Entrevista com Supla
O cantor fez shows no Japão e fala das suas impressões sobre o arquipélago
16.11.2004
Andressa Christofolett Viviani
São Paulo

Sanduíche em uma mão, lata de refrigerante na outra e um celular que não parava de tocar. Foi assim que Supla, uma das maiores figuras do rck’n’roll tupiniquim, recebeu a reportagem da Made in Japan: na tarde de uma terça-feira abafada, em pleno centro de São Paulo, no camarim, antes de uma apresentação - pasmem - acústica. No meio da entrevista, a atriz Cláudia Rodrigues, a Marinete do seriado A Diarista, da Globo, ligou dizendo que queria ir ao show. Simpático, o astro logo deu um jeito de colocá-la para dentro - afinal, o espetáculo era para um público de apenas 100 pessoas (entre elas, engravatados, senhoras de idade, crianças, gente tatuada e o pai coruja e senador Eduardo Suplicy), e tinha lotação esgotada. Todas esperavam ansiosas para ouvi-lo cantar o hit Green Hair, cujos versos “Japa Japa Girl in Brazil/Japa Japa Girl agora aqui no Brasil” deixaram, no último mês de junho, tanto dekasseguis quanto japoneses legítimos em polvorosa, literalmente. Isso mesmo: assim como Sandy & Junior, Serginho Groisman e Tribo de Jah, o músico acaba de debutar (e em grande estilo) em território oriental. “Nunca tinha ido para lá, o que é engraçado, porque tocava em uma banda chamada Tokio, e ainda tem a história da Japa Girl, né?”, conta, bem-humorado.
Descanso? Não, trabalho
A viagem durou 12 dias e, ao contrário do que você deve estar pensando, não foi a passeio, não. Supla esteve no arquipélago para fazer duas apresentações, captar imagens para um futuro DVD (ainda sem data de lançamento) e gravar o videoclipe da música-título de seu próximo CD, Menina Mulher, que foi lançada no Brasil em novembro. “Fui divulgar meu disco Bossa Furiosa (2003), que já está disponível nas lojas do Japão, e fiz dois shows: um para a ‘japonesada’ mesmo, em uma casa de chá, e outro para brasileiros, em Osaka”, revela.
Impressões
O roqueiro afirma que ficou impressionado com a receptividade do povo nipônico. “Fui muito bem recebido. As pessoas que conheci eram educadas e atenciosas. Em duas semanas não dá para sentir tanto, mas achei tudo bem bacana”. Fã da cultura do país (“Adoro!”), Supla também admite uma queda pelas garotas de olhinhos puxados. “Nunca namorei, porém já dei uns beijos em algumas”, confessa. Durante o show para os japoneses, a empolgação da platéia chamou sua atenção. “Quando cantei bossa nova em inglês, eles não entenderam - ‘Esse cara é do Brasil ou é americano?’. Mas o pessoal gostou muito”, recorda. “Foi tão legal que quero voltar outras vezes”.
Público
“Não posso reclamar do tratamento que os brasileiros têm me dado aqui. Seria um acinte! Graças a Deus eu tenho um nome - que perdi durante os sete anos em que fiquei fora do País, e depois consegui recuperar, vindo pelos Piores Clipes (programa apresentado por Marcos Mion, em 2000, na MTV), pela novela da Globo (Um Anjo Caiu do Céu, de 2001) e pela Casa dos Artistas (exibida pelo SBT também em 2001). Depois disso, nunca mais voltei para os EUA com a intenção de morar. Não deixaria o Brasil agora”. Ou seja, o astro, que viveu em Nova York na década de 90, não tem a menor vontade de deixar sua terra natal outra vez - e a culpa é, exclusivamente, do carinho que ele tem recebido do público.
Disco novo
O filho caçula do cantor, batizado de Menina Mulher, é temático (nem é preciso dizer qual o assunto, certo?) e o primeiro de sua carreira a reunir apenas versões em português para grandes sucessos dos anos 80. “São 13 canções que falam de relacionamentos. O CD está bem divertido, tem até uma versão de Please Mr. Postman (da banda The Carpenters)”, explica. A má notícia é que Supla ainda não sabe se o álbum será comercializado no Japão. “Vamos lançar no Brasil primeiro para depois mandá-lo para o exterior. Mas em breve vai sair uma coletânea The Best of Supla nos EUA, e ela deve rodar o mundo inteiro”.

Tokio
Primeiro: o nome do antigo grupo do roqueiro não foi inventado por ele. Segundo: a princípio, Supla detestou a idéia, mas depois acabou se acostumando. “Eu não gostava muito, não, porém hoje acho legal. Para mim, Tokio não dizia nada. Na época, eu queria um nome mais radical. Pensando bem, foi até bom para o projeto, porque era uma alcunha neutra. O que é Tokio? Pode ser a cidade mesmo ou sei lá o quê. No fim, vi que soava bem”, lembra.
Política
Não dá para fugir: filho da prefeita de São Paulo, Marta Suplicy, e do senador Eduardo Suplicy, o astro está sempre envolto em questões políticas. Fez campanha para a mãe, candidata derrotada à reeleição, e não hesita em declarar, no meio de um espetáculo, que o pai é o melhor membro do Senado brasileiro. Tamanha militância acaba lhe rendendo algumas dores de cabeça. “Não tem jeito. Às vezes, sou prejudicado - tem rádio que não vai tocar minha música porque não apóia minha mãe, e eu danço nessa”, reclama, com os ânimos exaltados. “Cada um tem um carma na vida. Melhor encarar e seguir em frente, não é mesmo?”. Com certeza, papito!
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