Tradição

Samurais modernos

Estratégia, tática e ataque. A luta dessas pessoas é um combate diário no trabalho, nos estudos e em casa. Eles são os guerreiros modernos, que aplicam os ensinamentos da arte da espada dos samurais no cotidiano

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Os samurais surgiram no século XII para proteger seus senhores. Hoje, sua filosofia dá base para encarar a vida cotidiana

Ao contrário do que se pode pensar, os samurais de verdade não deixaram de existir. Eles estão mais vivos e ativos do que nunca, e muito deles vivem no Brasil. De espada em punho nos tatamis e na vida, os guerreiros de hoje aperfeiçoam o corpo e, principalmente, o espírito, para as batalhas atuais.

ArquivoCésar Ortiz é professor e transmite ensinamentos do kendô nas salas de aulaEles são advogados, profissionais liberais, juízes, executivos, esportistas, designers e até artistas, que resolveram adotar a prática do kenjutsu, a arte da espada dos samurais, e seus ensinamentos como forma de obter equilíbrio, concentração e, conseqüentemente, melhorar o desempenho em suas respectivas atividades. “O homem carrega consigo o espírito guerreiro. Mas precisa aprender a utilizar esse espírito de forma eficiente, para vencer os obstáculos da vida”, explica Jorge Kishikawa, médico do esporte e fundador do Instituto Cultural Niten, que ensina a arte da espada samurai no Brasil.

Esse espírito guerreiro, próprio dos samurais japoneses, não é mais utilizado para matar pessoas ao fio das katanás, e sim evidenciar as habilidades potenciais que alguém pode ter, mas que não conseguia desenvolver porque lhe faltava o treinamento necessário. “Na luta temos de estar preparados, prontos. O mesmo acontece no trabalho, porque existe um sentimento de interconexão entre todas as relações da vida”, explica o artista gráfico austríaco Wenzel Böhm, 28 anos, praticante do kenjutsu.

ArquivoApesar de parecer um luta violenta, o kendô surpreende com a segurança e filosofiaAlém de se dedicar às lutas, os samurais do passado também realizavam atividades artísticas, como a prática da caligrafia japonesa (shodô), a cerimônia do chá (chadô) e a pintura com tinta à base de carvão (o sumiê). O objetivo dos guerreiros era aperfeiçoar tanto a pena (as artes) quanto a espada (as artes da guerra) no sentido de se chegar a um homem completo, em uma incessante busca para conhecer os seus limites e atingir a perfeição. Com os samurais de praticar a meditação zen para buscar harmonia e dominar as emoções. Os ensinamentos mais importantes estão contidos no bushido, um código de honra que é transmitido oralmente, de pai para filho, há séculos. O bushido explica como o samurai deve ser, agir e pensar. Até os dias de hoje, os conceitos do código de honra samurai estão presentes na vida da sociedade japonesa, como a dedicação ao fazer um trabalho ou arte, a lealdade dos empregados à empresa e o profundo respeito pelo imperador.

Um dos que seguiu o código de honra à risca foi Miyamoto Musahi. Ele criou um estilo de luta com duas espadas, uma em cada mão, sendo imbatível em duelos. Musashi viveu durante o xogunato de Tokugawa Ieyasu, no período Edo, uma época de paz e intensa produção artística no país.

A única guerra da qual Musashi participou foi Batalha de Sekigahara, em 1600, quando tinha 17 anos. Nos duelos com outros samurais, matou cerca de 60 homens. De todas as lutas de Musashi, apenas uma ele não venceu, o duelo contra Muso Gonnosuke, um guerreiro de incrível habilidade com o bastão. A luta terminou em empate e ambos acabaram se tornando amigos.

Musashi não acreditava somente na força de suas espadas para atingir a perfeição e, durante toda a sua vida, dedicou-se à outras artes, como a escultura, a poesia hai cai, a escrita e a pintura sumiê, sendo que a excelência que alcançou nesse trabalho fez dele um dos nomes mais importantes da arte nipônica. Para o samurai, a pintura e a espada não tinham diferença. Ambas deviam ser estudadas e treinadas para que o desenvolvimento do homem fosse completo e global. O doutor Jorge Kishikawa concorda. “Existe um ditado japonês que diz ‘Kiramei katana wa mirareru’, algo como ‘A espada que brilha é encontrada’. As pessoas são espadas, todos têm potencial e podem desenvolvê-lo”.

A espada na música
O guerreiro deve praticar e ir decidido para o combate. Se vai sem o espírito pronto, ele já perdeu a luta

ArquivoOs ensinamentos do kenjutsu deram à Helen força para não desistir da carreira de cantoraOs ensinamentos de persistência e de nunca desistir de atingir os objetivos, comuns aos samurais, foram decisivos para a volta da cantora Helen Jhey, 29 anos, aos palcos brasileiros. “No kenjutsu, aprendi que não se deve desistir, não se pode largar a espada no meio da luta”, afirma a cantora. Helen morou no Japão por quatro anos, onde atuou como cantora de uma banda que se apresenta nos parques de diversões e temáticos japoneses. No arquipélago, ela aprendeu japonês e até incluiu algumas canções nipônicas em seu repertório.

Ao voltar para o Brasil, há dois anos, acompanhada do marido japonês, Helen conheceu o kenjutsu. “Inicialmente, achei que as pessoas poderiam se machucar, mas depois fiquei fascinada. Não somente a armadura, mas os ensinamentos chamaram a minha atenção”, explica ela. As palavras de encorajamento aprendidas nos treinos serviram para que Helen tivesse a motivação necessária para não desistir na busca de trabalho como cantora em São Paulo. “Nas aulas, aprendi que disciplina, concentração e foco são fundamentais para o guerreiro vencer.

Na nossa vida é a mesma coisa”, afirma. Hoje, Helen realiza shows semanais com a banda Planet Disco, com a qual canta músicas dos anos 70. “Faço vários shows em São Paulo e no interior do Estado”, explica. Para a cantora, os samurais deixaram um legado rico e extremamente atual. “A arte da espada serve para os dias de hoje e permite conhecer melhor a si mesmo. Assim você consegue ter uma melhor estratégia, tanto para decidir um combate quanto para enfrentar o mercado”

A espada no escritório
Se um adversário perde, preciso respeitar o seu potencial. Eu tenho de me aperfeiçoar porque ele pode voltar mais forte

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‘A arte dos samurais me deu mais consciência, foco e visão a longo prazo’

O dia-a-dia do gerente de relações estratégicas América Latina-Aliança Intel & Microsoft Marcos Fugulin, 32 anos, é o script típico dos executivos: reuniões, palestras, gerenciar a equipe, checar as ações na bolsa de valores, estar de olho nas notícias. Muitas vezes, todas essas atividades acontecem ao mesmo tempo, o que requer dele qualidades como organização, estratégia e concentração. Pois é justamente isso o que Fugulin vem aperfeiçoando há um ano nas aulas de kenjutsu. “A arte dos samurais me deu mais consciência, foco e maior visão de longo prazo. Continuo trabalhando o mesmo número de horas e produzo mais e com maior qualidade”, avalia ele. Os resultados são evidentes. No início do ano, Fugulin foi premiado pela Intel por seu trabalho, durante evento realizado em San Francisco, nos Estados Unidos. Ele foi um dos mil executivos premiados pela empresa, que possui 60 mil executivos em todo o mundo.

Em seu escritório, são claras as referências samurais. A mesa de trabalho é decorada com uma kataná (espada japonesa), que não raro chama a atenção de quem se aproxima. “A espada é contra o stress. Eu relaxo ao observá-la”, explica ele. No cotidiano, porém, é a caneta do executivo quem faz as vezes de espada samurai. “Tenho de usar a caneta com grande responsabilidade pois é com ela que assino um contrato ou uma demissão”, afirma. Fugulin revela que encara cada tomada de decisão na empresa como um combate real, onde a vida e a morte estão em jogo. “No momento da luta só existem duas pessoas e só uma ganha. Você não pode errar.”

A espada na sala de aula
Na espada, se você se equivoca, o erro é evidente, é mortal. Esse contato simbólico com a morte valoriza a vida

Arquivo‘No kenjutsu, a pessoa aprende a praticar suas virtudes’A possibilidade de exteriorizar o potencial do ser humano foi o que chamou a atenção do professor de filosofia César Ortiz, 46 anos, para os ensinamentos da arte da espada. “Acredito que todos nós nascemos com um potencial mas no decorrer da vida ele vai sendo achatado pela sociedade. Hoje em dia, a mentalidade está em defeitos. Na arte da espada a pessoa aprende a descobrir a praticar as suas virtudes”, diz. Nascido no Chile, Ortiz interessou-se pelas artes marciais aos 15 anos e praticou caratê shotokan, além de tai chi chuan. Praticante de kenjutsu e iaijutsu faz dois anos, ele afirma que teve um grande enriquecimento com a cultura japonesa, aprendizado esse que compartilha em casa, com a mulher, praticante de naguinata, e a filha.

Professor da Organização Internacional Nova Acrópole, Ortiz leciona sócio-política, filosofia da história e ética. Ele conta que passou a utilizar os ensinamentos da espada nas salas de aula e o resultado tem sido excelente. “Já não me preocupo em passar o programa aos alunos, mas em ver se eles estão entendendo”.

Ortiz revela seu lado samurai também nas artes. Ele faz reproduções arqueológicas de peças que encontra em museus. Para Ortiz, a arte da espada faz com que uma pessoa se torne múltipla. “A forma de trabalho monopolizou as pessoas. Com a revolução industrial, perdeu-se o sentido de homem global. Nos dias de hoje, os empresários começaram a ver as empresas como seres vivos e, como tais, precisam de vitalidade, inteligência e homens que se preocupam

A espada no computador
Para o samurai, falhar é pior do que morrer, por isso é importante se aperfeiçoar, ser excelente em tudo

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‘O kenjutsu me ajudou a ter concentração e objetivos definidos’

A busca pelas raízes orientais levou a arquiteta nikkei Karen Miyabe Ueda, 28 anos, ao encontro com a arte da espada. Disposta a conhecer mais sobre a terra de seus avôs, Karen iniciou uma procura pela identidade japonesa que passou por cursos de japonês, aikido, aulas de confecção do papel japonês washi, de cerâmica e de shodô. Até que um amigo a convidou para assistir a uma aula de kenjutsu. “Na primeira vez que assisti ao treino, achei violento, mas tive vontade de estar uma segunda vez. Foi quando deu um “click”, diz ela. Para Karen, que trabalha com arquitetura de ambientes, interiores e design de móveis, o encontro com a arte da espada ocorreu num momento feliz de sua carreira. “Estava em uma fase produtiva. Havia várias coisas que queria fazer mas não conseguia me concentrar. O kenjutsu me ajudou a ter concentração e objetivos definidos. Com isso pude ter idéias mais claras e poder de decisão”, afirma. Após começar os treinos, Karen aumentou seu rendimento no trabalho. “Hoje sou capaz de realizar mais atividades sem me sentir esgotada”.

No escritório, a arquiteta tem superiores e, ao mesmo tempo, precisa acompanhar o desempenho dos estagiários. Nesse contexto em que aprender a trabalhar em grupo é fundamental, mais uma vez os ensinamentos dos antigos samurais foram colocados em prática. “No treinamento, todos querem ser o melhor, mas não por causa de uma competição individual e sim porque todos querem que o grupo melhore sempre. O mesmo acontece em uma empresa, o grupo tem de crescer junto.”

A medida que teve um contato mais profundo com a cultura japonesa, os valores dos antigos guerreiros também começaram a aflorar na vida pessoal da arquiteta. “Percebi que o meu respeito pela família aumentou e hoje tenho mais humildade para conversar com meus pais. Costumo dizer que eu tinha a pena da arte samurai mas não tinha a espada. Hoje tenho as duas e elas se complementam

A espada no atelie
Não há o caminho da espada sem o caminho do espírito

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O escultor Bodeli pratica kendô com seus dois filhos Julian e Matias

No caso do escultor argentino Raul Boledi, pode-se dizer que a pena do samurai chegou bem antes da espada. Ele foi professor de Design Industrial na Argentina e no Brasil dirige uma agência de design e presta consultoria empresarial.

Boledi não tinha planos de fazer artes marciais, mas depois que o filho mais novo, Julian, de 12 anos, viu uma página de kenjutsu na Internet, a vida do escultor não foi mais a mesma. Após a primeira aula, ele mergulhou no universo dos samurais. Em seu trabalho como escultor, Boledi consegue perceber a influência desse ensino. “A arte da espada me mostrou que a arte correta é aquela que vem da introspecção, a arte mais pura, que não entra em um academicismo”, afirma ele, que recentemente fez uma escultura em bronze representando o kenjutsu. Mais que desenvolver as habilidades escondidas, a arte da espada serviu para unir a família do argentino. “Julian, por exemplo, está mais organizado e disciplinado”, avalia o pai. Além de Julian, o filho mais velho, Matias, de 17 anos, também pratica o kenjutsu e o iaijutsu. “Nas aulas, Matias desenvolveu mais a concentração e a auto-motivação, o que lhe rendeu melhores resultados nas raias”, comemora Boledi.

Jorge Kishikawa
O médico do esporte e traumatologista

ArquivoKishikawa e o 10º sucessor soke no JapãoJorge Kishikawa, tem 38 anos, dos quais 32 dedicados ao aprendizado da arte dos samurais. Representante do kenjutsu no estilo de Musahi (Niten Ichi Ryu) para a América Latina, ele aprende diretamente com os mestres japoneses as técnicas e os ensinamentos da arte da espada para depois transmiti-los aos alunos do Instituto Niten, fundado por ele em 1993 (veja fotos à esq.). Com 18 unidades espalhadas pelo Brasil, onde treinam mais de 200 alunos, o Niten se baseia no método KIR (do inglês Ken Intensive Recuperation), que ensina recuperação intensiva através da espada. Kishikawa também é repre-sentante do estilo Lobo Solitário (Suiyo Ryu) para a América Latina e estudou vários estilos de kenjutsu, iaiajutsu e outras artes samurais. É 7º dan de kendô kyoshi pelo Japão, duas vezes pentacampeão brasileiro consecutivo na categoria máxima, vice-campeão mundial no Campeonato Aberto de Paris de 1985, nas categorias 5º e 6º dan. Além do kenjutsu e do kendô, praticou caratê, judô, aikido, tai chi chuan e tae kwon do. Para falar sobre a arte da espada samurai, Made in Japan encontrou Kishikawa no escritório do Instituto Niten em São Paulo, onde concedeu a seguinte entrevista:

Made in Japan - Quando o sr. começou a ter treinamento samurai?
Jorge Kishikawa - Aos 6 anos de idade. Meu avô era mestre de kyudo e meu pai praticava o judô. Desde cedo, meu pai decidiu educar a mim e meu irmão (o também kendoísta Roberto Kishikawa) no estilo samurai.

MJ - Como era essa educação?
Kishikawa - Antes de ir para a escola, eu tinha de fazer exercícios físicos todos os dias, independentemente de estar frio ou chovendo. Meu pai aplicava a pena e a espada
juntas. Ele me fazia ler alguns trechos em japonês antes de ir ao colégio.

MJ - Os samurais não se dedicavam somente às artes marciais. Que outras artes o sr. aprendeu?
Kishikawa - Estudei a cerimônia do chá (chadô), a caligrafia japonesa (shodô) e a flauta (shakuhachi).

ArquivoJorge Kishikawa é o representante do estilo de Musashi para América LatinaMJ - Que benefícios o treinamento samurai trouxe para o seu trabalho como médico?
Kishikawa - Espiritualmente, trouxe se-renidade em meu trabalho como mé-dico, especialmente em situações como os plantões. Com o treinamento físico, fico bem preparado para vencer a carga de trabalho, o stress emocional e a fila de pacientes no pronto-socorro. Para tratar com pessoas, você tem de estar preparado. A arte da espada me orientou para que eu pudesse orientar os meus subordinados.

MJ - O sr. pode dar exemplos do uso da espada no cotidiano?
Kishikawa - Vivencio isso todos os dias na administração do Instituto Niten. O samurai deve encarar cada dia como se fosse o último, por isso não guardamos nada para amanhã. As pessoas ficam surpreendidas com a minha rapidez em tomar decisões. Na hora de despedir um funcionário, utilizo a tomada do maai (tomada de distância na luta), que é ver a hora exata de fazer isso e mostrar de forma clara qual o erro dele.

MJ - Então, a vida é como se fosse uma batalha para o samurai?
Kishikawa - Sim. E é preciso estratégia. Veja o caso de relacionamentos. Temos de “cortar” pessoas. Não podemos guardar a espada sempre senão ela enferruja.

MJ - O sr. vai ao Japão duas vezes por ano para visitar os mestres japoneses. O que eles o ensinam?
Kishikawa - Vou até o Japão para trazer os segredos da espada contados oralmente pelos mestres. Eles fazem isso por gerações, até hoje. As conversas depois das aulas, as rodas de chá e de saquê ensinam a filosofia e as técnicas dos samurais.

MJ - O sr. deseja que seus futuros filhos também se tornem samurais?
Kishikawa - Ainda não tenho filhos mas pretendo tê-los. Não vou obrigá-los a serem samurais, mas sim orientar.

Reportagem: Andréia Ferreira

Veja também:

Como viviam e lutavam os samurais + entrevista com descendente vivo do xogum
A história dos guerreiros que fizeram do Japão uma nação
A vida pela espada
Papel de parede de armaduras de samurais
Livro Enciclopédia dos Samurais
Livro Estratégia Samurai

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