Tradição

Caratê: no caminho olímpico

Com cerca de 30 milhões de praticantes em mais de 160 países, é uma das artes marciais mais divulgadas

Akira Ueno

Com cerca de 30 milhões de praticantes em mais de 160 países, falta apenas uma coisa para o caratê confirmar sua condição de esporte de tradição mundial: obter o status olímpico. Curiosamente, o maior obstáculo é o fato de ele ser um esporte muito divulgado. Sua expansão pelo mundo gerou a criação de dezenas de entidades representando a arte marcial. E uma das exigências do Comitê Olímpico Internacional para o credenciamento de um novo esporte é justamente a representação unificada. Para resolver esse impasse, as diversas escolas já estão correndo atrás de um acordo em favor da hegemonia exigida pelo Comitê.

Akira Ueno
Akira Ueno
Akira Ueno
O caratê nasceu em Okinawa, arquipélago ao sul do Japão. Ao contrário da maioria das artes marciais, descendentes das técnicas do jiu-jítsu, ele é baseado em golpes realizados com os lutadores em pé. Apesar da popularidade, ainda não faz parte dos Jogos Olímpicos porque sua expansão pelo mundo gerou dezenas de entidades difusoras de seus preceitos. E o Comitê Olímpico exige, para o credenciamento de um novo esporte, que ele tenha uma representação unificada mundialmente.
Exceção dentro das artes marciais japonesas, o caratê é a única luta cuja origem não tem ligação alguma com o lendário jiu-jítsu . O berço do esporte é Okinawa, arquipélago ao sul do Japão. Situado entre a China e o território japonês, Okinawa se transformou historicamente em um centro de trocas culturais e religiosas entre os dois países. No século 16, os lutadores da ilha assimilaram as técnicas do kung fu chinês e as adaptaram para criar um estilo próprio de combate, originando mais tarde as primeiras formas de caratê - nome que significa “mãos vazias”.

Quando as tropas japonesas invadiram a ilha e promoveram uma ocupação militar, em 1609, os habitantes de Okinawa foram impedidos de portar armas. A proibição imposta pelo império japonês foi decisiva para a evolução do caratê como luta de autodefesa. A arte se expandiu rapidamente, ganhou novos estilos, mas permaneceu confinada nos limites do arquipélago até o início do século 20.

Somente em 1922 os japoneses tomaram conhecimento do caratê. Naquele ano, o carateca Gishin Funakoshi viajou ao Japão a convite do mestre do judô Jigoro Kano para uma demonstração de sua luta - sem se dar conta de estar dando os primeiros passos na divulgação da arte criada em sua ilha. A partir dessa época, os japoneses não só assimilaram os preceitos da luta de Okinawa como adotaram o caratê como esporte nativo. “Nós temos a missão de zelar pela história e a tradição do caratê”, costuma proclamar Toru Arakawa, secretário-geral da Federação de Caratê do Japão.

No Brasil, essa arte marcial chegou somente na década de 50. Mesmo assim, conquistou espaço rapidamente e, hoje, o país figura com destaque entre as dez forças mundiais no shotokan, estilo mais popular da luta. Apesar de a maioria dos cerca de um milhão de praticantes estar concentrada no Estado de São Paulo, o carateca brasileiro mais famoso do Japão nasceu bem longe dali, na Bahia.

Francisco Filho, 26 anos, conquistou o respeito dos japoneses por duas vezes. Primeiro como carateca, ao vencer cem lutas seguidas num desafio promovido em Tokyo em 1995. Foram duas horas e meia de combate no estilo kyokushin - que dispensa os protetores usados no caratê tradicional. Ganhou o apelido de homem de ferro e, ainda assim, voltou a quebrar barreiras. Em 1997, foi o campeão do K-1, uma modalidade que faz sucesso entre japoneses por reunir lutadores de várias modalidades vindos do mundo inteiro. Neste ano, Filho conquistou o bicampeonato do K-1 ao derrotar o holandês Peter Aerts. “Não importa a força física, as lutas são como jogo de xadrez: puro raciocínio e concentração”, costuma dizer, sem o menor pudor de parafrasear os princípios dos criadores do caratê.

Reportagem: Sergio Yamasaki, do Japão e Andréia Ferreira, do Brasil

* Matéria publicada na edição 13 da revista Made in Japan
* Leia mais na edição 115 da revista Made in Japan

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