Tradição

Os ensinamentos dos ninjas para a vida moderna

A arte ensina que, para derrotar o inimigo, deve-se primeiro superar o próprio ego. Para tanto é necessário fazer constante exercício de auto-conhecimento

A idéia que se tem dos ninjas é a de guerreiros que matam impiedosamente e conseguem desaparecer. Essa imagem, persistente até mesmo no imaginário japonês, tenta ser desfeita pelos propagadores do ninjutsu contemporâneo. Eles propõem uma filosofia de vida que prega liberdade, independência e autoconhecimento. Para ser um ninja moderno, nada de mágica ou poderes sobrenaturais. Basta se conhecer profundamente, ter perspicácia para agir da melhor maneira e paciência para saber a hora certa de cada ato.

Instituto YuDai/Blumenau-SC

Zoughari e Vergini demonstram:Instituto YuDai/Blumenau-SCJutte, espécie de garfo com dois dentes, contra katana (espada)
Instituto YuDai/Blumenau-SCShime waza, técnica de estrangulamento
Instituto YuDai/Blumenau-SCShuko (espécie de luva em forma de garra) contra katana
Instituto YuDai/Blumenau-SCNovamente shuko contra katana
Kenshin Uesugi (1530-1578) foi uma das maiores figuras do Japão feudal e conquistou fama devido às habilidades de guerra e à perícia na estratégia militar. Mas, se no campo de batalha era imbatível, pouco poderia ter feito contra aqueles que agiam nas sombras: os ninjas. Um ataque articulado em um local, no mínimo, improvável — uma das características desses guerreiros secretos — foi o que finalmente derrotou o célebre daimyô (senhor feudal).

Depois de ter dissolvido uma invasão de ninjas em seu castelo, a guarda de Uesugi estava mais relaxada. Ukifune Jinnai, um ninja habilidoso, traçou um plano para tirar vantagem da ocasião e finalmente destruí-lo.

Aproveitando-se de sua baixa estatura, resolveu se esconder onde dificilmente seria encontrado — na latrina do senhor feudal. Buracos feitos no chão, cobertos por madeira, as latrinas foram uma espécie de predecessoras dos vasos sanitários. Essa informação, por si, já basta para dar uma idéia do caráter “inusitado” do ataque.

O ninja esperou o momento oportuno para agir, posicionado pacientemente debaixo da tampa de madeira, à qual se agarrava numa posição mais que incômoda. Depois de muito tempo, quando Uesugi sentou-se sobre a latrina, Jinnai empalou-o com sua espada. Nada mais poderia ser feito pelos samurais: o seu senhor agonizava e morria.

Para não ser pego, Jinnai avançou na cova e mergulhou entre as fezes. Mais uma vez, lançou mão da paciência para sobreviver. Ficou sob os detritos por um longo tempo, utilizando a bainha de sua espada como cano para buscar ar na superfície.

Truque após truque, os ninjas conseguiram derrotar um dos maiores estrategistas de guerra que o Japão conheceu, segundo uma das versões da morte de Uesugi. Esse é um dos “causos” mais famosos da cultura ninja. Como se vê no relato, não há passes de mágica nem fenômenos sobrenaturais. Paciência para esperar o momento certo do ataque, perspicácia para pensar na melhor maneira de agir, e autoconhecimento, que lhe permitiu tirar vantagem de sua baixa estatura, foram as ferramentas utilizadas para alcançar a vitória. E é exatamente isso o que o ninjutsu propõe.

Tempos modernos
Mas se já não há mais samurais nem lutas feudais, para que o ninjutsu? Kacem Zoughari, maior especialista em ninjutsu no Ocidente, dá a resposta:

Kamae
As posições (kamae) e os katas (movimentos) não devem ser rígidos nem contrariar
a natureza do corpo, como demonstra Zoughari.Instituto YuDai/Blumenau-SCKamaes para uso de bo (bastão) e katana
Instituto YuDai/Blumenau-SCKamae de katana
Instituto YuDai/Blumenau-SCKamae de shuko
“Ninguém vai sair matando ou escalando prédios por aí. Hoje em dia, o ninjutsu deve ser encarado como uma ferramenta para o combate do dia-a-dia, no trabalho, no lar, na escola”. Em seu livro, A arte do ninja – entre ilusão e realidade, da Editora JBC, ele descreve que a essência do ninjutsu, embora tenha sido desenvolvido para o campo de batalha, é a introspecção.

Sozinhos, lançados à própria sorte na guerra, os ninjas puderam desenvolver uma corrente filosófica que propõe a auto-reflexão como meio para conseguir forças. E o que conseguiam fazer com isso era tão extraordinário — embora natural, perfeitamente realizável e, muitas vezes, até mesmo simples – que aqueles que presenciavam as ações dos ninjas recorriam aos poderes sobrenaturais para explicá-los.

Para vencer o inimigo, os ninjas acreditavam que o primeiro passo era superar a si mesmo. O ego é o alvo principal. Grande parte do perigo aos quais alguém pode estar exposto tem origem na falta de controle da vaidade. A derrota do ego, sugere o ninjutsu, deve ser feita por um constante exercício de autoconhecimento.

Explica-se: uma pessoa que se examina todo o tempo, buscando em si os defeitos mais profundos e tentando corrigi-los, jamais será satisfeita consigo mesma e correrá menos riscos de ser trapaceada pelo próprio ego. Como se trata de um exercício que só pode ser feito individualmente, limitações como vergonha ou falta de cooperação não podem ser usadas como desculpas para não se exercitar para a “batalha contra o ego”.

O discurso, que pode soar como uma provocação para os manuais que pregam a auto-estima, se completa: é necessário também reconhecer os pontos positivos da personalidade e do corpo para saber usá-los a seu favor. Mas não é só. É necessário prestar atenção em si mesmo sem deixar de olhar para fora. Na verdade, essas não são tarefas contraditórias para a prática do ninjutsu. Ambas fazem parte do conceito de “despertar”, isto é, ter consciência de si mesmo e estar sempre atento à realidade exterior, de tal forma a poder adaptar-se a qualquer situação.

Autoconhecimento e atenção aguçada compõem a fórmula ninja para não ter surpresas: nem o inimigo nem você mesmo agirão de maneira inesperada. Por isso, dizia-se que o ninja era também capaz de “prever”. De novo, nada de paranormalidade. Eram apenas faculdades mentais bem trabalhadas.

Se o perigo está na falta de autocontrole e de autovigilância, uma pessoa que “toma conta de si mesma” é menos suscetível a ele. Em uma situação delicada, essa pessoa, de tão bem que se conhece, é capaz de “prever” como reagiria se não tivesse tamanha autoconsciência. Logo, passa a agir de maneira diferente. Em outras palavras, deixa de errar.

Reagir a um assalto?

Instituto YuDai/Blumenau-SCTambém segundo o ninjutsu, a melhor saída é não reagir. Mas “de que serve treinar golpes e conhecer sua força se você não deve utilizá-la em situações como essas?”, cabe perguntar. A explicação é simples: aquele que realmente se conhece e é capaz de domar o ego sabe também evitar conflitos. Por isso, esquiva-se do ataque sempre que for possível. A idéia pode parecer contraditória com as noções de honra e de orgulho que permeiam a cultura japonesa. Mas, no ninjutsu, fugir do embate é menos sinal de fraqueza do que de sabedoria.

Como a luta do ninjutsu é pela sobrevivência, um combate só é levado às últimas conseqüências quando as outras alternativas se mostram esgotadas. O raciocínio é o mesmo quando se trata de discussões e agressões não-físicas.

Harmonia
Made in JapanO kanji da ilustração pode ser lido como “nin”. Ele representa várias idéias: “esconder-se”, “segredo”, “suportar” e “perseverar” – conceitos intimamente ligados à arte dos ninjasO conceito de harmonia entre corpo e espírito no ninjutsu vai além do lema “corpo são, mente sã”. Não basta ter um corpo saudável para que a mente também o seja. Para os ninjas, o corpo é visto como a “ferramenta” do espírito. É pelas experiências do corpo, como a dor, que o espírito é lapidado. A educação do espírito passa pela matéria. Mais uma vez, pesa forte a idéia de introspecção. Como corpo e espírito devem formar unidade, uma análise profunda do espírito deve ser feita pelas experiências do corpo e de suas limitações. Se o que se deseja é flexibilidade de espírito, deve-se ter um corpo capaz de se adaptar a situações adversas.

Mas, diferente do que o senso comum tende a imaginar, os treinos de ninjutsu não seguem disciplina militar exaustiva, torturante. Pelo contrário. Movimentos repetitivos, pré-estabelecidos, são considerados agressivos ao corpo e pouco próximos da realidade do campo de batalha, para os quais os ninjas eram treinados.

“O ninjutsu é uma arte livre. Alunos iniciantes não devem treinar em duplas, fingindo movimentos. Isso é muito distante da realidade. Treinamos flexibilidade e capacidade de adaptação do corpo a situações diferentes, com movimentos naturais”, diz o shidoshi (orientador) Fabrício Vegini. Ou seja, no ninjutsu calejar ossos é considerado antiquado. Os movimentos devem permitir concentração para que espírito e corpo se comuniquem, e um obedeça ao outro. A busca é pela perfeição – antes do espírito que do movimento.

A fé é outra lição dos antigos guerreiros das sombras. Para agarrar-se à vida, é necessário acreditar nela e no que se faz. “Ter persistência é metade da fé, e a outra metade é a paciência”, escreve Kacem em seu livro. Não basta acreditar, é necessário persistir, às vezes por um longo tempo, para alcançar um objetivo. Tudo isso, sem perder de vista quem você é e quais são suas limitações. As verdadeiras lições dos ninjas, aliás, ensinam que para chegar longe, mais do que aprender a voar, é preciso ter os pés no chão.

“Não é necessário se tornar japonês!”

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Kacem na palestra em Blumenau: auditório lotado

“Para entender o ninjutsu, não é necessário se tornar japonês”. O conselho é de Kacem Zoughari, um dos maiores nomes do ninjutsu, ao se dirigir aos participantes do 1º Congresso Internacional Bunjinkan Budo Taijustsu, realizado na cidade de Blumenau, em Santa Catarina.

Instituto YuDai/Blumenau-SCA sete chaves - Por se tratar de uma arte desenvolvida secretamente, o material de referência sobre o ninjutsu é raro e pouco acessível. Escrito em japonês clássico, o texto é permeado de metáforas: quase uma linguagem cifradaA um público de praticantes e interessados em artes marciais, o shihan (mestre) argumentou que o ninjutsu exige sinceridade – tanto com os outros, quanto consigo mesmo. Isso implica, inevitavelmente, em conhecer-se profundamente e ser autêntico. Ou seja, abrir mão da própria cultura e dos costumes não tem qualquer ligação com o bom desempenho nas artes marciais.

“As palestras foram muito produtivas, já que muita gente no Brasil ainda tem informações deturpadas sobre as artes marciais. As pessoas não costumam questionar o que ouvem, e por isso quis trazer o Kacem para cá. É importante desconfiar quando o instrutor não consegue tirar suas dúvidas”, afirma Fabrício Vegini, diretor do Instituto YuDai de Culturas Orientais, responsável pela organização do evento.

Entre palestras e oficinas práticas, Kacem também falou da importância da paciência na prática do ninjutsu. “Treinamos o corpo para agir no momento mais apropriado, o que nada mais é do que ter paciência”, diz Fabrício, fazendo coro às palavras do ninja francês. “Hoje, no meu trabalho, se tenho muitas tarefas, não me desespero. Sei que posso fazê-las, pois me conheço. Organizo meu tempo e faço uma coisa por vez, me dedicando ao máximo a cada uma delas”. É a sábia filosofia ninja…

Livro desmistifica o ninjutsu
Editora JBCO subtítulo já adianta as intenções do livro: A arte do ninja — entre ilusão e realidade, da Editora JBC, pode parecer cair como um balde de água fria para aqueles que desejam aprender truques e piruetas “dignas de um ninja”, como se diz.

Mas é exatamente o que Kacem Zoughari, o autor, pretende. Fluente no idioma japonês, o francês especialista em artes marciais consultou pergaminhos e livros de técnicas de mais de 400 anos para desvendar os mistérios das sombras. Depois de explicar o contexto histórico e narrar os episódios da história do Japão em que a participação dos ninjas foi decisiva, Zoughari analisa a essência do ninjutsu. Para demonstrar como era a vida de um ninja “de verdade”, traz também a autobiografia de Takamatsu Toshitsugu, o último ninja profissional que existiu no Japão.

Reportagem: Bruno Aragaki

* Matéria publicada na edição 104 da revista Made in Japan
* Leia mais na edição 115 da revista Made in Japan

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