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Tradição

A vida pela espada

Com um estilo de vida que combinava conduta irrepreensível, treinamento árduo e aperfeiçoamento constante, os samurais foram os unificadores do Japão e marcaram para sempre o modo de ver o mundo da sociedade nipônica


por Redação Made in Japan
24.04.2007
Welison Calandria
Roupa tradicional: Os samurais possuíam quimonos que tinham gravados os brasões da família à qual pertenciam, os Montsuki hakama

Desde o ano passado, em São Paulo, 24 de abril é o “Dia do Samurai”. A data, que faz parte do calendário oficial da cidade, é uma homenagem aos guerreiros do Japão. A escolha do dia, ao contrário, tem a ver com o Brasil: é o aniversário do mestre Jorge Kishikawa, introdutor do Kobudo no país, a arte marcial dos samurais.

Em um Japão de guerras, dividido em feudos e alvo constante de disputas de terras entre os séculos X e XI, surgiu uma espécie de guerreiro que mudou para sempre a história do país. Mais que isso, ajudou a unificar o arquipélago e fazer dele uma nação. Esses guerreiros eram os samurais.

Exímios praticantes de artes marciais e dotados de controle sobre seu corpo e mente, os samurais tiveram como função primordial defender os senhores feudais a quem serviam. Mais tarde, tornaram-se tão poderosos que ultrapassaram os limites dos feudos e acumularam influência política e militar.

Made in Japan conta a história dos samurais e do rígido código de conduta que seguiam (bushido), destacando o mais famoso deles, Miyamoto Musashi, e os três maiores xoguns do Japão, os samurais Oda Nobunaga, Toyotomi Hideyoshi e Tokugawa Ieyasu.

Espírito Samurai
Welison CalandriaSamurai no logotipo: O logo da Mitsubishi surgiu na era Meiji, como junção do brasão da família de Yotaro Iwasaki (o sankaibishi - três losangos), samurai de Tosa, e do brasão da família Yamauchi (o mitsukashiwa - três folhas de carvalho), senhor feudal de TosaO termo samurai significa literalmente “aquele que serve” e designa o compromisso vitalício desses guerreiros com seus senhores nos tempos do Japão feudal. Inseparáveis de suas katanas (espadas longas), alguns samurais ainda utilizavam uma wakizashi (espada curta). O duplo conjunto de espadas, chamado de dai-shô, era um privilégio exclusivo dessa classe social. Se sua honra era ferida ou se a missão falhava por sua culpa, o samurai cometia o harakiri ou seppuku, o suicídio ritual com a própria espada, cortando o ventre. A vida era entregue, pois sem honra não havia porque um samurai viver.

Na sociedade japonesa, esses guerreiros dispunham de imenso poder. Tinham o direito de executar qualquer pessoa hierarquicamente inferior - fazendeiros, artesãos e comerciantes - que incomodasse os samurais ou que não se mostrasse respeitosa com seus superiores. Por isso, eram figuras bastante temidas. Apesar da violência associada a esses guerreiros, ser um samurai era muito mais que ter habilidade para decepar cabeças. Era preciso também ter um espírito puro para servir o seu senhor e lutar.

O hakama, calças largas que se estendem para os lados, era utilizado apenas por eles. É que, além de servir para esconder os pés do lutador e impedir que o inimigo conhecesse seus movimentos, cada prega do hakama simboliza uma das sete virtudes que um samurai deve ter: a honestidade, a lealdade, a coragem, a perseverança, a benevolência, a compaixão e a sinceridade. Por isso só um samurai de verdade poderia utilizá-lo.

O verdadeiro samurai era aquele pertencente à classe social dos samurais. Muitos dos guerreiros japoneses já nasceram em uma família de militares. Isso significa que, desde crianças, eram introduzidos ao código de conduta samurai (o bushido) e aos treinamentos em artes marciais e com a espada.

Welison CalandriaEspada em punho: Na época das grandes guerras não havia nenhuma regra sobre segurar a espada com a mão direita ou a mão esquerda. Um exemplo famoso é de Musashi Miyamoto, que lutava com duas espadas. Alguns estudiosos afirmam que ele era canhotoEmbora os primeiros samurais tenham surgido no século X, sua importância na sociedade japonesa foi marcante a partir do início do século XI, quando o clã que comandava o Japão na época, o Fujiwara, começou a perder poder. Por conta disso, a segurança das terras ficou comprometida, fazendo com que vários proprietários contratassem samurais para se defender. Mais tarde surgiram os clãs militares e os samurais ganharam notoriedade nacional.

Na era Heian, no século XII, duas famílias, Minamoto e Taira, tornaram-se poderosas no império nipônico. Os Taira assumiram os cargos na administração imperial e os Minamoto lutavam em guerras para dominar o território do norte da ilha de Honshu. Na era Muromachi, o poder dos guerreiros japoneses cresceu. O período foi marcado pela guerra civil, que ficou conhecida como Sengoku Jidai. Um dos motivos da guerra, que teve início em 1463 e terminou em 1573, foi o fato de o então xogum Ashikaga Takaushi não ter pago o que havia prometido para os samurais que lutaram por ele. Nessa época, a demanda por samurais aumentou muito. A organização social rígida na qual os guerreiros tinham de escolher entre ter uma vida rural, nas fazendas, ou servir nos castelos começou com o xogum Toyotomi Hideyoshi, em uma tentativa de unificar o país. Foi instaurada uma lei que permitia somente a samurais utilizar espadas. No período Edo, a classe dos samurais era a mais alta. Eles eram forçados a morar em cidades ao redor de castelos, sob o comando dos xoguns. A fase áurea dos guerreiros se deu no xogunato dos Tokugawa, quando os samurais tornaramse notáveis pela eficiência na administração nacional. Com a queda do castelo de Osaka, em 1615, o último grande rival dos Tokugawa foi morto, e uma relativa paz perdurou no Japão por 250 anos, fazendo com que os samurais entrassem em desuso. Em 1868, com a restauração Meiji, o sistema feudal japonês foi derrubado e a classe de samurais foi abolida. O uso das espadas foi proibido, mas o espírito samurai sobreviveu. Até hoje, os valores de lealdade, aperfeiçoamento, dedicação e outras virtudes dos samurais estão presentes na sociedade nipônica e são parte da identidade nacional.

As eras dos samurais

Welison CalandriaRito de passagem: Alguns chegavam a raspar parte dos cabelos. A área raspada, chamada de sakayaki (lua da testa), servia como um vão de ventilação para evitar o calor na cabeça e prevenir mal-estarHEIAN (794 - 1185)
A nobreza domina o Japão com seus vastos latifúndios. Os camponeses vendem suas terras aos nobres para poder fugir da vida miserável. O governo perde o poder e a família Fujiwara amplia sua influência política.

KAMAKURA (1192 - 1333)
Surge o xogunato em Kamakura e a classe samurai se estabelece.

MUROMACHI (1333 - 1573)
O xogunato de Ashikaga Takauji se fixa em Kyoto. Guerras civis conturbam o período, permitindo a ascenção de senhores feudais mais fortes, mesmo os de classe inferior.

AZUCHI MOMOYAMA (1573 - 1603)
Nobunaga derruba o xogunato, mas não conclui a unificação do Japão, pois morre em 1582. Quem o sucede é Toyotomi Hideyoshi. São construídos castelos. Surgem a cerimônia do chá e o nô.

EDO (1603 - 1868)
Após uma época de guerras, esse período é marcado por dois séculos de paz. Houve o fechamento de portos para nações estrangeiras e a proibição do cristianismo. O Japão se fecha e a família Tokugawa adota medidas rígidas e conservadoras para manter o xogunato, agora em Edo, atual Tokyo. São estabelecidas quatro classes distintas: samurais, agricultores, artesãos e comerciantes, sendo a primeira a mais poderosa. A queda do xogunato se dá após dificuldades internas e a abertura dos portos. É a Restauração Meiji.

Bushido
O caminho do guerreiro

Welison CalandriaHerança familiar: A família da princesa Masako, esposa do príncipe Naruhito, era de samurais. Owada Shinroku era samurai do senhorio de MurakamiComo se tornar um grande samurai? Espírito guerreiro e força de vontade são essenciais, mas somente isso não formava um samurai no Japão. É preciso saber o que fazer na hora certa, pois não há muito tempo para pensar. O inimigo não espera.

Se a família pertencia à classe samurai, o guerreiro já nascia um deles. Desde a infância sabia que deveria seguir o bushido, o código de conduta dos samurais. Era instruído e treinado para ser um samurai. O bushido era ensinado oralmente, de geração em geração, de mestre para discípulo. Uma das tentativas de colocar em palavras o bushido foi o livro Hagakure, de 1716, que constitui-se de 11 volumes. Nele, Tashiro Tsuramoto recolheu os ensinamentos de Yamamoto Tsunetomo, samurai que deixou a luta para virar monge.

Segundo o bushido, para o samurai, viver é estar preparado para a morte, é saber morrer. Não que o código defenda o suicídio ou a morte por motivos tolos, mas que se o samurai tiver que morrer, que não resista, que o faça com a devida honra. Ele não podia dar sinais de sofrimento até cair morto e devia agüentar a dor sem pestanejar. A virtude suprema para o Bushido era a lealdade. O samurai era educado para servir. Servir com lealdade, prontamente, incondicionalmente. A lealdade é levada a um nível supremo pelos samurais, que dariam a sua vida pelo seu senhor.

Esse ideal pregado pelo bushido não caiu por terra junto com o feudalismo japonês. Seu espiríto faz parte da sociedade nipônica. O orgulho, a palavra e as atitudes são muito importantes para os japoneses. Nas empresas, virtudes como a lealdade são apreciadas e valorizadas até os dias de hoje.

Reportagem: Luiz Fukushiro. Colaborou: Tsukasa Kurita;

Um descendente de xogum
Em Tokyo, Made in Japan entrevistou com exclusividade Tsunenari Tokugawa, descendente direto do xogum Yoshinobu Tokugawa

Welison Calandria“Venho de uma família de xoguns, mas não levo uma vida diferente de todos os japoneses”O xogum sempre foi uma figura que inspirava mistério, altivez e respeito. Influenciada por essa imagem, aguardei com expectativa o início da entrevista com aquele que é hoje o representante dos Tokugawa no Japão. Em uma das salas da companhia marítima Nippon Yusen, a expectativa cedeu lugar à curiosidade tão logo entrou Tsunenari Tokugawa, um senhor na casa dos 60 anos, expansivo e bem-humorado. Bisneto de Ie Sato, o descendente está afastado dos encargos administrativos da Nippon Yusen e assumiu funções de um conselheiro. Ele também trabalha para o Tokugawa Memorial Foundation, ocupando o cargo da presidência da instituição que reúne história e objetos da família. Veja, a seguir, sua entrevista exclusiva à Made in Japan:

Made in Japan O senhor conhece o Brasil?
Tsunenari Tokugawa Sim! A Nippon Yusen tem um escritório de representação em São Paulo e faz cinco anos desde a minha última viagem ao Brasil. É um país maravilhoso, mas antes não havia tanta criminalidade. O Brasil, ao lado de outros países com problemas semelhantes, é um dos poucos onde os carros são blindados. Além disso, a empresa também fez o transporte de japoneses que foram viver no Brasil.

MJ Em geral, as pessoas pensam que um descendente de xogum tem uma vida bem diferente do japonês comum. Isso é verdade?
Tokugawa Não, certamente que não. Eu moro em Shibuya [Tokyo], tenho filhos e não levo uma vida diferente dos outros japoneses.

MJ O sr. recebe algum tratamento especial por ser um descendente dos Tokugawa?
Tokugawa Depois da Segunda Guerra, com a taxação de impostos, todos ficaram iguais. O nome Tokugawa é, de certa forma, especial porque vem de um xogum, mas não há nenhum tratamento especial. Há ainda um dado a mais, que é o caráter típico do japonês de ver todos como iguais. Estou nessa empresa há anos e, quando entrei aqui, carimbava papéis.

MJ Acontece o mesmo com o governo japonês?
Tokugawa Eles dão importância a museus, a objetos de valor histórico, mas não à pessoa em si.

MJ Há alguma tradição na sua família?
Tokugawa Todo ano vou a um templo, onde monges comentam comigo histórias antigas. Outros grupos de descendentes de outras famílias também costumam ir e às vezes fazemos uma festa. É interessante poder resgatar a história do passado.

MJ O sr. dá palestras para crianças e jovens. Como é a reação deles?
Tokugawa Quero passar alguns valores para eles. Quando falo com crianças, antes de mais nada, saliento a necessidade da honestidade, que é o mais importante. Depois, para evitar a mentira, trabalhar bastante e com bastante esforço. Os jovens vêem o Japão como um país ruim, mas quando converso com eles, vêem que é um lugar maravilhoso e que o Japão era muito melhor que o Ocidente em épocas antigas.

MJ Qual a reação das pessoas ao saber que o sr. é descendente de xogum?
Tokugawa Elas ficam surpresas que ainda exista um vivo nos dias de hoje. Ou me perguntam se sou ninja!

Entrevista: Cláudia Emi

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Bushido, o código de honra
Papel de parede de armaduras de samurais
Livro Enciclopédia dos Samurais
Livro Estratégia Samurai

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