Jiu-jítsu: laços internacionais
Arte marcial nasceu na China, foi para o Japão e quase caiu no esquecimento se não fosse a recuperação das técnicas feita por brasileiros
11.04.2007




Uma das mais antigas formas de defesa pessoal inventada pelo homem, o jiu-jítsu foi criado na Índia por monges budistas há cerca de 2 500 anos, desenvolveu-se no Japão e conquistou o mundo quando a família Gracie, no Brasil, resolveu torná-lo esporte de competição. No início, os golpes combinados de braços e pernas se encaixaram como uma luva aos preceitos de Buda, que condenava o uso de armas em geral, facilitando a vida dos monges, que eram constantemente cercados por ataques de não-simpatizantes com a filosofia pregada nos templos.
Somente após cruzar as fronteiras da China, o jiu-jítsu chegou ao Japão, onde, no século 16, tornou-se a principal tática de guerra dos samurais, defensores dos senhores feudais. Para eles, o domínio da luta era fundamental para assegurar a sobrevivência.
Geralmente, os guerreiros entravam num embate munidos de espadas e bastões. No meio da luta, esgotavam-se as armas e era preciso partir para o corpo-a-corpo. Vencia (e sobrevivia) quem tivesse o conhecimento das técnicas mais eficazes. Além disso, o jiu-jítsu se enquadrava perfeitamente no esquema de luta travada naqueles tempos, já que o desfecho ocorria quase sempre com os lutadores no chão. Com o tempo, os samurais foram aperfeiçoando as técnicas e repassando cada uma delas às gerações seguintes. Ao todo, eles acabaram sendo responsáveis pelo desenvolvimento de mais de 700 variações de jiu-jítsu.
Na Era Meiji, com a decadência dos samurais e a valorização dos costumes ocidentais promovida pelo Imperador Meiji, começaram a ser varridos do Japão todos os traços de sua cultura tradicional. Nessa leva estavam incluídos os princípios básicos do jiu-jítsu. Hoje, ele é considerado um kobudo (arte marcial muito antiga). Esteve há um passo de cair em desuso antes de os irmãos Carlos e Hélio Gracie, brasileiros, darem nova vida à luta por meio do estilo brazilian jiu-jítsu. Na versão atualizada, os golpes fizeram fama mundial e levaram a família Gracie à condição de ídolos.
Os defensores mais ortodoxos dos esporte, no entanto, insistem em criticar essa moderninade toda, mesmo cientes de que a luta desenvolvida pelos Gracie tornou-se referência obrigatória no Japão. Em 1998, foi inaugurada em Tokyo a academia Gracie Japan, a primeira do país que leva nome da “dinastia” Gracie. O proprietário é o japonês Takamasa Watanabe, que passou a infância e a adolescência no Rio de Janeiro absorvendo o quanto podia os ensinamentos da versão final de século do esporte, além de ser o criador da Federação Japonesa de Brazilian Jiu-Jítsu. “O brazilian jiu-jítsu conserva as mesmas técnicas do tradicional”, explica Watanabe. “A diferença é que hoje a luta é bem mais ágil e dinâmica, já que ninguém mais usa armaduras”. Ganhar o Japão é apenas o primeiro passo para o desenvolvimento do espote. A grande expectativa é uma possível estréia nas Olimpíadas. Para, então, sacramentar seu destino como luta internacional.
Reportagem: Sergio Yamasaki, do Japão e Andréia Ferreira, do Brasil
* Matéria publicada na edição 13 da revista Made in Japan
* Leia mais na edição 115 da revista Made in Japan
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