Japoneses no Brasil: Naoko Ando
A estudante japonesa conheceu boa parte do Brasil. De volta para ao Japão, quer reencontrar os encantos do país onde nasceu
17.02.2006
Até fevereiro de 2003, a estudante japonesa Naoko Ando vivia em São Paulo por conta de um intercâmbio. “Vivi 3 anos no Brasil. Achei pouco. Passou tão rápido…”, diz, com jeito de quem vai embora antes da festa acabar. Em 1994, ela e mais duas amigas decidiram viajar para o Brasil junto com um amigo dekassegui brasileiro. Em 1 mês, foram de Santa Catarina até o Rio de Janeiro de carro, pegaram um vôo para Manaus e conheceram a Amazônia, lugar que Naoko até hoje não sabe como explicar em palavras — pelo menos, não em português.
Foi o suficiente para que a então estudante de Literatura Francesa desistisse de Paris e escolhesse o Brasil como destino. Em Tokyo, Naoko manteve contato com a Associação de Intercâmbio Brasil-Japão e, em 1998, veio para São Paulo passar um ano estudando português. Voltou a Tokyo em 1999, mas, não satisfeita, em 2001, arranjou outro intercâmbio para ficar mais 2 anos em São Paulo. Por que tudo isso?
“Lá no Japão, o sistema é automático. Você vai para a universidade, leva uma vida corrida, sem tempo de parar nem pensar no que está fazendo, no que vai fazer, no que vai ser no futuro. Quando vê, já está trabalhando. As pessoas que saem de lá para outros países são diferentes. Elas querem ter algum tempo para espairecer, conhecer coisas novas”.
Hoje, aos 32 anos, Naoko se considera uma pessoa diferente, mais tranqüila. “O brasileiro é distraído, não se importa muito com a aparência nem com o que o outro está achando, e isso é legal. No Japão, nós ligamos muito para o que os outros pensam da gente”, explica. “Acho muito bacana essa comunicação aberta e carinhosa que acontece entre as pessoas daqui. Todos se abraçam, se beijam, demoram para se despedir (risos). No começo, estranhei, mas agora me acostumei. Hoje sou mais carinhosa, não tenho vergonha de ficar abraçando minha mãe nem meus amigos. Vou sentir falta disso quando voltar para o Japão”, admite.
Em sua bagagem de volta, estará levando o violão, que toca há 3 anos, e centenas de CDs de música brasileira. “Acho o português lindo de ser cantado, adoro os arranjos das músicas brasileiras. A mistura de vários instrumentos diferentes e a percussão que eles colocam”, diz Naoko, que sempre que pôde foi a shows de MPB. “Assisti ao Milton Nascimento e Gilberto Gil tocando juntos duas vezes”. Vai levar também peças de artesanato, sua verdadeira paixão. O interesse pelas culturas regionais fez Naoko viajar a diversas cidades brasileiras, como Belém, Manaus, Natal, Salvador, Vitória, Brasília, Recife, Ouro Preto e pelo interior de Minas Gerais, lugar pelo qual guarda o maior carinho — e as mais valiosas peças de artesanato também.
Quando esta entrevista foi feita, Naoko estava prestes a embarcar para Fernando de Noronha. Seria sua última viagem antes de voltar para Tokyo. Vale dizer que, em 3 anos, Naoko conheceu mais do Brasil que grande parte dos brasileiros. Normal? “É a mesma coisa comigo. Nunca viajei assim pelo Japão, da mesma maneira que os dekasseguis que eu encontrei em Tokyo também não conheciam quase nada do Brasil. Parece que as pessoas só se interessam por seu país quando saem dele. Fui entender algumas coisas da cultura japonesa só depois que saí de lá. Agora, eu quero conhecer melhor meu país, viajar bastante pelo Japão”.
Depoimento a Leonardo Nishihata
Matéria publicada na edição #66 da Revista Made in Japan
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