Especial 97 anos de imigração japonesa no Brasil
"Para o Japão, os nikkeis são como um tesouro", diz cônsul geral do Japão em São Paulo
15.03.2005

Com a sinalização de que a retomada do crescimento econômico do Japão, desta vez, é para valer, fica consolidada a tendência de o Japão ser agora destino para imigrações, papel contrário ao que assumiu no século passado, quando fornecia mão-de-obra para as fazendas brasileiras. Assim, o número de japoneses entrando no Brasil – os motivos que os trazem para cá estão matéria de capa da edição 93 de Made in Japan - hoje é insignificante, comparado ao que era no auge da imigração. Em 2004, pouco mais de 500 japoneses se registraram no consulado geral do Japão em São Paulo, responsável, além do próprio Estado, por Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e a região do triângulo mineiro. O registro é feito por pessoas que pretendam ficar aqui por mais de três meses. Para se ter uma idéia, em 1965 entraram cerca de 45 mil japoneses no país.
Essa queda significativa, no entanto, não significa que os japoneses não tenham interesse pelo Brasil, segundo Rina Sugimoto, vice-cônsul do Consulado Geral do Japão em São Paulo.
“O Brasil é conhecido no Japão, principalmente por seu carnaval, samba, futebol, Amazônia, etc. Mas é pouco visitado devido à enorme distância geográfica que separa os dois países. O Brasil se situa do outro lado do globo, o que requer mais de vinte e quatro horas de viagem, e os japoneses, de forma geral, dificilmente conseguem férias longas e optam por outros destinos mais próximos”, afirma Rina.
Para Hitohiro Ishida, que depois de quase dois anos no posto de cônsul geral em São Paulo retorna ao Japão, o interesse dos japoneses pelo Brasil deve aumentar, depois de quase duas décadas estagnado. “Durante os anos 80, a crise enfrentada pelo Brasil traumatizou os japoneses, que perderam muito dinheiro depois de ter feito investimentos. Agora, no entanto, com a retomada das negociações, o fluxo de investimentos e mesmo de pessoas deve aumentar”, analisa.
A presença de uma grande comunidade nikkei no país, ele acredita, pode favorecer essa retomada. “Para o Japão, os nikkeis são como um tesouro. Eles podem determinar o sucesso da retomada da relação entre os dois países. Sem contar que os dekasseguis - fruto da imigração iniciada para cá há quase cem anos - têm contribuído para os dois países”. Ele comenta que, para o Brasil, os descendentes trabalhando no Japão são uma das maiores fontes de remessa de dinheiro vindo do exterior. Para o Japão, contribuem com mão-de-obra, cada vez mais escassa no Japão.
“Para o próximo cônsul, ficará o desafio de organizar as comemorações para o centenário da imigração, em 2008. O governo japonês está disposto a ajudar, desde que a comunidade nikkei apresente seus projetos e que eles se mostrem relevantes. Queremos que, mais que uma grande festa, seja um momento de retomada de cooperação entre os dois países, que possa beneficiar não apenas os descendentes, mas todos os brasileiros”.
Antes e depois
Noventa e sete anos depois de o Kasato Maru ter aportado em terras brasileiras, as relações entre Brasil e Japão evoluíram bastante - e, quanto ao fluxo migratório, os países até inverteram os papéis.
1908
Em 28 de abril, parte de Kobe o navio Kasato Maru, que traz os primeiros imigrantes japoneses ao Brasil. Em 18 de junho, 781 pessoas desembarcam no porto de Santos.
Hoje
Cerca de 1,5 milhões de japoneses e descendentes vivem no Brasil, o que representa a maior comunidade nikkei no mundo.
1915
Aberto o primeiro consulado japonês em São Paulo.
Hoje
Além da embaixada em Brasília, funcionam sete consulados gerais do Japão em capitais brasileiras.
1950
Para unir a comunidade nipo-brasileira - durante a segunda-guerra, associações de estrangeiros haviam sido proibidas, o que diminuiu a coesão da colônia -, apresentam-se no Brasil os “peixes voadores”, grupo de nadadores japoneses
Hoje
Os festivais japoneses no Brasil - Festival do Japão, Animecom e Festival Nipo-brasileiro, por exemplo - reúnem mais de 500 mil pessoas, descendentes de japoneses ou não.
1958
Em 26 de julho, chega ao aeroporto de Haneda, em Tokyo, o primeiro vôo da Varig ao Japão.
Hoje
Há saídas diárias de São Paulo para Tokyo e Nagoya, com diferentes opções de escala e companhias aéreas.
1961 e 1962
Em 1961, ex-presidente da Repœblica Juscelino Kubitschek viaja ao Japão; em 1962, o ex-primeiro ministro japonês visita o Brasil.
2004 e 2005
Em visita oficial ao Brasil, primeiro ministro do Japão Junichiro Koizumi é recepcionado pelos descendentes e se emociona. Faz também convite oficial para que o presidente Lula visite o Japão. Em 2005, acontece a viagem oficial, marcada como o primeiro encontro de um presidente brasileiro com os dekasseguis.
1972
Em 17 de fevereiro, é aberta a primeira agência do Banco do Brasil em Tokyo
Hoje
Além do Banco do Brasil, hoje Bradesco, Banespa, Itaú e ABN mantêm agências e serviços voltados para os brasileiros residentes no Japão
1990
Em 1º de junho, entra em vigor a nova lei japonesa de imigração, que permite aos descendentes sem especialização trabalharem no Japão. O fluxo da imigração é invertido
Hoje
Os dekasseguis formam a 3ª maior comunidade brasileira no exterior, com mais de 270 mil pessoas. Escolas, lojas e restaurantes brasileiros funcionam em cidades localizadas em diversas regiões do Japão.
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