Kendô: luta pela tradição
O kendô atingiu seu apogeu em um período sangrento de guerras civis entre os senhores feudais na luta pela posse de terras. Nessa época, os samurais aperfeiçoaram a técnica acrescentando treinamento mental, dando origem à arte marcial
11.04.2007

Tradição e ritual. Esses são dois termos de peso no kendô, a mais conhecida luta de espada praticada no Japão. Ao contrário do judô, que se lançou ao mundo, o kendô não foi concebido para a internacionalização. Sequer se admitia a hipótese de virar esporte. Para seus praticantes, a arte marcial é exclusivamente uma forma de aprimoramento mental e espiritual, importante para a formação do caráter do ser humano. A ala tradicional dos kendocas acredita que os princípios da arte podem se perder em uma competição que tem como objetivo exclusivo a vitória.
Em 1988, em um encontro promovido pela Federação Internacional de Kendô, seus membros rejeitaram a introdução de categorias divididas por peso - o que seria um passo para torná-lo, no futuro, um esporte olímpico, a exemplo do que aconteceu com o judô. Com medidas como essa, o kendô adota a política do desenvolvimento sustentável: expandir pelo mundo e aumentar o número de praticantes, desde que seja preservada a tradição. Não é à toa que o Japão concentra quase a totalidade de lutadores do planeta: são 7,5 milhões de kendocas japoneses federados. Na Coréia, onde está o segundo maior contingente, o número é de 350 mil praticantes. Outros 20 mil lutadores estão espalhados pelo mundo, com representantes principalmente na França, EUA, Canadá, Alemanha e Brasil.

A arte da espada surgiu para aprimoramento da técnica de luta com o inimigo através do manejo do nihonto (espada japonesa) como arma. Entre as eras Kamakura e Muromachi (do século 12 ao 17), o kendô atingiu seu apogeu - um período sangrento que viu a eclosão de guerras civis entre os senhores feudais na luta pela posse de terras. Os samurais, uma das classes mais importantes da sociedade japonesa da época, incorporaram à luta de defesa pessoal formas de aprimoramento mental, dando origem à arte marcial. Pode-se dizer que o atual kendô é fruto desse sistema de treinamento, em que os guerreiros faziam uso do shinai (espada de bambu) e vestiam budogu (protetores) desenvolvidos no final da era Edo, no século 19.

No Brasil, a prática da modalidade é restrita basicamente a cerca de dois mil descendentes nipônicos concentrados principalmente no Estado de São Paulo. Apesar do pequeno número de praticantes, o país tem obtido resultados expressivos. No Mundial do ano passado, disputado em Kyoto, os brasileiros ficaram em terceiro lugar por equipe, atrás das duas principais potências, Japão e Coréia do Sul. Os maiores expoentes nacionais vêm da família Kishikawa. Por três gerações, os Kishikawa preservam a prática das artes marciais. O avô Tsuneo era mestre em kyudo (arco e flecha). O filho Yoshiaki, 62 anos, é um ex-judoca que se transformou em lutador de kendô, assim como sua esposa, Mitiko, 59 anos. Hoje, os filhos de Yoshiaki dão seqüência à herança familiar: Jorge, 35 anos, e Roberto, 33 anos, colecionam diversos títulos brasileiros e são destaque nos campeonatos internacionais. “Mais do que prática esportiva, o kendô preserva tradições milenares”, traduz Jorge.
Reportagem: Sergio Yamasaki, do Japão e Andréia Ferreira, do Brasil
* Matéria publicada na edição 13 da revista Made in Japan
* Leia mais na edição 115 da revista Made in Japan.
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