Japão de todos os santos
Enquanto o Brasil, o maior país católico do mundo, comemora o reconhecimento do seu primeiro santo, o Japão, dominado pelo xintoísmo e budismo, já conta com 42 santidades e mais de 200 beatos
09.05.2007

Missa trilíngüe (japonês, espanhol e português) realizada em Hamamatsu. A região é uma das que mais concentra brasileiros no Japão.
Quem já não ouviu a célebre frase “Deus é brasileiro”. Do outro lado do mundo, em terras japonesas, certamente essa crença não existe. Até mesmo porque o xintoísmo e o budismo, as religiões predominantes, não se concentram na figura de um Deus ao estilo cristão. Porém, se Deus não é japonês, bem que se pode arriscar que os santos e beatos resolveram viver em grande número no arquipélago. O Japão possui uma superpopulação de santidades se comparado ao Brasil, a maior nação católica do mundo.
Igreja estilo zen
O estilo das Igrejas Católicas visitadas no Japão pela equipe de Made in Japan não remetem à adoração de santos e imagens como é comum no Brasil. A missa rezada pelo Padre Watanabe mostra um altar mais parecido com o estilo zen, com nenhuma imagem representada, a não ser a cruz. Ele trabalha desde 2006 na Igreja Católica de Meguro. “Realizo as missas em japonês, mas como recebemos muitos estrangeiros contamos com a ajuda de padres que vêm de países como Brasil e Nova Zelândia”. Por se tratar da Páscoa, a igreja estava repleta de crianças. Ele iniciou sua formação cristã como protestante, mas no final dos anos 90 migrou para a Igreja Católica japonesa. A Igreja Católica brasileira está comemorando o reconhecimento do primeiro santo nascido no Brasil, Frei Galvão, canonizado pelo Papa Bento XVI. Natural de Guaratinguetá, ele se junta à pequena lista de mais quatro santos que viveram em terras verde-amarelas, mas nasceram em outros países, além de outros 78 beatos (um grau abaixo de santo). Enquanto isso, o Japão exibe a extraordinária lista de 42 santos e mais de duas centenas de beatos. E a diferença vai ficar ainda maior com o recente anúncio do Vaticano de elevação de 188 mártires japoneses, que viveram no século 17, à condição de beatos. Mas, afinal, por que há uma diferença tão grande?
Longe de ser uma competição de fé, os números demonstram o quão forte foi a disseminação do catolicismo no Japão durante o período das missões cristãs. Mas se por um lado a missão presente no Japão foi a mais bem-sucedida de todo o Oriente, a repressão aos católicos convertidos, depois da política de isolamento do arquipélago no século 17, foi uma das mais sangrentas. Para dar uma idéia do massacre, entre os novos beatos que serão reconhecidos até novembro deste ano pelo Vaticano, está uma família inteira que foi condenada à morte. João Hashimoto Tayoe, a esposa Tecla, e seus filhos pequenos foram criados dentro da tradição cristã e morreram durante o Grande Martírio de Kyoto, em 1669, quando 52 pessoas foram crucificadas e queimadas. Para entender como foi a evolução do catolicismo no arquipélago é necessário voltar bem mais atrás na linha do tempo.

A igreja Oura, localizada em Nagasaki. Ela foi construída em 1865 em homenagem aos 26 mártires da cidade, mas era restrita aos fiéis estrangeiros no início. A proibição do cristianismo para os japoneses só caiu em 1872. Hoje, o local é considerado um tesouro nacional
Cristãos no Japão
O início do catolicismo no arquipélago remonta a 1548, quando um jovem exilado que atendia pelo nome de Yajiro cruzou o caminho do maior missionário católico do Oriente, Francisco Xavier. O encontro ocorreu na atual Malásia e o japonês, encantado pela pregação do jesuíta, se dispôs a ajudá-lo em sua viagem ao Japão. Batizado como Paulo, ele serviu de guia e intérprete para Xavier. Mais do que isso, ele foi responsável pelo primeiro sistema de romanização da língua japonesa que se tem notícia.
Sou a quarta geração de católicos na minha família. Ou seja, meus bisavós já seguiam a religião desde 1878. Tenho três irmãos que moram no Brasil, mas eu nunca fui para lá. Um deles, Haruo Sasaki, é padre. Não sou fervoroso em relação aos santos. Tenho um pequeno altar em casa onde faço as orações. É como se fosse um ‘butsudan’. Aqui em Hamamatsu, como o número de estrangeiros é grande, sempre há brasileiros nas missas.
Tadao Sasaki, 69 anosXavier conseguiu permissão do daimyô Takahisa Shimazu, o primeiro a levar armas de fogo ao Japão, para pregar o catolicismo em suas terras. A missão começou na porção sul do arquipélago. Os tempos eram de curiosidade. Os japoneses, que mal conheciam as terras além-mar, tinham os primeiros contatos com homens de cultura diferente. A disseminação do catolicismo foi surpreendentemente fácil. A evangelização continuou e em 1570 já havia cerca de 30 mil cristãos em uma missão formada por apenas 15 religiosos. Um ano antes, a primeira igreja era fundada em Nagasaki, a província mais católica do Japão.
Os missionários expandiram a conversão até chegar à capital da época, Miyako (atual Kyoto), onde foram proibidos pelos senhores feudais. Contratempos à parte, o catolicismo avançou em meio a um Estado fragmentado. No fim do século 16, a igreja já possuía 300 mil fiéis no Japão, mesmo sem contar com imposições de uma aristocracia ou de um governo religioso, como era o mais comum em outros países.
Mas, chegou um ponto em que a forte propagação da religião e as mudanças culturais começaram a incomodar os senhores feudais, sobretudo com a aliança dos jesuítas com o lendário samurai Nobunaga Oda. Ele foi um dos precursores da unificação de grande parte do Japão se utilizando de táticas de guerra inovadoras e armas de fogo. Com a morte de Nobunaga em 1582, a situação começou a complicar para os católicos.
Vou à missa todas as semanas e rezo em casa em um altar. Meu marido é católico de nascimento e eu me converti há 30 anos. Quando era estudante, entrei em um colégio católico de Hamamatsu. Escolhi o cristianismo por achar nele o que as outras religiões não me ofereciam. Gosto do santo que leva o nome da igreja onde vou, São Francisco de Assis. Os japoneses, em geral, não costumam fazer pedidos aos santos para curar alguma doença ou conseguir casamento.
Shigeko Yamaguchi, 53 anosHideyoshi Toyotomi sucedeu Oda e, em 1587, lançou um edital proibindo o Cristianismo no país, ordenando a saída de todos os missionários. Começava um período de perseguições cruéis. Chegou ao ponto de Toyotomi sentenciar à morte 24 cristãos da capital Miyako, em 1596. Em Nagasaki, 26 foram condenados como forma de alerta ao povo e marcaram o início do martírio.
Os católicos foram banidos do Japão até 1889, quando a revolução Meiji acabou com o xogunato e estabeleceu uma nova constituição que garantiu a liberdade religiosa. Os pequenos grupos que ainda existiam às sombras ressurgiram à luz e se reorganizaram, permanecendo até os dias de hoje. O arquipélago hoje possui 445 mil católicos nascidos lá e 406 mil imigrantes, na sua maioria brasileiros e filipinos, que seguem a religião. O mais curioso é que apesar da quantidade de santos e beatos, os japoneses parecem não adorá-los como é costume no Brasil. É provável que a ação do Vaticano em aumentar o número de santidades por lá não esteja dando os resultados esperados.
Reportagem: Ademar Abiko Jr. Colaboraram: Claudio Endo e Pablo Yubam do Japão
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