 10 de outubro de 2006 aos 99 anos.

Com o auxílio de parentes, ela deu o seguinte depoimento emocionado à Made in Japan:

“Minha família deixou a hospedaria de imigrantes no Porto de Santos no dia 29 de junho de 1908 e foi levada à Fazenda Dumont (pertencente ao aviador Santos Dumont), na região de Ribeirão Preto, em São Paulo, com outras 52 famílias das províncias de Kumamoto, Fukushima, Hiroshima, Miyagi e Tokyo. Meus pais foram trabalhar na lavoura de café. A jornada de trabalho era longa e eles colhiam pouco porque não tinham prática.

As mãos ficavam doloridas, inchadas e esfoladas. Todo mundo trabalhava muito e mesmo assim o dinheiro mal dava para comer.

Como a vida nos cafezais era difícil meus pais decidiram tentar a sorte na cidade grande. Em São Paulo, conseguiram juntar dinheiro suficiente para a compra de uma propriedade agrícola em Promissão, no interior paulista. Como todos os japoneses, meus pais chegaram no País para trabalhar bastante e ficarem ricos para depois voltar ao Japão. O problema é que eles não se adaptaram ao solo. Ficaram endividados e tiveram de entregar as terras. Depois de 20 anos de trabalho duro no Brasil, meus pais voltaram para a província de Kumamoto, no Japão. Eles levaram dois de meus três irmãos que nasceram no Brasil, Mitsuo e Mitsuyoshi. Eu fiquei no Brasil. Acabei me casando com Masagi Nakagawa. Como eu, ele era imigrante japonês. Tive oito filhos. Meu marido queria muito voltar ao Japão para morar lá. Eu não. Voltei uma vez para passear, em 1960, e outra para o tratamento de saúde do meu marido. Masagi morreu no Japão em 1981, vítima de um câncer no intestino.

Eu cuidei dele nos dois anos que ficou em um hospital no Japão.

Tive outra tristeza grande quando um dos meus filhos morreu depois de uma semana do nascimento. Seu nome era Yuriko. Há nove anos, minha filha mais velha, Kinuko, também morreu. Meus filhos Ataro, Sumiko, Setsuko, Akiomi e Kiyoshi vivem no Brasil. Eiko está no Japão. Tenho uma família grande. São 30 netos, 35 bisnetos e três tataranetos. Apesar da idade, estou com boa saúde. A primeira vez em que estive em um hospital foi em dezembro do ano passado por causa de uma virose. Sofri um derrame há 10 anos, mas não fui hospitalizada. Hoje uso um andador. Gosto de comer de tudo - menos carne –, assistir televisão, em especial o canal japonês NHK, passear, cantar, acompanhar undokai (gincana japonesa) na Associação Cultural e Esportiva de Londrina e dormir. Já trabalhei muito nessa vida. Não quero fazer mais nada (risos). Apesar de ficar longe de meus pais, eu não me arrependi de ter ficado no Brasil. Passei por muitas dificuldades mas tive uma vida feliz.”

* Leia mais na revista Made in Japan - edição 117

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