Arubaito: as férias remuneradas
O trabalho temporário em fábricas e estações de esqui é uma oportunidade para conhecer o Japão e ainda ganhar dinheiro extra
31.07.2006
Renê fez amizades com os japonesesQuer visitar o Japão sem tirar um centavo do bolso? Então aproveite as férias de fim de ano e faça um “bico” nas empresas nipônicas.
Chamados de arubaitos (do alemão arbeit, trabalho), os trabalhos temporários japoneses são feitos tanto por jovens do arquipélago quanto por brasileiros que querem passar pouco tempo no Japão e ainda guardar um dinheiro extra. No caso dos jovens japoneses, há múltiplas oportunidades de serviços, divididas em atendimento ao cliente, restaurantes, escritórios, fábricas e muitos outros. No entanto, para os brasileiros, as chances são mais restritas e se resumem aos empregos nas indústrias e, mais raramente, em hotéis e estações de esqui. Ou seja: quem quiser ir tem de estar disposto a pegar no pesado durante três a quatro meses, lado a lado com os dekasseguis. Financeiramente, costuma valer a pena: com o dinheiro, é possível viajar, inclusive para países do sudeste asiático, comprar alguns presentes e ainda trazer um trocado de volta. “Alguns aproveitam para visitar os parentes e reencontrar as origens”, afirma Midori Nakagawa, de uma das agências de viagens que costumam levar brasileiros para o Japão.
A experiência equivale a um intercâmbio, considerando todas as dificuldades de morar do outro lado do mundo – trabalhar mais de oito horas, cozinhar, lavar a roupa, cuidar da casa e ainda fazer compras não são tarefas fáceis, mesmo que por pouco tempo. Em geral, quem vai para fazer arubaito acaba ficando em alojamentos junto com pessoas na mesma situação, a maioria universitários de 18 a 25 anos. O ambiente fora das fábricas é de festa, o que nem de longe significa brincar em serviço: no Japão, o final do ano é a época de maior produção de grande parte das empresas. A mão-de-obra extra é requisitada para auxiliar apenas nesse período.
A convivência com dekasseguis e japoneses pode ser bastante frutífera. A cobrança por parte dos nipônicos é intensa, característica do rígido sistema hierárquico do arquipélago. No entanto, muitos estão prontos a se aproximar de estrangeiros, sobretudo no ambiente de trabalho. Já com os dekasseguis, é comum surgirem amizades: “Os dekasseguis são carentes de amigos. Por isso, costumam recepcionar bem os arubaitos, levando-os aos lugares que oferecem os melhores preços e até para passear”, comenta Erick Nakabayashi, que já foi duas vezes ao Japão.
Em geral, quem vai é direcionado a fábricas de autopeças, componentes eletrônicos e linhas de montagens. A jornada diária varia de 8 a 12 horas, dependendo do serviço e da quantidade de horas extras. O salário vai de 800 a 1,2 mil ienes (20 a 30 reais por hora). Há casos de quem chega a tirar 400 mil ienes por mês (10 mil reais), o que, no entanto, é cada vez mais raro, dada a crise econômica japonesa.
As empreiteiras costumam financiar as passagens aéreas, que são pagas em até três vezes. Tudo é descontado no salário: alimentação, moradia e eventuais custos extras.
É preciso ter muito cuidado na hora de escolher a agência: “Quando cheguei lá, a empreiteira queria ficar com 30% do meu salário, que já era baixo, 600 ienes por hora”, conta o estudante Marcos Kooro, 20 anos, que trabalhou como lavador de pratos em um hotel de Niigata. “Como era interior, também sofri com a discriminação, pois lá os japoneses são mais conservadores”, relata.
Gêmeos fizeram arubaito no japão
Erick NakabayashiEu fui ao Japão para passear e curtir as baladas. Como meu irmão já havia ido, resolvi ir também – gostei tanto que voltei no ano seguinte. Fiquei no mesmo lugar que ele, em Toyokawa, na província de Aichi. Nas duas vezes, trabalhei na fábrica da Suzuki, na linha de montagem de motos e motores de popa.
O trabalho é pesado, apesar de ter sido bem fácil. Pena que, na segunda vez, não deu para fazer muitas horas extras. Gostei muito do Japão, principalmente da segurança. Os lugares são bonitos, e eu curti muito praticar snowboard. Há muitos preconceitos por parte dos japoneses, mas acho que é justificado, pois os brasileiros fazem bastante bagunça. Principalmente quando estão em grupos! O melhor é a independência para poder viajar sem precisar pedir dinheiro aos pais – afinal, quem vai ter três mil dólares para gastar num passeio desses?
E ainda comprar o que quiser. Eu gostei de ter feito muitos amigos, com quem falo até hoje. Legal é ir com a galera.
Erick Nakabayashi,
21 anos, foi no final de 2001 e de 2002
Renê
NakabayashiEu nunca tive muita vontade de ir ao Japão – nem cogitava fazer um arubaito. Acabei indo por influência dos amigos, que gostaram de ter trabalhado no país. Fiquei na fábrica da Suzuki, na província de Aichi.
Meu trabalho era fácil. Eu e meu amigo ficávamos só colando adesivos o dia todo. Conheci muita gente, inclusive japoneses, com quem cheguei até a sair algumas vezes.
Mesmo sem falar japonês, consegui negociar com o chefe mais horas extras e alguns benefícios.
O mais engraçado foi quando eu quase botei fogo no apartamento. Deixei uma panela no fogão e saí do quarto para conversar. Quando voltei, o fogo já estava nas paredes. Depois, tive de pintar tudo de novo. A viagem despertou meu interesse pela cultura japonesa: visitei as cidades de Kyoto, Tokyo e Hiroshima. Gostei muito da comida e das novidades tecnológicas também.
Gostaria de voltar mais vezes, mas não como dekassegui Em um mês, deu para conhecer bem o Japão.
Renê
Nakabayashi, 21 anos, foi ao Japão no final de 2000

Confira a seguir as dicas que a Made in Japan preparou para quem está disposto a fazer um arubaito:
- Escolha bem a agência de viagem antes de viajar. Se possível, consulte pessoas que já foram pela agência e que possam dar algum depoimento favorável.
- Preste atenção ao contrato e verifique se todos os termos estão claros. Cobre da agência explicações detalhadas sobre os tipos de gastos da viagem.
- O final do ano é inverno no Japão. Portanto, leve roupas para suportar as baixas temperaturas.
- A bicicleta é um dos meios de transporte mais utilizados pelos japoneses e brasileiros. Seja prudente, pois eventuais acidentes podem custar a dispensa do trabalho.
- Embora não seja necessário, é aconselhável que se saiba ao menos um pouco de japonês. Isso facilita a comunicação com os chefes.
- Para evitar conflitos e mal-entendidos, respeite os hábitos e os costumes dos japoneses, os quais são bastante diferentes dos brasileiros.
- No começo, os japoneses costumam ficar com um pé atrás com os estrangeiros. Mas, com o tempo, a convivência fica mais fácil.
- O feriado de uma semana do Ano-Novo é uma ótima possibilidade para viajar. Aproveite para comprar o Japan Rail Pass no Brasil, que dá ao estrangeiro a livre utilização do sistema de transportes do arquipélago por uma semana.
Para ir, é necessário ter uma quantia para sobreviver no primeiro mês. 500 dólares são mais que suficientes. No final, esse dinheiro é reposto pelos salários.
- Não se esqueça de que o trabalho é duro e cansativo, na maioria das vezes. Esteja preparado para acatar ordens dos japoneses.
Para viajar, é necessário ter menos de 35 anos e ser descendente de japoneses. A maioria das vagas, hoje em dia, é para mulheres, que ganham menos.
- Emendar uma viagem ao arubaito pode ser uma boa idéia: use o dinheiro que ganhou no Japão e vá direto para outro país. Tailândia, Indonésia e Austrália costumam ser boas opções.
- Providencie o Kouseki Tohon, que prova a ascendência japonesa. As agências costumam cobrar uma taxa pela segunda via do documento.
Reportagem: Thiago Minami
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