O drama da princesa
Os japoneses já estavam começando a comemorar a tão desejada gravidez de Masako, esposa do príncipe Naruhito. Mas um aborto espontâneo aumentou ainda mais as pressões por parte do povo japonês para que ela se tornasse a progenitora de um outro sucessor para o trono
10.04.2007
Casada desde 1993 com príncipe herdeiro Naruhito, Masako apresentou alguns sintomas indicando que um herdeiro poderia estar a caminho. Foram 20 dias de expectativa e muita especulação em torno da possível gravidez da princesa. Os jornais japoneses estamparam na primeira página que o resultado de um exame de urina feito por Masako no início de dezembro teria dado positivo.
A Agência da Casa Imperial, porém, foi cautelosa. Preferiu aguardar o resultado de um segundo exame para oficializar a notícia. Na tarde de 30 de dezembro de 1999, Masako voltou ao hospital para nova bateria de exames. Durante o ultrassom, porém, a triste constatação: o feto estava morto. Segundo Takashi Okai, chefe do departamento de obstetrícia e ginecologia do Aiiku Hospital de Tokyo, a agenda lotada da princesa e a pressão da imprensa não tiveram nenhuma relação com a interrupção da gestação. “O óvulo fertilizado não foi devidamente implantado na parede uterina”, justificou o médico. Sua declaração, revela outro fato: o de a princesa ter lançado mão dos avanços da medicina ao apelar para uma inseminação artificial na tentativa de gerar o tão aguardado herdeiro.
De acordo com o médico, embora chateados, os príncipes reagiram tranqüilamente à notícia do aborto. “Eles entenderam perfeitamente quando explicamos o resultado dos testes”, disse. “Também achei que estavam muito calmos.” Como o feto não havia se desenvolvido corretamente, não foi possível detectar com precisão em que estágio estava a gravidez, mas calcula-se que a princesa deveria estar na sétima semana de gestação. De acordo com declarações do médico do hospital Aiiku, o risco de um casal saudável ter uma gravidez mal-sucedida é de 10 a 15 porcento. Ainda segundo o médico, o incidente não deve impedir que a princesa volte a engravidar.
Masako havia apresentado os primeiros sintomas no início de dezembro, durante uma viagem à Bélgica, quando assistiu ao casamento do príncipe Phillipe. Ao retornar ao Japão, a princesa teria cancelado um encontro com o imperador Akihito e a imperatriz Michiko. De acordo com informações da Casa Imperial, a princesa estaria indisposta e com febre. No dia 13 daquele mês, foi submetida a duas horas de exames, mas a gestação não pôde ser confirmada. A Agência da Casa Imperial informou que ainda era cedo para divulgar nota oficial, embora os meios de comunicação noticiassem como certa a possibilidade de um herdeiro estar a caminho.
Os testes do dia 30 de dezembro haviam sido marcados para tirar as últimas dúvidas. Mas os médicos não conseguiram ouvir as batidas do coração do feto e Masako teve de ser submetida a uma cirurgia para retirá-lo, passando a noite no hospital. Por recomendação médica, a princesa teve de evitar compromissos oficiais por quase dois meses. Com isso, não pôde comparecer à tradicional cerimônia de boas vindas - realizada no início de cada ano nos jardins do Palácio Imperial -, quando membros da nobre família aparecem na sacada para saudar o público presente.
No dia 9 de dezembro, quando completou 36 anos, a princesa fez algumas referências à proteção da juventude e da infância em sua mensagem de aniversário. Aproveitou a ocasião para pedir também mais atenção da sociedade aos menores. Referiu-se a 1999 como um ano de abusos contra as crianças no Japão, ao problema das drogas e afirmou estar triste com as brigas étnicas mundiais. “Espero que no novo milênio nós possamos construir um mundo pacífico, que permita um futuro brilhante para as crianças não somente do Japão, mas de todo o planeta”, disse a princesa durante a entrevista coletiva. Quanto à sua gravidez, porém, não fez nenhuma referência.
Agora, a expectativa da sociedade a respeito da gravidez da princesa Masako encontra explicação nas leis japonesas, que só admitem homens na linha de sucessão imperial. Seguindo esse raciocínio, a atual dinastia ainda não está ameaçada. O próximo a herdar o trono é Naruhito, o primogênito do imperador Akihito. O que os japoneses aguardam agora é quem será seu sucessor, uma vez que ele, casado há seis anos com a princesa Masako, ainda não conseguiu dar um neto ao imperador. Akishino, o segundo na linha sucessória, é casado com a princesa Kiko, e pai de duas meninas, as princesas Mako e Kako. Elas, assim como a princesa Sayako, filha mais nova do casal imperial, jamais poderão ocupar o trono.
A longa espera pelo próximo herdeiro masculino tem gerado uma série de debates sobre uma eventual mudança das leis que regem a sucessão na Casa Imperial japonesa. Por enquanto, tudo continua igual. E, até que seja feita alguma alteração, o futuro da atual dinastia continua dependendo da princesa Masako, economista graduada na conceituada Universidade de Harvard, que abandonou a carreira diplomática para casar-se com o príncipe Naruhito. A princesa, porém, parece empenhada em gerar o herdeiro ao trono japonês. Os médicos também já deram uma boa notícia: a princesa está bem de saúde e em breve estará pronta para tentar engravidar outra vez. Mas a gravidez em si não basta. É preciso torcer para que venha um homem.
* Matéria publicada na edição 29 da revista Made in Japan, de fevereiro de 2000.
* Leia mais na edição 115 da revista Made in Japan
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