Depoimentos de sobreviventes da bomba atômica
Muitos japoneses que sobreviveram aos ataques de Hiroshima e Nagasaki imigraram para o Brasil e reconstruíram suas vidas. Chamados de gembakusha (vítimas da bomba atômica), eles contam suas histórias e continuam sua luta pela paz
12.03.2007
União pela paz

Morita com os companheiros na época da Segunda Guerra
Morita quando era policialApós 60 anos da explosão da bomba, há uma incessante luta contra as seqüelas desta trágica história. Japoneses que sofreram perdas e passaram pelas terríveis experiências do “gembaku” (explosão da bomba atômica) juntam forças, espalhados pelo mundo todo, a fim de levantar uma única bandeira: a bandeira da paz. No Brasil, quem desempenha essa função é a Associação das Vítimas da Bomba Atômica, fundada há mais de 20 anos por Takashi Morita. Aos 81 anos, Morita preside a entidade e é responsável por estabelecer um diálogo entre as vítimas e o governo japonês. Ele lembra que muitos dos 140 associados hoje eram seus vizinhos na sua cidade natal, Hiroshima.
“Quando a bomba explodiu, eu tinha 21 anos e era um soldado da polícia de Hiroshima. Estava a 1.300 metros do epicentro da explosão. Se meu uniforme fosse feito de um tecido menos resistente, teria morrido queimado. As lembranças que tenho daquele dia são horríveis. Pessoas com os cabelos queimados e as peles penduradas pelos dedos, agonizando de dor, pulavam no rio para tentar aliviar as queimaduras. Só que acabavam morrendo afogadas. Depois de certo tempo, o rio estava coberto por cadáveres. Muitos corpos também foram encontrados nos tanques de água da cidade, que serviam para apagar os incêndios causados pelos bombardeios. O cheiro era insuportável. Todos gritavam. Um colega meu, que esteve nos escombros do epicentro da bomba à procura de seus pais, disse que chegou um ponto onde não havia onde pisar, senão em cadáveres.
“Hoje dedico minha vida para propagar a paz. Tudo que aprendi com a guerra é que ela jamais pode ser repetida. As experiências que nós passamos devem acabar com a nossa geração”, afirma Morita. Para ele, o intuito da associação não é apenas lutar pelos direitos das vítimas diretas da bomba, e, sim, representar e dar voz a todas as pessoas que de alguma forma se prejudicaram com ela. “Na época, muitas crianças se tornaram órfãos, sem ter onde morar, sem ter o que comer. E nada podia se fazer, já que a maioria das famílias não estava em condições de fornecer ajuda. Queremos reivindicar os direitos de todos que tiveram suas infâncias marcadas pelo sofrimento do gembaku. Ninguém é mais vítima que ninguém.”
Morita acredita que o jeito mais eficaz de combater as atrocidades é a educação. “Até a Segunda Guerra, aprendíamos nas escolas que o Japão era o país divino. Morrer em combate pelo seu país era uma honra. Não é a toa que existiam os kamikazes. E não é a toa que ainda existem terroristas que amarram explosivos em seus corpos e se matam em nome de seu país. Tudo depende da educação que recebemos desde criança. Acredito que a paz só pode ser alcançada desta forma. A educação é a chave”.
Takashi Morita, 81 anos, de Hiroshima
* Depoimentos publicados na edição 95 da revista Made in Japan.
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